![]() | Muitos jovens brasileiros não devem saber de quem se trata um cara chamado Antônio Viana Gomes. Na verdade, ninguém sabe, mas se você falar em Tony Tornado, todos sabem. Tony é considerado um dos artistas com a vida mais surpreendente do Brasil, devido a uma trajetória que vai da condição de sem-teto ao exílio internacional, passando por 13 anos de carreira no Exército e se tornando um pioneiro da música negra (soul/funk) no país. Nascido em 1930, sua história de vida é marcada por extrema resiliência, reinvenção artística e recusa em ser silenciado, continuando a atuar e cantar até os 96 anos. |

Tony nasceu em Mirante do Paranapanema (SP), uma vila então com "uma rua e onze carros", como ele brinca, em 1930, no mesmo ano em que Getúlio Vargas chegou ao poder pela primeira vez e nove anos antes do início da Segunda Guerra Mundial.
Aos 12 anos, ele fugiu de casa e foi viver na favela do morro de São Diogo atrás da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde perambulava pelas ruas vendendo amendoim, bala puxa-puxa, engraxando sapatos para sobreviver e levando "corridão da polícia".
Certo dia ele parou e se apresentou a um policial que corria atrás dele.
- "Estou cansado de fugir. Me arrumem uma escola porque nessa vida não vai acontecer nada não vou conseguir nada mais de útil a não ser vender amendoim e bala.""
Convencido de que o garoto era bem intencionado ele foi levado para o internato da Escola agrícola Saboya Lima. Mais tarde, serviu por 13 anos no Exército, especificamente na Escola Paraquedista de Deodoro, ao lado do futuro magnata da TV, Silvio Santos, de quem se tornou um grande amigo.
Tony participou da primeira missão de paz brasileira ao Canal de Suez, em 1957. E na década de 1960, morou em Nova York, onde trabalhou como cafetão no Harlem para sobreviver, fingindo trabalhar em um lava-jato, e acabou sendo deportado de volta para o Brasil.
Ao retornar, revolucionou a música brasileira ao introduzir o Soul e o Funk, vencendo o Festival Internacional da Canção (FIC) de 1970 com o sucesso "BR-3", ostentando um poderoso cabelo afro que desafiou as normas culturais da época.
Tony era o azarão, ninguém o conhecia, ainda que sim, o Trio Ternura, como vozes de apoio, eram conhecidos.
Na época, o FIC mobilizava o Brasil inteiro e, de uma hora para a outra, Tony se tornou um astro com suíte fixa no luxuoso Hotel Glória.
A BR-3 foi a denominação antiga de uma das principais rodovias federais do Brasil até 1964, ligando o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, que hoje é parte da BR-040.
A música "BR-3", enfrentou censura e rumores durante a ditadura militar brasileira. A lenda urbana da época, alimentada por boatos e pelo colunista Ibrahim Sued, sugeria que a canção falava de uso de drogas, especificamente heroína.
Após sua ascensão à fama, seu apoio declarado ao movimento black power e sua postura antirracista o colocaram em conflito com a ditadura militar, resultando em sua prisão no palco e, posteriormente, em um exílio autoimposto no início da década de 1970.
Em 1971, Tony fez parte do júri do FIC, ao lado de Elis Regina, que era presidente do júri. No momento do show de Elis cantou "Black is beautiful" e chamou Tony para subir ao palco. No momento que ela levantou o braço de Tony, ele foi algemado de forma truculenta e levado para a prisão.
Ao mesmo tempo que se tornou um astro, imitado nas danceterias por seus passos de dança icônicos, Tony viveu um dos períodos mais conturbados de sua vida por se casar com a atriz Arlete Sales.
Ele foi alvo de duras críticas e preconceito principalmente devido ao racismo estrutural e à sociedade conservadora da época, que não aceitava um relacionamento interracial entre um homem negro e uma mulher branca famosa.
O relacionamento durou sete anos (aprox. 1970-1977), quando o casal sofreu reiterados ataques diretos. Arlete relatou ter se sentido no "meio de um furacão" e em um "pântano de hostilidade", enfrentando preconceito violento só por amar um negro.
A imprensa da época, mesmo os jornalões, demonizou a união. Arlete foi criticada por ter se separado de Lúcio Mauro para ficar com Tony, servindo de pretexto para ataques racistas disfarçados de moralidade.
Tony, por sua vez, carregou a "pecha" de ter se apaixonado por uma loira, sendo líder do movimento negro, em um contexto social racista.
O casamento ocorreu logo após o auge de Tony no FIC, quando ele já enfrentava o racismo da sociedade brasileira.
Ver as manchetes vergonhosas daquela época nos faz pensar como o Brasil era a-intolerante e racista.
Ele fez a transição para a atuação, tornando-se uma figura constante nas telenovelas e no cinema brasileiro, com papéis notáveis como Gregório Fortunato na minissérie "Agosto"" e Rodésio em "Roque Santeiro.
Aos 96 anos, ele permanece ativo, e, como você poderá ver no vídeo acima, onde Tony é entrevistado pela BBC News Brasil, ele tem mais viço e lucidez que a maioria dos homens de meia idade.
Ele ainda atua em telenovelas e se apresenta em concertos, frequentemente atribuindo sua longevidade à "vontade de viver" e a uma dieta tranquila, que nesse caso é feijoada e torresmo.
A vida de Antônio Viana Gomes é um testemunho de sobrevivência, pois ele passou por, como ele mesmo diz, "1001 vidas": de soldado e criança de rua a ícone da soul music e ator reverenciado.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários