![]() | Durante séculos, viajantes que visitavam o extremo sul da América do Sul retornavam com histórias surpreendentes, falando de uma terra varrida por ventos ferozes e de planícies intermináveis, habitada por pessoas de estatura extraordinária. Alguns afirmavam que esses habitantes eram gigantes, muito mais altos do que os homens comuns. Seus relatos capturaram a imaginação da Europa e ajudaram a criar um dos mitos geográficos mais duradouros da história: os Gigantes da Patagônia, cuja primeira menção surgiu no relato do cronista italiano Antônio Pigafetta sobre as viagens de Fernão de Magalhães. |

Em 1520, o explorador português Fernão ancorou na costa do que hoje é a Argentina. Um dos cronistas da expedição, Antônio Pigafetta, descreveu o encontro com indígenas locais que os europeus consideravam notavelmente altos. Segundo Antônio, o espanhol mais alto mal chegava à cintura do gigante.
- "Certo dia, vimos de repente um homem nu de estatura gigantesca na margem do porto, dançando, cantando e jogando terra sobre a cabeça" escreveu Antônio, ressaltando que nesse momento o capitão Fernão enviou um dos marinheiro até o gigante para que ele realizasse os mesmos gestos como sinal de paz.
- "Feito isso, o homem conduziu o gigante até uma pequena ilha onde o capitão aguardava. Quando o gigante se viu na presença do capitão-e de nós, ficou muito admirado e fez sinais com um dedo apontado para o alto, acreditando que tínhamos vindo do céu. Ele era tão alto que chegávamos apenas à sua cintura, e tinha proporções harmoniosas", contou Antônio.
Tais descrições eram sensacionalistas e espalharam-se rapidamente pela Europa. A região logo passou a ser associada a habitantes gigantes.
Diz-se que os homens de Fernão chamavam a população local de "Patagones", um termo cuja origem permanece incerta, mas na época de Antônio, supunha-se que a palavra derivava de "pata" (pé), e "gon" foi interpretado erroneamente no imaginário popular como um sufixo aumentativo, que significaria "grande".
Por que eles ganharam esse apelido? Os indígenas usavam grandes mocassins feitos com camadas grossas de pele de guanaco (um animal parente da lhama). Quando eles caminhavam pela neve, essas botas deixavam pegadas imensas e desproporcionais, o que assustou os marinheiros.
Historiadores modernos e análises linguísticas apontam que o sufixo "gon" não serve e nem servia para criar o aumentativo de "pata". Em espanhol o correto seria patón, e não patagón. Por isso, a hipótese mais provável e aceita hoje é que o nome veio de um livro de ficção.
Naquela época, os romances de cavalaria eram uma febre na Europa. Em 1512, foi publicado um livro muito famoso chamado "Primaleón. Nessa história, o herói enfrenta uma criatura selvagem, monstruosa e gigantesca vestida com peles de animais chamada justamente Patagón.
Ao dar de cara com nativos altíssimos e vestidos com peles de guanaco, Fernão de Magalhães imediatamente se lembrou do monstro do livro e apelidou o povo de patagones.
Com a paisagem dos anos, o nome passou a ser associado não apenas ao povo, mas também à vasta região em si, que ficou conhecida como Patagônia.
Um século mais tarde, em 1628, o sobrinho de Sir Francis Drake detalhou a circum-navegação de seu tio na obra "The World Encompassed" e mencionou novamente os lendários gigantes habitantes da Patagônia.
O sobrinho de Francis sugeriu que, embora os nativos fossem muito mais altos do que quaisquer europeus que a tripulação tivesse visto, talvez a equipe de Fernão tivesse exagerado "um pouquinho" no tamanho dos patagônios. Francis reduziu a estimativa de altura de 3 metros para aproximadamente 2,3 metros, mas ele próprio também exagerou "um pouquinho".
Fernão não se enganou totalmente ao chamá-los de gigantes; pois eles geralmente diferiam do tipo comum de indígena, tanto em estatura, quanto em porte e força. Mas é certo que Fernão queria exagerar visando torná-los mais mostruosos para justificar a selvageria que cometeria à captura de reféns mais tarde.
Relatos sobre esses gigantes continuaram a surgir ao longo do século XVIII. Em 1766, o capitão John Byron, avô do poeta Lord Byron, também retornou de uma circum-navegação. Pouco depois, espalhou-se o boato de que a tripulação havia visto uma tribo de nativos com 2,7 metros na Patagônia.
Uma viagem subsequente realizada por Wallis e Carteret em 1767 levou relatos para a Europa de que os patagônios vistos por eles tinham, em sua maioria, entre 1,78 a 1,83 metro, sendo que o mais alto media 2 metros.
O explorador francês Louis de Bougainville relatou que o patagônio mais alto que encontrou media apenas 1,93 metro, enquanto Guyot e Giraudais relataram, em 1766, que o mais baixo que viram media 1,70 metro.
Esses relatos conflitantes levaram alguns historiadores a sugerir que, talvez, os viajantes tivessem encontrado populações diferentes na região.
Quando um relato oficial das viagens foi publicado em 1773, John Byron desmentiu categoricamente o mito. No entanto, ele observou a estatura excepcional dos patagônios, registrando que era comum encontrar homens com mais 1,90 metro na tribo.
Estudiosos acreditam que muitos dos habitantes indígenas encontrados pelos exploradores europeus pertenciam a um grupo conhecido como Tehuelche, que eram, de fato, mais altos do que a média dos europeus do século XVI.
Em uma época em que muitos europeus mediam cerca de 1,68 metros, os homens Tehuelche podiam ultrapassar facilmente o 1,80 metro. Somado ao porte robusto e às capas pesadas feitas de peles de animais, e a tendência dos marinheiros de exagerar em suas aventuras, eles pareciam enormes aos visitantes estrangeiros.
À medida que informações mais confiáveis chegavam à Europa, o mito foi perdendo força gradualmente. Medições realizadas por exploradores revelaram que os Tehuelches tinham, em geral, entre 1,80 e 2,10 metros de altura, o que era impressionante para a época, mas muito aquém dos gigantes imensos descritos nos relatos anteriores.
Já no século XIX, a maioria dos estudiosos via essas lendas como exageros, e não como fatos literais.
A história do povo tehuelche percorre mais de 9 mil anos. Embora discursos históricos e oficiais do século XX tenham propagado o mito de seu desaparecimento total, o povo continua existindo, resistindo e lutando pelo reconhecimento de sua identidade e de suas terras ancestrais.
A confusão sobre a suposta extinção decorre de severos processos históricos e de critérios governamentais antigos. Por muito tempo, o Estado e cientistas consideraram o grupo "extinto" baseando-se apenas no desaparecimento de falantes fluentes da língua original ou pelo forte processo de miscigenação e integração cultural com crioulos e com o povo Mapuche.
No censo oficial mais recente da Argentina, mais de 40.000 pessoas se autoidentificam como tehuelches, muitas delas integradas em comunidades mistas mapuche-tehuelche.
Hoje, as comunidades remanescentes mantêm viva a sua memória através de processos de etnogênese, oficinas de revitalização cultural e disputas territoriais na Patagônia. Ah sim, continuam homenzarrões.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários