![]() | No final da década de 1950, os cidadãos de Hong Kong corriam para as bancas de jornal para comprar a edição mais recente do periódico "Commercial Daily". Mas nem todos os leitores buscavam notícias da atualidade. Muitos acompanhavam uma história ambientada séculos no passado, um conto de aventura e guerra, romance e intriga, fraternidade e traição. Publicada em capítulos entre 1957 e 1959, a obra "A Lenda dos Heróis do Condor", de Jin Yong, é o primeiro livro da aclamada "Trilogia do Condor". |

Essa saga épica que atravessa gerações é considerada uma das obras mais importantes da ficção chinesa, e uma das melhores histórias de wuxia já escritas. O wuxia, traduzido livremente como "herói marcial", é um gênero popular da ficção chinesa com raízes em contos folclóricos de mais de 1.500 anos.
As histórias de wuxia geralmente focam em artistas marciais nômades regidos por um código de honra e cavalheirismo. Esses heróis viajam por uma versão mitológica da China antiga chamada jianghu, repleta de líderes poderosos, bandidos errantes e artefatos místicos. Para enfrentar esses desafios, os heróis wuxia precisam aprender feitos sobre-humanos de artes marciais a partir de pergaminhos antigos e com mestres imortais reclusos.
"A Lenda dos Heróis do Condor" combina essa ação de artes marciais com momentos cruciais da história chinesa. O livro se passa no século XIII, em meio a uma guerra centenária entre a dinastia Jin (dos Jurchens) e a dinastia Song (dos chineses Han). Após cerca de 70 anos de conflito, um novo inimigo entra na disputa: Gengis Khan.
Os mongóis ameaçam derrubar ambos os impérios, e as incursões de todos os lados espalham o caos pelo continente. O romance começa em uma aldeia Han, onde dois futuros pais selam um pacto de irmandade de sangue para seus filhos ainda não nascidos. Os nomes das crianças, Guo Jing e Yang Kang, foram gravados em um par de adagas.
No entanto, um ataque repentino dos Jurchens separa as famílias. Guo Jing cresce entre os mongóis, mas permanece leal à sua herança Han. Enquanto isso, a realeza Jurchen cria Yang Kang como um príncipe ardiloso, preparando o cenário para o trágico conflito entre os dois irmãos.
O romance de Jin acompanha o ingênuo, porém bondoso, Guo Jing e sua inteligente amada, Huang Rong. A jornada deles os leva à agitada Hangzhou, capital da dinastia Song, às inóspitas estepes mongóis e à lendária cidade comercial de Samarcanda. Nossos heróis percorrem o jianghu, encontrando personagens pitorescos e testemunhando eventos históricos cruciais.
Enquanto enfrentam inimigos, descobrem tesouros e ajudam a solucionar crimes locais, suas habilidades em artes marciais tornam-se lendárias, preparando Guo Jing para o confronto que o destino lhe reservou.
O romance apresenta mais de 80 estilos distintos de artes marciais, variando de técnicas realistas a manobras quase místicas. No entanto, até mesmo movimentos aparentemente simples possuem uma profundidade surpreendente.
Para dominar uma técnica que lhe permita desferir dois ataques simultâneos, Guo Jing precisa primeiro aprender a desenhar, ao mesmo tempo, um círculo com uma mão e um quadrado com a outra. Esse tipo de treinamento, cuja dificuldade é enganosa, atormenta tanto os estudantes de wuxia quanto os leitores.
Jin Yong era o pseudônimo de Louis Cha, jornalista e fundador do jornal "Ming Pao Daily News". Nas décadas de 1960 e 1970, o gênero wuxia foi banido devido às suas associações com o feudalismo. Contudo, em Hong Kong, então uma colônia britânica, Louis podia escrever ficção e noticiar a Revolução Cultural livremente.
Ele chegou a trabalhar para conferir profundidade e complexidade a um gênero frequentemente considerado formulaico e de baixa qualidade literária.
"A Lenda dos Heróis do Condor" celebra a identidade chinesa ao explorar a cultura e a história da China com uma humanidade profunda e íntima. Embora os livros de Jin tenham sido proibidos na China, sua obra encontrou leitores chineses em todo o mundo, e versões piratas chegaram até mesmo ao continente.
Quando o governo chinês flexibilizou suas políticas na década de 1980, seus romances encontraram um público ávido. Hoje, as obras de Jin Yong foram adaptadas para o cinema, a televisão e os videogames.
Seus romances são tão adorados que se costuma dizer: - "...onde houver chineses, haverá a ficção de Jin Yong.". No entanto, esse gigante da literatura permanece relativamente desconhecido no Ocidente, devido às dificuldades de tradução e ao vasto conhecimento da cultura chinesa que suas obras exigem.
Felizmente, traduções recentes para o inglês de "A Lenda dos Heróis do Condor" estão ajudando uma nova geração de leitores a vivenciar a grandiosa saga dos "rios e lagos".
Eu já conhecia a obra de Jin Yong, mas somente hoje me ocorreu uma masturbação mental muito séria. Enquanto Jin Yong publicava "A Lenda dos Heróis do Condor em jornais entre 1957 e 1959 (e revisava as obras nos anos 70), um jovem chamado Lee Jun-fan, mais conhecido como Bruce Lee, desenvolvia seus conceitos cinematográficos e filosóficos no final dos anos 60.
Ambos os autores estavam respondendo a um sentimento de orgulho e identidade nacional chinesa que precisava ser exportado ou reafirmado para o mundo no pós-guerra.
Há um paralelo temático e cultural inegável entre as obras de Jin Yong e Bruce Lee, esses dois gigantes das artes marciais. Embora o gênero wuxia e os filmes de Kung-fu tenham roupagens diferentes, eles bebem exatamente da mesma fonte filosófica e histórica.
Ainda que não haja registros históricos de que Jin e Bruce tenham se encontrado ou de que um tenha consumido a obra do outro diretamente, eles foram rigorosamente contemporâneos.
Não se trata de uma mera coincidência, mas sim de um reflexo cultural compartilhado, o conceito do herói errante (Xia) do monge Kwai Chang Caine em Kung Fu, vivido pelo ator David Carradine e baseado no roteiro de Bruce Lee para "The Warrior" nada mais é do que a transposição do herói de jianghu para o Velho Oeste americano.
Ambos os cenários funcionam como territórios sem lei, onde a justiça institucional falhou e o indivíduo precisa usar suas habilidades marciais e seu código moral para proteger os fracos.
A filosofia marcial além do combate. Tanto em Jin Yong quanto no pensamento de Bruce Lee, a luta nunca é apenas sobre violência. Em "Heróis do Condor", o verdadeiro mestre compreende o Dao (o Caminho) e o Yin e Yang.
Bruce Lee baseou sua filosofia marcial, que gerou o Jeet Kune Do nesses mesmos princípios de fluidez, adaptação e retidão moral. Portanto, mesmo sem um aperto de mãos registrado na história, Jin Yong e Bruce Lee estavam canalizando a mesma herança cultural clássica chinesa e adaptando-a para o século XX.
Um fez isso através da literatura de massa em Hong Kong, e o outro através do cinema e da televisão globais.
Uma das maiores tristezas de Bruce foi que ele escreveu o roteiro de "The Warrior", com a intenção de ser o astro principal, mas foi enganado pela Warner Bros, que entregou o papel para David Carradine, que nem sabia o que era arte marcial.
Se Bruce Lee não tivesse morrido tão jovem (dois anos depois do lançamento da série), é muito provável que a postura teria mudado e com sua fama, muito maior, questionaria (ou não) o estúdio.
- "Estou cansada de ouvir de homens brancos de Hollywood que ele era arrogante e cuzão, quando não têm ideia o que era necessário para conseguir trabalho em Hollywood nos anos 1960 e 1970 como chinês com sotaque", disse Shannon Lee, filha de Bruce depois do verdadeiro desrespeito de por Quentin Tarantino com uma cena tosca e desnecessária no filme "Era uma vez em... Hollywood". - "Estou cansada de ouvir de homens brancos de Hollywood que ele não era um lutador de artes marciais e que só fazia isso nos filmes. Meu pai vivia e respirava artes marciais. Ele ensinava artes marciais, escrevia sobre artes marciais, criou sua própria arte marcial", asseverou Shannon.
Com respeito às origens de David Carradine, também espalhou-se a história na época de que era parcialmente oriental, tentando "amarelá-lo". Isto é completamente falso; o rumor só serviu para lhe dar um respaldo à decisão de aceitar o papel.
Seja como for, todos concordam hoje que o papel foi feito para ele. Ainda que nunca chegou a ser um verdadeiro artista marcial, ele aprendeu o bastante para que seu nome tenha ficado associado para sempre com este papel e com as artes marciais, chegando a ter um papel de destaque em "Kill Bill".
Entre 1972 e 1975, "Kung Fu" fez um sucesso monstruoso no mundo inteiro. No Brasil se tornou quase uma religião assistir o seriado, que era exibido em horário nobre nos domingos à noite na Globo, depois do fantástico. Com as retransmissões que se seguiram, a série, de fato, marcou forte a vida de pelo menos duas ou três gerações.
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