![]() | Os brasileiros nos orgulhamos de praias e sol, não de pistas de esqui e neve. Nossas lendas esportivas, conhecidas apenas por um nome diminutivo, costumam jogar futebol, o esporte que define o país. Assim, quando Lucas Pinheiro Braathen, um exuberante esquiador alpino, conquistou o ouro para o Brasil na prova de slalom gigante masculino no sábado, ele não apenas fez história como o primeiro medalhista sul-americano em uma Olimpíada de Inverno, mas também reescreveu a definição do que um atleta brasileiro poderia ser. |

Os Jogos de 2026, no norte da Itália, proporcionaram momentos inéditos e emocionantes nos últimos dois dias para países que não são exatamente potências nos esportes de inverno.
O patinador artístico Mikhail Shaidorov, do Cazaquistão, de 21 anos, conquistou o primeiro lugar na competição masculina na sexta-feira, garantindo de forma dramática a primeira medalha de ouro de seu país na modalidade, superando os favoritos dos Estados Unidos e do Japão.
Lucas, de 25 anos, completou sua descida vitoriosa no sábado e desabou na neve na base da pista de esqui na cidade de Bormio, silenciando uma multidão de espectadores da vizinha Suíça, cujos esquiadores vinham dominando as provas de downhill masculino.
Ele dançou e chorou enquanto os torcedores brasileiros, em menor número, mas barulhentos como sempre, agitavam bandeiras e o aplaudiam.
- "Não sei como expressar em palavras o que estou sentindo agora", disse Lucas momentos após sua vitória. - "A todos que estão assistindo no Brasil, me acompanhando e torcendo por mim, espero que isso possa servir de inspiração para a próxima geração de crianças. Nada é impossível. Não importa de onde você vem, suas roupas ou a cor da sua pele."
O triunfo de Mikhail na patinação artística na noite anterior não foi tão histórico, já que o Cazaquistão ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno há 32 anos no esqui cross-country, mas talvez tão inesperado quanto.
Ele apresentou um programa impecável e depois assistiu a competidores mais consagrados, incluindo o americano Ilia Malinin, tropeçarem sob os holofotes olímpicos.
O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, condecorou Mikhail com a Ordem do Leopardo, uma honraria concedida a cidadãos que se destacaram em suas áreas de atuação.

Um empresário anunciou que daria um Audi A8 ao pai de Mikhail, que em certo momento vendeu seu carro para ajudar a financiar a carreira de patinação do filho. O próprio Mikhail recebeu ofertas de um carro e de um apartamento de luxo em Astana, a capital.
Ainda assim, poucas vitórias nestes Jogos foram tão marcantes quanto a do Brasil, um país tão definido por suas conquistas em um único esporte, o futebol, que muitos torcedores que compareceram para apoiar Lucas vestiam a camisa amarela da seleção brasileira de futebol.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio da Silva, disse no X que Lucas - "... ficará para sempre gravado na história do esporte brasileiro."
O Brasil levou sua maior delegação de todos os tempos para uma Olimpíada de Inverno este ano, composta por 14 atletas em cinco modalidades. Mesmo assim, os esportes de inverno são tão raros no Brasil que o locutor da CazéTV, Paulo Andrade,dedicou os minutos que antecederam a descida de Lucas a explicar o que era o slalom gigante.
Lucas não nasceu no Brasil, mas na Noruega, país de origem de seu pai, que também competia pelo esqui alpino daquele país. Sua mãe é brasileira, e o atleta com dupla nacionalidade já havia conquistado o coração dos brasileiros com seu português carregado de sotaque e sua personalidade enérgica.
Ele cantou o hino nacional brasileiro do pódio, fazendo pausas em alguns momentos, visivelmente emocionado, emocionando todo mundo. Ele realmente tem alma brasileira.
O Brasil, que sediou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, historicamente tem um bom desempenho nos Jogos de Verão, e seu comitê olímpico costuma reservar um espaço de convivência para sua equipe e torcedores durante essas competições.
Isso nunca havia acontecido para os Jogos de Inverno até este ano, quando o país reservou um espaço de arte contemporânea em Milão, a principal cidade-sede, e o batizou de Casa Brasil.

