![]() | Existem maneiras gloriosas de entrar para a história, como matar um dragão, conquistar um império, fazer uma descoberta fantástica, correr os 100 metros rasos em de 9,58 segundos e... há esse pobre coitado, cujo nome nem sequer sabemos, mas que conseguiu se tornar o protagonista de uma das cenas mais surreais da Antiguidade usando "a escova de vaso sanitário", cuja história foi contada pelo filósofo Sêneca, o Jovem, sobre um gladiador germânico, capturado por Roma, aguardando sua vez de entrar na arena. |

A glória não o esperava ali, mas sim milhares de espectadores ávidos para vê-lo ser estripado enquanto devoravam focinhos de lontra, pretzels de camelo ou chips de mamilo de lobo... pelo menos é isso o que grita um vendedor ambulante do filme "A Vida de Brian" (1979), do grupo de humor britânico Monty Python. Não sei se sou o único, nas nunca achei graça desses caras.
Essa "piada sem graça" surgiu quando eles leram um livro de um cara chamado Apício que contava que a elite romana, em seus banquetes privados, realmente gostava de pratos exóticos para ostentar: línguas de flamingo ou papagaio, útero de porca jovem, arganazes (um tipo de roedor) recheados com carne moída e assados no mel, e outras delícias.
Roma chamava isso de entretenimento. O homem, que estava confinado em uma escola de treinamento para gladiadores que lutavam contra feras (ludo bestiariorum) em Roma, sabia que tinha duas opções: morrer ou morrer. A primeira lentamente para divertir o público. A outra era encontrar uma saída rápida antes de se tornar, sem querer, a estrela do espetáculo.
Antes do "show", ele foi às latrinas, a única coisa que lhe era permitido fazer em segredo e sem a presença de um guarda. Ali pegou o único utensílio que encontrou: um tersório (também conhecido como xilospôngio), um bastão com uma esponja na ponta, cujo uso exato ainda é debatido pelos arqueólogos.
Por muito tempo, acreditou-se que fosse usado para higiene pessoal, mas hoje muitos pesquisadores pensam que, na verdade, era uma ferramenta para limpar a própria latrina... ou a bunda.
Em resumo, nem sabemos ao certo para que servia aquele aparato, mas sabemos que ele acabou sendo o objeto de um dos suicídios mais incomuns que a Antiguidade nos legou.
Como Sêneca, o Jovem, relatou em suas Cartas a Lucílio, que o gladiador pegou aquele instrumento e o enfiou goela abaixo até morrer. A cena é quase inacreditável porque destrói todas as nossas ideias preconcebidas (cinematográficas) sobre um gladiador, um lutador.
Em vez disso, esse homem escolheu o objeto mais vil e humilhante que pôde encontrar para privar Roma da única coisa que ainda lhe restava decidir: o momento de sua morte. Ele não buscava uma morte heroica. Ele buscava uma morte livre.
Sêneca, que era um filósofo estoico, elogiou a atitude do germano de maneira impressionante. Para ele, o prisioneiro demonstrou uma coragem extrema ao preferir a morte mais "suja" e humilhante possível a ter que viver na escravidão ou servir de entretenimento sangrento para os romanos.
- "Que sujeito corajoso. Certamente merecia ter permissão para escolher o próprio destino", disse o filósofo.
E era precisamente isso que interessava a Sêneca, pois o filósofo não conta a história para chocar, mas para demonstrar uma das ideias centrais do estoicismo: enquanto uma pessoa conservar a capacidade de escolher, nem mesmo um tirano terá poder absoluto sobre ela. Se um escravo acorrentado podia decidir como morrer, argumentava Sêneca, um homem livre também deveria lembrar que sempre conservava um espaço final de liberdade.
Porque por trás dos anfiteatros reluzentes, dos imperadores coroados de louros e dos filmes repletos de músculos perfeitamente lisos, existia uma indústria do entretenimento movida a seres humanos.
A vasta maioria dos gladiadores não eram heróis voluntários; eram escravos, prisioneiros ou condenados cujas mortes serviam para preencher o tempo livre de uma tarde. E um deles decidiu que preferia morrer no banheiro a proporcionar um minuto de entretenimento para mais de 50.000 romanos.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários