![]() | Você entra na sala de estar e, então, de repente, para com uma estranha sensação. Sente o ímpeto da sua missão, que ia fazer algo, mas o objetivo dela se perde de repente. Então, o que acabou de acontecer? E por que isso continua acontecendo? Bem, você não está sozinho; esse é, na verdade, um fenômeno comum que os cientistas chamam de "efeito da porta" (ou efeito de mudança de ambiente). Segundo modelos psicológicos, nosso cérebro fragmenta o fluxo contínuo de tempo e atividades da vida em eventos distintos. |

À medida que uma situação se desenrola, o cérebro desenvolve um modelo de trabalho desse evento. Provavelmente, ele faz isso utilizando a rede de modo padrão: as regiões cerebrais que trabalham em conjunto para realizar muitos processos de pensamento em repouso.
Então, quando ocorre uma mudança significativa, acredita-se que o cérebro identifique uma fronteira de evento; nesse momento, ele armazena o modelo do evento anterior e começa a desenvolver um novo modelo de trabalho.
Durante essa transição, chamada de atualização de evento, partes da rede de modo padrão parecem interagir com o hipocampo (responsável pelo armazenamento de memórias), talvez transferindo a experiência para a memória de longo prazo.
Nesse processo, o cérebro limpa sua memória de curto prazo, abrindo espaço para as novas informações que já estão chegando. Mas, às vezes, isso pode incluir coisas que você ainda não tinha terminado de processar.
Acho que fui um pouco pernóstico nesse prefácio, mais confundi do que expliquei mas vou explicar direitinho do que se trata, pois quase todo mundo passa por isso: o efeito da porta é aquela falha temporária de memória esquisita que acontece quando você esquece o que ia fazer ao mudar de cômodo ou atravessar uma porta.
Ainda não está totalmente claro se o efeito da porta afeta mais algumas pessoas do que outras. No entanto, um estudo constatou que a idade teve pouca influência. Cientistas estão trabalhando para entender melhor o fenômeno, identificando as condições que o desencadeiam, o que, sim, inclui portas, tanto físicas quanto virtuais.
Em outro estudo, estudantes universitários em ambientes reais e virtuais foram solicitados a pegar objetos, caminhar distâncias predeterminadas carregando-os para fora do campo de visão e, depois, tentar lembrar o que estavam segurando.
O tempo e a distância permaneceram constantes, mas alguns participantes passaram por uma porta. Aqueles que o fizeram tenderam a responder mais lentamente e a ter maior probabilidade de esquecer. Além disso, passar por várias portas parece agravar esse efeito que prejudica a memória. A realização de múltiplas tarefas ao mesmo tempo também não ajuda.
Em outro experimento de realidade virtual, os participantes foram inicialmente instruídos a memorizar as cores e formas de diferentes objetos. Em seguida, alguns se deslocaram dentro da mesma sala, enquanto outros entraram em outra. Quando solicitados a realizar também uma tarefa de contagem, aqueles que passaram pela porta tiveram mais dificuldade em recordar os objetos originais.
O ato de passar pela porta pareceu sobrecarregar a memória de alguma forma. Mas esse efeito afeta as pessoas além das portas físicas. Olhar através de paredes transparentes para cômodos adjacentes também parece funcionar.
Na verdade, acredita-se que qualquer coisa que desencadeie uma atualização de evento produza o mesmo efeito: o toque de um alarme, um amigo mudando de assunto ou uma mudança de local, horário, motivação ou aba no computador.
Da mesma forma, ao se depararem com uma transição de evento durante a leitura de histórias, como uma frase que descreve um salto temporal significativo, pesquisadores observaram que a velocidade de leitura pode diminuir, a atividade neural aumenta e há maior dificuldade em responder a perguntas sobre o que um personagem estava fazendo momentos antes.
No entanto, isso nem sempre ocorre com a atualização de eventos. Em certas circunstâncias, as portas parecem, na verdade, favorecer a memória.
Em um estudo, os participantes receberam listas de palavras e, entre elas, ou mudavam de lugar dentro do mesmo cômodo ou passavam para outro. Aqueles que mudavam de cômodo acabavam recordando as palavras com maior precisão. A principal diferença entre a capacidade de uma porta fortalecer ou confundir a memória pode residir na separação das informações em eventos distintos versus a sua distribuição entre vários eventos.
Isso pode resultar em uma compartimentalização mais clara, ajudando a reduzir a competição e a interferência ao tentar recuperar a informação.
De modo geral, a atualização de eventos representa uma tentativa do cérebro de se adaptar a novas situações. Contudo, o efeito colateral associado à passagem por portas pode causar desorientação.
Então, qual a melhor maneira de retomar o fio da meada? Felizmente, a confusão tende a se dissipar naturalmente. Ainda assim, refazer os próprios passos pode ajudar a estimular a memória. Também se sugere que tentar evitar deliberadamente o efeito da porta pode ajudar, mantendo o objetivo conscientemente em mente, talvez repetindo-o em voz alta.
No fim das contas, vale qualquer estratégia que ajude você a manter o foco e evitar que seus pensamentos se precipitem.
Isso acontece muito comigo quando entro no quarto vindo da sala ou da cozinha. Então repasso o que acabei de fazer (volto para a sala) e logo acabo concluindo que não esqueci nada, senão que só uma impressão momentânea.
A verdade é que nosso cérebro se escaqueta com bobagem e não gosta de esquecer mesmo quando não esqueceu. O nosso cérebro realmente processa tudo o que dizemos e pensamos, mesmo quando são bobagens ou pensamentos aleatórios, e ele tem uma relação muito complexa com o esquecimento e com a falsa sensação de esquecer.
O cérebro não diferencia muito bem uma ameaça real de um pensamento negativo ou bobagem que repetimos para nós mesmos. Se você fica dizendo "eu sou muito esquecido" ou "falei uma bobagem", o cérebro foca nisso e reforça essa crença (as chamadas conexões neurais).
Ele trata os nossos pensamentos diários como comandos e foca a atenção naquilo que mais repetimos. Sabe quando você tem certeza de que sabe uma informação, mas não consegue lembrar na hora? Cientificamente, isso é chamado de fenômeno da ponta da língua.
O cérebro não gosta dessa quebra de padrão. Ele sabe que a informação está guardada lá nos arquivos da memória, mas o caminho para acessá-la falhou temporariamente.
Essa sensação gera um incômodo enorme (uma espécie de "bug" no sistema) porque o cérebro odeia deixar tarefas incompletas.
Embora a gente sinta raiva quando esquece algo, o esquecimento é um mecanismo de defesa. Se o cérebro lembrasse de cada detalhe de cada segundo do nosso dia, como a cor da camiseta de todo mundo que passou por nós na rua, ele entraria em colapso por excesso de informação. Ele apaga o que considera "inútil" para focar no que importa para a nossa sobrevivência.
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