![]() | Por séculos, as pessoas se perguntaram o que nos diferencia dos animais. Surgiram diversas hipóteses sobre qual característica humana é a chave do uso de ferramentas, autoconsciência, cultura ou nossa consciência da morte, para citar algumas. Mas uma das hipóteses mais aceitas é que é a nossa linguagem que nos torna únicos. Muitas espécies se comunicam. Mas, como explicarei nesse post, isso é diferente. E por muito tempo, os cientistas se perguntaram de onde vieram nossas habilidades linguísticas especiais e complexas. |

Pesquisas recentes sobre um de nossos parentes podem lançar alguma luz sobre essa questão. Porque há evidências de que os orangotangos também podem usar a linguagem, e isso está nos ensinando algo sobre a nossa própria.
Uma coisa que vocês já devem ter percebido é que os orangotangos não são nossos parentes mais próximos, mas são de longe os primatas mais inteligentes.
E é verdade que somos mais aparentados com chimpanzés, bonobos e gorilas do que com orangotangos, mas, independentemente de quão distantes estejam em nossa árvore genealógica, eles são falantes o suficiente para que os pesquisadores os notassem.
Primeiro, um pouco de história sobre nossos primos gigantes de cor laranja. Os orangotangos são os maiores mamíferos arborícolas do mundo e os únicos grandes símios vivos nativos da Ásia.
As duas espécies mais comuns são o orangotango-de-Bornéu e o orangotango-de-Sumatra, que são encontrados, como o nome sugere, nas ilhas de Bornéu e Sumatra.
É meio irônico falar de orangotangos no contexto da linguagem, porque eles não são animais particularmente sociais.
Os machos adultos geralmente preferem ficar sozinhos, exceto quando interagem com as fêmeas com quem acasalam. Enquanto isso, as fêmeas adultas vivem com seus filhotes até que eles sejam capazes de cuidar de si mesmos, o que pode levar quase uma década.
Mas, uma vez que o filhote é desmamado, ele parte para a selva, e a mãe viverá praticamente sozinha até o nascimento do próximo filhote.
Embora os orangotangos não sejam conhecidos por dar festas, eles são conhecidos por suas incríveis habilidades de karaokê.
Os machos adultos possuem uma bolsa na garganta que lhes permite emitir o "chamado longo", rugidos que duram um minuto ou mais e podem ser ouvidos a até 2 quilômetros de distância, atraindo fêmeas para o acasalamento.
É claro que os chamados de acasalamento não são exclusivos dos orangotangos, nem mesmo dos primatas. Nem outros tipos de vocalizações, como sons específicos que significam coisas muito específicas.
Por exemplo, os mangustos têm chamados de alarme únicos para alertar sobre diferentes tipos de predadores. Quando outros mangustos ouvem os chamados, eles respondem de maneiras específicas para aquele som em particular.
Assim, um chamado de alerta sobre uma ave de rapina pode fazer com que eles se abaixem e se protejam, enquanto um chamado sobre um predador terrestre pode fazer com que os mangustos entrem em modo de sentinela e examinem o ambiente em busca da ameaça.
E os babuínos reconhecem grunhidos de ameaça versus grunhidos de reconciliação e respondem de maneira diferente dependendo se vêm de familiares ou estranhos.
Mas há uma diferença entre comunicação e linguagem verdadeira.
A linguagem verdadeira, o tipo de linguagem que torna os humanos únicos, requer algo chamado recursão, a capacidade de inserir frases, orações ou sentenças umas dentro das outras para criar novos significados. Ela nos permite expressar um número virtualmente infinito de ideias. Aqui está um exemplo. Vejamos a frase:
- "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem."
- "O tempo perguntou a ele mesmo quanto tempo ele tem." é uma sentença.
- "O tempo respondeu a ele mesmo que tem tanto tempo quanto tempo ele tem." é uma sentença.
As duas frases têm significados advindas de um monólogo interior e quando você junta as duas frases pode indicar que "o tempo possui a duração que ele mesmo tem, indicando que o tempo é infinito ou que sua duração é imensurável por ele mesmo".
Para um significado mais profundo podemos dizer que "o tempo é uma entidade contínua e, portanto, sua duração é apenas equivalente ao tempo que existe" que metaforicamente podeser interpretado como um convite a "dar tempo ao tempo", reconhecendo que o tempo segue seu próprio ritmo, sem depender de pressões externas.
Essa capacidade de empilhar frases junto a interpretação das mesmas é a recursão, que precisamos para expressar ideias complexas.
E podemos ver a diferença quando comparamos isso aos chamados dos mangustos. Se eles têm um som que significa "ave" e um chamado que significa "urgente", eles poderiam expressar pássaro, urgente e pássaro urgente. Mas isso é praticamente tudo.
Então, embora existam muitos animais que podem nos ajudar a aprender sobre a evolução da comunicação e da vocalização, é muito mais difícil encontrar parentes que possam nos ajudar a descobrir de onde veio essa parte da recursão. Pelo menos até recentemente.
Em 2024, um grupo de pesquisadores europeus gravou 66 vocalizações longas de 10 orangotangos machos em Bornéu.
Ao analisar os ritmos dessas vocalizações, eles conseguiram identificar 5 elementos diferentes.
Um deles eram pulsos completos e os outros quatro eram subpulsos que interrompiam os pulsos completos.
Os pulsos completos em si tinham um ritmo regular ao longo de toda a duração da vocalização longa. Mas, ao analisar como esses pulsos completos se dividiam, eles descobriram que três dos subpulsos ocorriam em intervalos regulares dentro deles.
Então, vários subpulsos ocorreram em um padrão rítmico dos pulsos completos, que por sua vez ocorreram em um padrão rítmico dos chamados longos. Isso não parece recursão?
E em 2025, o mesmo grupo de pesquisa analisou o que as fêmeas de orangotango em Sumatra dizem quando veem tigres, que são seus predadores naturais. Ou pelo menos, quando pensam que os veem.
Porque desta vez, os pesquisadores não estavam apenas gravando os chamados, eles estavam os provocando.
Fazendo com que os pesquisadores andassem de quatro, cobertos por lençóis com estampas de tigre, brancos ou com estampas de outros predadores não nativos.
Eles registraram tudo o que os orangotangos tinham a dizer sobre isso e dividiram as informações em três níveis diferentes: combinações, que eram conjuntos de sons com menos de 0,2 segundos de intervalo; sequências, que eram conjuntos de combinações com menos de 2 segundos de intervalo; e séries, que eram múltiplas sequências com intervalos entre 2 e 20 segundos.
Ao analisarem os ritmos dos chamados de alarme dos orangotangos, descobriram que combinações, sequências e séries ocorriam em intervalos regulares.
Portanto, um padrão rítmico de combinações ocorria em um padrão rítmico de sequências, que ocorria em um padrão rítmico de séries.
Mas há ainda mais nuances nos padrões que sugerem que os orangotangos estão dizendo muito com apenas alguns sons.
O ritmo de uma série de sequências era muito mais lento quando a ameaça não se parecia com um tigre assustador, mas sim com um pesquisador usando um cobertor de bolinhas, como se dissessem:
- "Temos aqui mais um humano idiota engatinhando se fingindo de tigre"
E embora o ritmo da série mudasse, as outras partes do chamado tinham o mesmo ritmo, independentemente dos orangotangos acreditarem comprarem ou não nas fantasias do pesquisador.
Isso sugere que o chamado de alarme geral anuncia a presença de algo, o ritmo das sequências parece indicar urgência ou importância, e o ritmo dessas combinações supercurtas parece conter informações sobre a ameaça específica.
Agora, isso não significa que os orangotangos falem em frases complexas, e provavelmente eles não conseguem usar gramática recursiva para expressar uma gama infinita de ideias.
Mas fornece evidências de que a gramática recursiva complexa pode ter evoluído lentamente a partir de formas mais básicas de recursão que surgiram antes de nos separarmos de outros primatas.
Então, o que começou como ritmos embutidos em sons pode ter evoluído para sons embutidos em palavras, que se transformaram em palavras embutidas em frases e, finalmente, frases em sentenças complexas.
E são nossas sentenças sofisticadas e complexas que nos permitem trazer artigos sobre a evolução de sentenças sofisticadas e complexas. Que tal essa recursão?
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