![]() | Em 1740, enquanto o naturalista suíço Abraham Trembley dava aulas aos filhos de um nobre, ele coletou um pouco de água de um lago para que eles estudassem; ao examinar a amostra, encontrou algo surpreendente. Ele não conseguiu identificar aquele pequeno ser estranho, nem determinar se tratava-se de uma planta ou de um animal. Seu modo de se mover e de se alimentar assemelhava-se ao de um animal. Contudo, ao ter partes removidas. ou até mesmo ao ser dividido em dois, o organismo regenerava-se, uma característica tipicamente vegetal, o que condizia com sua tonalidade esverdeada. |

Abraham observou a semelhança do organismo com a Hidra, o monstro da mitologia grega, e o nome acabou sendo adotado. Hoje, sabemos que as hidras são animais capazes de feitos incríveis, incluindo, ao que tudo indica, a imortalidade.
Elas pertencem a um gênero de minúsculos animais aquáticos, inseridos no filo Cnidaria. Alguns cnidários, como as águas-vivas, passam por uma fase de pólipo (fixa) e, posteriormente, por uma fase de medusa (de vida livre).
Já as hidras e alguns de seus parentes permanecem como pólipos durante toda a vida. Elas possuem uma estrutura corporal cilíndrica relativamente simples: uma extremidade forma o "pé" (base de fixação), enquanto a outra apresenta a boca, circundada por tentáculos dispostos em leque.
Elas se alimentam de praticamente qualquer criatura que consigam capturar. Embora consigam se deslocar, se necessário, na maior parte do tempo permanecem fixadas a superfícies por meio de uma substância adesiva secretada pelo seu pé.
Podem se reproduzir de forma sexuada, mas, com maior frequência, reproduzem-se assexuadamente, por meio de brotamentos que surgem em seu corpo.
O local exato onde se instalam. em lagos de água doce ou riachos de correnteza lenta, varia conforme a espécie; as espécies também diferem entre si em formato, tamanho e coloração.
As hidras-verdes, por exemplo, buscam áreas ensolaradas para favorecer as algas fotossintetizantes que abrigam em seu interior; essas algas conferem a cor ao animal e, em troca, fornecem açúcares, recebendo dele outros nutrientes. Isso ajuda a explicar a confusão de Abraham sobre se o ser seria um animal ou uma planta.
Por outro lado, outras espécies, como as hidras-marrons, preferem a sombra e possuem um comportamento de caça mais ativo.
Os tentáculos das hidras são revestidos por células urticantes que contêm pequenas cápsulas com estruturas semelhantes a arpões sob pressão. Quando acionadas, essas estruturas são disparadas a uma velocidade explosiva, imobilizando pequenas presas.
Essa adaptação não protege as hidras de predadores maiores. mas, o que lhes falta em defesas, elas compensam com suas capacidades regenerativas inigualáveis.
As hidras não apenas conseguem regenerar apêndices perdidos, como também são capazes de se recompor após passarem por um processo de desintegração, no qual são totalmente fragmentadas em células individuais.
Para isso, essas células primeiro se aglomeram em uma esfera; em seguida, começam a se organizar, formando gradualmente uma cavidade interna e alongando-se à medida que se distribuem em camadas externas e internas.
Logo, em uma das extremidades, surgem brotos que se transformam em tentáculos, enquanto a outra extremidade desenvolve-se como um "pé". Em poucos dias, a hidra está inteira novamente, movimentando-se e capturando vermes como se nada tivesse acontecido.
Em laboratórios, esse processo tem ajudado a esclarecer o desenvolvimento embrionário, já que algumas das etapas e proteínas são comuns a todos os animais, embora a capacidade de realizar esse processo de forma tão livre, como fazem as hidras, não seja, de modo algum, uma característica comum.
Curiosamente, se várias hidras passarem por esse processo de fragmentação, as células resultantes formarão uma única hidra. Isso ocorre, provavelmente, porque o sistema imunológico delas não distingue o que é "próprio" do que é "alheio", algo que se aplica até mesmo a misturas entre espécies diferentes.
No entanto, hidras formadas por células de múltiplas espécies acabam se desfazendo, pois seus tipos celulares não conseguem aderir uns aos outros adequadamente. Mas, quando estão juntas, elas se tornam praticamente imparáveis.
Todos os animais possuem células-tronco, capazes de se dividir e se diferenciar em tipos celulares especializados. Nos seres humanos, contudo, a quantidade dessas células diminui após o desenvolvimento embrionário, ficando restritas a partes específicas do corpo.
Nas hidras, por outro lado, os níveis de células-tronco permanecem constantes, permitindo a reposição de qualquer parte do organismo; além disso, essas células parecem ser capazes de se dividir indefinidamente.
Em um período de aproximadamente 20 dias, a hidra renova todas as suas células. Essa renovação contínua evita o acúmulo de danos celulares associados ao envelhecimento, ao mesmo tempo que possibilita uma regeneração e reprodução praticamente ilimitadas.
Elas não são indestrutíveis, mas, desde que nada as mate, podem, teoricamente, viver para sempre, sem envelhecer.
De fato, muitas hidras permanecem vivas em laboratórios há anos, ajudando-nos a compreender o desenvolvimento, a regeneração, a mortalidade e a vida desses pequenos seres de água doce dotados de tentáculos. Tudo isso vindo de um suposto lodo de lagoa.
O estudo mais famoso e robusto sobre a idade desses cnidários em ambiente controlado foi conduzido pelo biólogo Daniel Martinez e pesquisadores do Instituto Max Planck, registrando linhagens de clones genéticos de hidras com mais de 41 anos de idade.
Esse experimento demonstrou que as hidras criadas sob condições ideais de laboratório não mostram nenhum sinal de envelhecimento biológico (senescência).
A pesquisa acompanhou detalhadamente 2.256 hidras de duas espécies diferentes (Hydra magnipapillata e Hydra vulgaris) divididas em 12 grupos ao longo de 8 anos seguidos, acumulando mais de 3,9 milhões de dias de observação individual.
Embora o acompanhamento diário estrito tenha durado cerca de 8 a 10 anos, as hidras utilizadas no estudo eram clones artificiais e naturais de linhagens cultivadas continuamente em laboratórios há mais de 41 anos.
Como elas se reproduzem por brotamento assexuado (gerando cópias idênticas de si mesmas), a "idade genética" do organismo permaneceu ativa e intacta por mais de quatro décadas.
A taxa de mortalidade das hidras se manteve constante e extremamente baixa durante todo o tempo, independente da idade cronológica delas. Em média, ocorriam apenas cerca de 5 mortes por ano em um universo de 1.800 hidras, sendo a maioria causada por acidentes de laboratório (como o pólipo grudar na tampa do recipiente e secar ou cair no chão durante a limpeza).
Diferente dos humanos e outros animais, a fertilidade de 80% das hidras velhas não caiu com o tempo; elas continuaram a gerar brotos e se reproduzir com o mesmo vigor de quando eram jovens.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários