
De fato, tomar chá com açúcar seria como cometer o mesmo sacrilégio de tomar chimarrão açucarado. Até mesmo a prática de tomar chá atualmente deixaria confusos e até mesmo irritados os antigos mestres que o descobriram.
Você ferve água, pega um saquinho de chá ou folhas soltas, coloca na xícara e deixa em infusão. É assim que o mundo todo prepara chá, certo? Bem, nem tanto.
Durante milhares de anos, a bebida mais popular do mundo nunca foi preparada por infusão. O chá nunca foi feito para ser preparado dessa forma.
Vamos voltar à China antiga, há mais de 2.000 anos. No início, o chá não era uma bebida reconfortante para a tarde. Era um remédio. As folhas cruas da planta Camellia sinensis eram amargas e potentes. Em vez de deixá-las em infusão delicadamente em um bule, as pessoas tratavam as folhas de chá como vegetais.
Eles ferviam as folhas frescas em água, muitas vezes adicionando gengibre, sal, cascas de laranja e, às vezes, até cebola.
Era, essencialmente, uma sopa de vegetais amarga e com cafeína. Por volta do século VIII, durante a Dinastia Tang, o chá tornou-se um pouco mais refinado, mas ainda não era preparado por infusão.
Em vez disso, as folhas de chá eram cozidas no vapor, trituradas e prensadas em blocos sólidos como pedra. Para preparar uma xícara, era preciso quebrar um pedaço do bloco, tostá-lo sobre fogo aberto, moê-lo até virar pó e, então, fervê-lo em um caldeirão com uma boa pitada de sal.
Avançando para a Dinastia Song, por volta do século X, o sal e as cebolas finalmente desapareceram, mas ainda não se preparava o chá por infusão. Essa foi a era do chá batido.
Os preparadores de chá moíam cuidadosamente folhas de alta qualidade até obter um pó ultrafino de cor verde-vibrante. Eles colocavam esse pó em uma bela tigela de cerâmica, despejavam água fervente e usavam um batedor de bambu para bater a mistura rapidamente, até que uma espuma espessa se formasse na superfície.
Se isso lhe soa familiar, é porque esse método específico acabou sendo levado para o Japão, onde foi preservado e evoluiu para as tradicionais cerimônias de matcha que virou febre no mundo atual. Mas, na China antiga, essa bebida em pó e espumosa era o auge do luxo.
Então, quando finalmente começamos a simplesmente despejar água quente sobre as folhas? Você pode agradecer ao primeiro imperador da Dinastia Ming, o Imperador Hongwu, no ano de 1391.
O método tradicional de produzir tijolos de chá prensado exigia um trabalho imenso. Para dar uma trégua aos agricultores e conter a corrupção entre os funcionários ricos que controlavam o comércio de chá, o imperador proibiu totalmente os tijolos de chá.
Ele decretou que todo o chá enviado à corte real deveria estar na forma de folhas soltas. Essa decisão política isolada mudou para sempre a história da bebida.
Sem blocos para moer, as pessoas simplesmente começaram a colocar folhas soltas tostadas em um recipiente e a despejar água quente sobre elas. A era moderna da infusão nascia oficialmente.
Mas essa evolução de 5.000 anos teve um último capítulo, totalmente acidental. Em 1908, um comerciante de chá americano chamado Thomas Sullivan estava enviando pelo correio amostras de seu chá de folhas soltas.
Para economizar nas latas de metal, ele embalou o chá em pequenas trouxinhas de seda costuradas à mão. A ideia era que os clientes abrissem as trouxinhas. Em vez disso, eles não entenderam bem a proposta e colocavam a trouxinha de seda inteira diretamente na xícara de chá. Eles acharam isso incrivelmente prático. E assim, o saquinho de chá moderno foi inventado por acaso.
De uma sopa vegetal amarga a uma espuma verde batida, passando pelo pequeno saquinho de papel que está no armário da sua cozinha agora mesmo, o chá tem sido constantemente reinventado.
O chá mais esquisito que eu tomei é o po cha (ou pôtcha). O chá chegou ao Tibete no século VII vindo da China, inicialmente consumido somente pelas elites. O hábito de beber chá se espalhou pela população tibetana como item essencial de sobrevivência.
Mas a partir do Século X, os tibetanos misturaram a manteiga (tradicionalmente de iaque) e o sal ao chá porque esses ingredientes já eram básicos na sua culinária e ajudavam a repor calorias e energia no frio extremo das montanhas.
Não existe o nome de uma pessoa específica creditada pela invenção do po cha. Ele é o resultado de uma evolução cultural e gastronômica coletiva do povo tibetano.
Uma lenda popular atribui a introdução do hábito de beber chá no Tibete à princesa chinesa Wencheng, que se casou com o rei tibetano Songtsen Gampo no século VII. Ela levou o chá de tijolo da China como parte de seu dote.
Uma vez que as folhas de chá chegaram às montanhas, os pastores e nômades locais começaram a misturá-las com a manteiga de iaque e o sal, ingredientes que já faziam parte do seu dia a dia. Eles perceberam que essa combinação era perfeita para evitar a desidratação e fornecer calorias contra o frio extremo do Himalaia.
O po cha foi "inventado" pela própria necessidade de sobrevivência das comunidades da região, se popularizou amplamente, se tornou a bebida oficial do Tibete, e passou a ser integrado em cerimônias religiosas locais.
É gostoso? Para mim é um rotundo "Não!" Apesar de gostar tanto de chá como manteiga de iaque (Diliça!), a mistura parece uma sopinha de gordura.
Curiosamente, o po cha inspirou um empresário do Vale do Silício a criar o Bulletproof Coffee (Café com manteiga). Ele foi "inventado" pelo empreendedor e investidor do Vale do Silício, David Asprey, depois de experimentar o chá de manteiga de iaque no Tibete. A bebida combina manteiga de iaque alimentado no pasto, óleo e café em um café da manhã digno de campeões que, segundo David, suprime o apetite e dá um impulso ao cérebro. Passo!
As primeiras mudas de chá chegaram oficialmente ao Brasil em 1812, trazidas de Macau por ordem do príncipe-regente Dom FuJoão VI. O objetivo era iniciar uma produção comercial competitiva na corte e exportar o produto para a Europa. O cultivo começou no Jardim Botânico do Rio de Janeiro com o auxílio de centenas de trabalhadores chineses.
Embora o Brasil tenha uma longa história com o cultivo da planta, o brasileiro nunca desenvolveu o hábito cultural de consumir o chá de forma recreativa ou diária. No Brasil, onde o café reina absoluto, tomar um "chazinho ficou associado culturalmente a estar doente ou indisposto.
Sendo um país predominantemente quente, o consumo tradicional de bebidas quentes ao longo do dia é menos atraente. Nas regiões onde bebidas à base de ervas se popularizaram, a preferência tendeu para opções geladas ou muito específicas, como o mate (no Rio de Janeiro) e o chimarrão/tereré (no Sul e Centro-Oeste).
No início do século XX, a imigração japonesa revitalizou o cultivo da Camellia sinensis no Vale do Ribeira (SP), tornando a região de Registro a "capital do chá". No entanto, a produção era quase toda voltada para a exportação. Crises econômicas na década de 1990 desmantelaram essas plantações, reduzindo o acesso e o incentivo ao produto de alta qualidade no mercado interno.
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