![]() | Algumas músicas atravessam gerações, idiomas e fronteiras. Elas continuam emocionando mesmo quando o tempo passa.Mas por trás de algumas dessas canções existe uma história curta, intensa e, nesse caso, trágica: a do cantor que conquistou o mundo com uma música cantada em japonês, algo impensável para a época. A história triste, mas ao mesmo tempo inspiradora de Kyū Sakamoto, que conquistou o mundo ao interpretar uma música emotiva que se tornou um sucesso internacional ao atingir o primeiro lugar na Billboard em 1963, sendo até hoje a única canção em japonês a alcançar tal feito. |

Kyū Sakamoto nasceu em 10 de dezembro de 1941 na cidade de Kawazaki, no Japão. filho de trabalhadores humildes que mantinham um pequeno restaurante. Ele cresceu em uma família numerosa, sendo o caçula de nove irmãos. Desde muito cedo, a música fez parte de sua vida. Ainda criança, já demonstrava sensibilidade musical e uma voz que chamava atenção.
Na adolescência, passou a cantar em grupos amadores e em pequenos eventos, enquanto desenvolvia um estilo simples, mas profundamente emotivo.
Seu verdadeiro nome era Risashi Oshima, mas adotou o nome artístico no início da carreira. No começo dos anos 60, sua voz já era conhecida na televisão japonesa. Um jovem carismático, sempre sorridente, que transmitia emoção mesmo em interpretações contidas.
Em 1961, com apenas 20 anos, Kyū fez sua estreia como cantor solo em um programa de TV, dando início a uma trajetória que, embora curta, mudaria para sempre a história da música japonesa no mundo.
Pouco tempo depois de sua estreia na televisão, ele entrou em estúdio para gravar a canção "Ue o Muite Arukou" ("Vamos olhar para cima e caminhar") que mudaria completamente sua vida e a história da música japonesa.
A melodia era simples, delicada, mas carregada de emoção. A letra falava de tristeza, saudade e de um esforço silencioso para seguir em frente, mesmo quando o coração está pesado.
Lançada no final de 1961, a canção se tornou um enorme sucesso no Japão, permanecendo por três meses consecutivos como o disco mais vendido do país. No ano seguinte, ela já ocupava os primeiros lugares das paradas japonesas e era tocada em rádios, programas de TV e eventos por todo o país.
Naquele momento, ainda ninguém imaginava que aquela música cantada inteiramente em japonês estava prestes a cruzar oceanos, quebrar barreiras culturais e entrar para a história da música mundial.
Em 1962, a canção tomou um rumo inesperado. Durante uma viagem ao Japão, o produtor britânico Isaac Louis Benjamin ouviu a música e ficou encantado com sua melodia.
Ao levá-la para o ocidente, surgiu um problema. O título original em japonês era difícil de pronunciar. Sem consultar o artista, Isaac decidiu renomear a canção como "Sukiyaki", nome de um prato japonês tradicional que ele havia conhecido durante suas férias.
A palavra não aparece na letra e não tem relação com o significado da música, que fala de tristeza e saudade. A primeira versão lançada fora do Japão foi instrumental e fez sucesso rapidamente.
Pouco depois, a gravação original de Kyū começou a se espalhar pela Europa, abrindo o caminho para algo que ninguém esperava. Com o sucesso crescente na Europa, a música chegou aos Estados Unidos em 1963.
Para surpresa da indústria musical, uma canção cantada inteiramente em japonês começou a ganhar espaço nas rádios americanas. Aos poucos, ela foi subindo nas paradas da Billboard, semana após semana, até alcançar o primeiro lugar em 14 de junho de 1963, onde permaneceu por três semanas consecutivas.
Essa se tornou a única música em japonês a atingir o topo da Billboard, um recorde que permanece até hoje, mais de seis décadas depois. O disco vendeu mais de 1 milhão de cópias e transformou Kyū em um fenômeno mundial.
Em uma época dominada por músicas em inglês, ele provou que a emoção não precisa de tradução. Aqui no Brasil, ela ganhou uma versão em português gravada pelo trio Esperança, chamada "Olhando para o céu", que ajudou a popularizar a melodia entre o público brasileiro nos anos 60, tornando a música familiar mesmo para quem não conhecia sua origem japonesa.
Outro grande feito da versão de Kyū é que em 1965, uma versão instrumental de "Sukiyaki" foi transmitida pela NASA aos astronautas da missão Gemini 7, fazendo a canção literalmente chegar ao espaço.
Apesar do sucesso internacional, ele nunca se afastou de suas origens humildes fora dos palcos. Ele era conhecido como uma pessoa gentil, acessível e profundamente preocupada com o bem-estar dos outros.
Além da música, construiu uma carreira como ator, participando de diversos filmes japoneses durante as décadas de 60 e 70, mas foi em suas ações fora das câmeras que seu caráter mais se destacou.
Kyū usou sua fama para apoiar causas sociais e obras de caridade, organizando eventos beneficentes e campanhas de arrecadação.
Em 1964, por exemplo, ajudou a levantar fundos para os jogos paralímpicos de Tóquio, demonstrando um compromisso raro para a época.
Em 1979, ele participou do lançamento de uma das primeiras músicas japonesas interpretadas em linguagem de sinais, um gesto pioneiro em um período em que a língua de sinais ainda enfrentava forte preconceito no Japão.
Ele era mais do que um ídolo musical que deixou a imagem de um artista que acreditava que sucesso só fazia sentido quando era compartilhado.
Em 12 de agosto de 1985, Kyū embarcou no voo 123 da Japan Airlines, que partia de Tóquio com destino a Osaka. Nada indicava que aquela viagem se tornaria uma das maiores tragédias da história da aviação.
Apenas 12 minutos após a decolagem, uma falha estrutural grave comprometeu os sistemas hidráulicos da aeronave, provocando descompressão e tornando o avião quase impossível de controlar. Durante cerca de 25 minutos, os pilotos lutaram bravamente para manter a aeronave no ar, enquanto os passageiros enfrentavam momentos de desespero e incerteza.
O avião acabou colidindo com uma região montanhosa próxima ao monte Takamagahara. O acidente deixou 520 mortos, tornando-se o mais fatal envolvendo uma única aeronave, um triste recorde que permanece até hoje. Milagrosamente, quatro pessoas sobreviveram.
Entre as vítimas estava Kyū, que tinha apenas 43 anos no momento de sua morte. O Japão inteiro entrou em luto não apenas pela perda de centenas de vidas, mas também pela despedida precoce de um artista que havia levado a música japonesa ao mundo.
Entre os destroços do voo 123, equipes de resgate encontraram mensagens escritas à mão pelos passageiros em seus últimos minutos. Sem celulares ou despedidas rápidas, muitos escolheram papel e caneta para deixar palavras de amor, pedidos de perdão e agradecimentos aos familiares.
Esses bilhetes se tornaram um símbolo da tragédia e lembram que diante do fim desaparecem o orgulho e os conflitos, restando apenas o que realmente importa.
Não foram encontradas mensagens de Kyū, mas sua história permanece como um lembrete silencioso da fragilidade da vida.
O legado de Kyū permanece vivo. Um asteroide recebeu seu nome e suas músicas continuam sendo redescobertas por novas gerações. Sua filha, Hanako mantém viva a obra do pai em sua carreira musical.
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