![]() | Uma coisa que realmente me amedronta é ter um enorme caminhão na minha traseira à noite em rodovias de pista simples. Em geral, vou para a terceira pista (se tiver uma) ou aciono a seta para a direita, um sinal informal conhecido como o "código das setas", que indica que a pista à frente está livre e que a ultrapassagem pode ser realizada com mais segurança. Se o veículo à frente liga a seta para a esquerda, significa o inverso: indica que não é seguro ultrapassar naquele momento geralmente porque vem outro carro na direção contrária. |

Após concluir a ultrapassagem com segurança, é comum piscar as setas (esquerda e direita alternadamente) por um instante como forma de agradecimento ao motorista de carga.
O motorista de caminhão ou ônibus tem uma visão mais ampla e elevada da estrada, o que faciLita a direção noturna. Se for ele a ultrapassar, gentileza gera gentileza, e quase sempre o motorista te chama no pisca-alerta para segui-lo.
Foi assim que fiz muitas amizades com motoristas da Cometa nos anos em que ia do Paraná a Minas Gerais quase todo fim de semana ver minha noiva.
Só para se ter uma ideia o Flecha Azul levava em média 5 horas no trajeto Curitiba - São paulo, ainda parando no Graal, onde muita gente já deixou a alma. Eu, se não pegasse "carona", levava umas 7 ou 8 horas na BR-116 esburacada, um par de vezes quebrando "rodas de magnésio" no trajeto.
Também descobri que os motoristas de ônibus e caminhões detestam quando um carro de passeio anda colado ou "fecha" a frente deles. E não é porque querem passar inadvertidamente por cima de você, é exatamente o contrário.
Se o trânsito parar de repente, você pisa no pedal e seu carro utiliza fluido de freio para parar quase instantaneamente. Mas, para parar um gigante de metal de 40 toneladas, é necessário algo totalmente diferente: o uso de ar comprimido.
O freio hidráulico é mais rápido no tempo de resposta do que o freio a ar. Como os líquidos (fluidos de freio) são praticamente incompressíveis, a força aplicada no pedal é transmitida de forma instantânea e direta para as pastilhas ou sapatas.
Por outro lado, o ar é um gás compressível. Quando você pisa no pedal de um sistema a ar, o gás precisa ser pressurizado e viajar pelas tubulações até os cilindros de freio, gerando um pequeno atraso conhecido como lag de frenagem.
Para entender a genialidade do uso do ar, precisamos primeiro perguntar: por que não usar simplesmente freios hidráulicos, como no seu carro? Quando você pisa no pedal de freio do seu veículo, você empurra um líquido através de uma tubulação, que transfere a força de maneira eficiente para as rodas. É um processo rápido e eficaz.
No entanto, adaptar esse sistema para um caminhão pesado traz dois grandes desafios. Primeiro, um caminhão desse tipo não é um veículo único; trata-se de um cavalo-mecânico puxando um semirreboque, e esses reboques são trocados constantemente.
Se utilizassem freios hidráulicos, os mecânicos teriam que conectar tubulações cheias de fluido a cada troca. Isso poderia causar vazamentos, a entrada de ar no sistema e tornar a manutenção das conexões muito mais complexa.
Segundo, uma falha grave no sistema hidráulico pode resultar em uma perda significativa da força de frenagem. Embora os sistemas hidráulicos modernos sejam projetados com múltiplos circuitos, uma falha importante ainda pode ser perigosa.
Em uma estrada íngreme na serra, um caminhão de 36 toneladas com a capacidade de frenagem severamente reduzida seria um cenário de pesadelo. É aí que entram os freios a ar. Ao contrário do caro fluido de freio, o ar é gratuito e está em toda parte.
Um caminhão possui um compressor acoplado ao motor que aspira ar da atmosfera continuamente. Esse ar é armazenado sob pressão em reservatórios, pronto para ser utilizado sempre que os freios forem acionados.
Se uma mangueira de ar apresentar um vazamento, o compressor pode ajudar a manter a pressão do sistema; contudo, uma perda significativa de pressão pode acabar acionando o sistema de segurança do caminhão.
Mas o verdadeiro diferencial do sistema de freios a ar é a sua função como um importante mecanismo de segurança contra falhas.
Dentro dos conjuntos das rodas de um caminhão, existem molas mecânicas potentes. Essas molas tendem, naturalmente, a acionar os freios. Quando o motorista liga o motor e a pressão de ar aumenta, esse ar comprimido empurra as molas, liberando o freio de mola e permitindo que o caminhão se movimente.
Pense no que isso significa: se ocorrer um vazamento grave ou uma falha no sistema que faça a pressão cair drasticamente, essas molas potentes acionam os freios automaticamente, ajudando a parar o veículo.
Os freios não deixam de funcionar simplesmente porque a pressão de ar foi perdida; o sistema foi projetado de modo que uma queda acentuada na pressão de ar ative os freios de mola.
Surpreendentemente, essa tecnologia que salva vidas não surgiu nas rodovias, mas sim nas ferrovias. Em meados do século XIX, parar um trem era uma tarefa extremamente perigosa.
Profissionais conhecidos como "freadores" precisavam, literalmente, correr sobre os tetos dos vagões em movimento, girando volantes manualmente para acionar os freios, um processo lento e mortal.
Então, em 1869, um inventor brilhante chamado George Westinghouse patenteou seu primeiro sistema de freio a ar para ferrovias. Ele utilizou ar comprimido, bombeado da locomotiva por meio de uma tubulação que percorria toda a extensão do trem, para controlar os freios. Isso revolucionou o transporte.
Mais tarde, George desenvolveu o freio a ar automático, tornando o sistema muito mais seguro. Décadas depois, à medida que os caminhões pesados se tornaram maiores e mais robustos, a tecnologia de freios a ar revelou-se a solução ideal para veículos comerciais de grande porte.
Portanto, da próxima vez que você ouvir aquele chiado alto e repentino vindo de um caminhão parado em um semáforo, saberá exatamente do que se trata. Você está ouvindo o som da segurança, uma tecnologia com raízes que remontam a mais de 150 anos, ajudando a garantir que as máquinas mais pesadas em nossas estradas consigam parar sempre que necessário.
Ah, sim... existe um outro código implícito: piscar a luz alta para avisar outros motoristas sobre uma barreira policial ou radar móvel à frente na estrada.
Certa vez, quando ia para Guaratuba, lampejei o farol para um viatura da própria polícia. Pensei: - "Tô fudido e mal pago!" Achei até que seria preso.
Estranhamente a viatura nem veio ao meu encalço. Descobri que a própria polícia não dá muita atenção a este tipo de infração.
Isso por que o policial simplesmente não pode afirmar que eu estava dando um sinal de aviso contra a blitz.
No entanto, ainda assim o Código de Trânsito Brasileiro enquadrou a prática como infração de trânsito média, que rende 4 pontos na carteira mais R$ 130,16 de multa, cujo inciso dita que o uso intermitente das luzes alta e baixa só é permitido em duas situações: para indicar a intenção de ultrapassar ou para alertar sobre riscos imprevistos e perigos físicos na via, como um acidente grave, queda de barreira ou, ironicamente, um "animal na pista".
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