No sábado, o espaço estava lotado com mais de 200 torcedores que se reuniram na expectativa do momento histórico de Lucas.
- "Mesmo sem montanhas nevadas em casa, conseguimos conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno", disse Bruno Fratus, medalhista de bronze na natação pelo Brasil nos Jogos Olímpicos de 2020, na Casa Brasil. - "Isso só comprova a grandeza do Brasil, disse ele, com a voz rouca de tanto gritar durante a descida de esqui do seu compatriota.
A importância da vitória foi tamanha que Claudinei Quirino, ex-velocista olímpico brasileiro, se emocionou até às lágrimas. Após um momento de reflexão e um gole de cerveja, Claudinei afirmou que o jovem esquiador havia entrado para um panteão de celebridades brasileiras reservado a poucos.
“O Brasil tem muitos problemas, mas neste momento, com esta medalha, podemos esquecer tudo e ele deu aos brasileiros o que precisamos”, disse Quirino.
Antes dos Jogos Olímpicos, surgiram relatos de que Lucas, ex-competidor e campeão da Noruega, havia entrado em conflito com as regras mais rígidas impostas aos atletas noruegueses pela equipe de esqui e pelo comitê olímpico. Entre outras coisas, Lucas afirmou que desejava mais liberdade para trabalhar com seus próprios patrocinadores. Ele deixou a equipe norueguesa em 2023 e ingressou na equipe brasileira no ano seguinte.
Lucas nasceu em Oslo, mas viveu alguns anos de sua infância no Brasil, onde jogava futebol e idolatrava o craque Ronaldinho. Agora que compete no esqui alpino pela seleção brasileira, Lucas ficou conhecido por usar o bordão "vamos dançar", seguido de passos elaborados, semelhantes aos doa samba.
O Brasil já tentou dar uma contribuição significativa aos Jogos Olímpicos de Inverno no passado. Mas, até agora, esses esforços foram irregulares e, em um caso, terminaram em tragédia, quando Laís Souza, ex-ginasta olímpica, ficou paraplégica após um acidente enquanto treinava para representar o Brasil no esqui aéreo nos Jogos Olímpicos de 2014 em Sochi, na Rússia.
Richardson Viano, um esquiador alpino que cresceu na França, mas compete pelo Haiti, seu país de nascimento, disse após terminar em 44º lugar no slalom gigante que Lucas deveria ser um modelo para aspirantes a atletas cujas geografias podem não ser compatíveis com seus esportes.
Os brasileiros se emocionaram com a vitória de Lucas. De fato, o Brasil quer ser grande e deixar de ser o pais do futuro pra ser o do presente, mas a polarização e a política não deixam.
O país vive esse eterno conflito entre o potencial e a paralisia. Quando um brasileiro como o Lucas vence, ele personifica o "Brasil que dá certo", gerando uma catarse coletiva que serve de uma respirada em meio ao caos institucional.
Essa vontade de ser o "país do presente" sempre esbarra em três muros principais:
- A Armadilha da Polarização: o debate público tornou-se um jogo de soma zero. Em vez de projetos de Estado, discutem-se pautas de "nós contra eles", o que impede consensos mínimos sobre educação e infraestrutura.
- O Custo Político: a energia que deveria ser gasta em reformas de longo prazo é consumida pela manutenção da governabilidade de instituições corruptas e por crises cíclicas.
- A Fuga de Talentos: enquanto o país não se estabiliza, muitos "Lucas" acabam encontrando o sucesso fora, alimentando a sensação de que o Brasil exporta matéria-prima e talentos, mas importa soluções.
O esporte e as vitórias individuais costumam ser o único momento em que todo o país se olha no espelho e gosta do que vê, sem o filtro da ideologia.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários