![]() | O Cerco de Changchun (maio a outubro de 1948), durante a Guerra Civil Chinesa, resultou em um dos episódios mais brutais de fome induzida do século XX, com estimativas de mortes de civis variando entre 150.000 e mais de 300.000 pessoas. Apesar do alto número de vítimas, o evento é amplamente esquecido ou silenciado, especialmente dentro da China continental, devido a uma combinação de censura estatal promovido pelo Partido Comunista Chinês, narrativa histórica seletiva e a natureza de "fome" em vez de batalha direta. |

Segundo dica do amigo Rusmea, via Facebook, o cerco de Changchun foi um bloqueio militar realizado pelo Exército de Libertação Popular contra Changchun entre maio e outubro de 1948, a maior cidade da Manchúria na época e um dos quartéis-generais do Exército da República da China no nordeste do país. Foi uma das campanhas mais longas da Campanha de Liaoshen da Guerra Civil Chinesa.
Imediatamente após o fim da Segunda Guerra Sino-Japonesa, a guerra civil entre o Kuomintang (KMT), partido governante, e o Partido Comunista Chinês (PCC) recomeçou. A Manchúria tornou-se um foco do conflito, já que ambos os lados tentavam obter o controle da região.
Changchun, em particular, tinha importância estratégica, pois era a capital da província de Jilin e, anteriormente, havia sido a capital de Manchukuo e o quartel-general do Exército Japonês de Kwantung durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. A cidade foi desenvolvida pelos japoneses como uma "cidade moderna ideal" durante a sua ocupação.
Após o fim da Segunda Guerra Sino-Japonesa, a União Soviética invadiu e assumiu o controle da Manchúria, mas após um pequeno período de ocupação, os soviéticos começaram a se retirar, deixando a cidade nas mãos dos nacionalistas. Após a retirada soviética, tanto o Kuomintang (KMT) quanto o Partido Comunista Chinês (PCC) começaram a se mover em direção ao nordeste para expandir sua esfera de influência.
O governo nacionalista do KMT garantiu uma série de vitórias contra os comunistas nos estágios iniciais de suas campanhas na Manchúria, recuperando o controle de Changchun em 23 de maio de 1946.
O ímpeto do KMT foi interrompido, no entanto, quando o general Chiang Kai-shek declarou um cessar-fogo com o PCC em 6 de junho. O cessar-fogo permitiu que o PCC se recuperasse de suas perdas.
Em meados de março de 1948, o PCC conseguiu capturar a maior parte da Manchúria, isolando as forças do KMT em pequenos bolsões concentrados nas cidades de Shenyang, Changchun e Jinzhou.
Durante a ofensiva de inverno de 1947, o comandante comunista no Nordeste, Lin Biao, recebeu três opções de ataque para as ofensivas gerais contra as forças nacionalistas na Manchúria. As três opções eram Changchun, Shenyang ou Jinzhou.
Após discussão com outros oficiais do PCC,ventre eles Mao Tsé-Tung, Changchun foi escolhida como o primeiro alvo, pois a cidade de Siping já havia sido capturada, abrindo caminho para as forças comunistas marcharem em direção a Changchun.
Como a rede de defesa da cidade estava bem estabelecida em Changchun, o cerco da cidade pelo Exército de Campo do Nordeste foi pessoalmente cancelado por Lin Biao diversas vezes.
Como Lin era um "perfeccionista em relação à logística", ele temia que, ao concentrar as forças comunistas no cerco aos defensores nacionalistas em Changchun e Shenyang, essas manobras "atrasassem" as forças e influenciassem negativamente a campanha comunista geral no Nordeste.
Os defensores nacionalistas em Changchun, que consistiam no 60º Exército e no Novo Sétimo Exército, sofriam com a baixa moral desde o inverno de 1947.
A partir de 23 de maio de 1948, o Exército de Campo do Nordeste, destacamento do Exército de Libertação Popular (ELP), sob o comando de Lin Biao, alcançou os arredores de Changchun e começou a cercar a cidade.
Logo depois, Changchun ficou isolada do restante das áreas controladas pelos nacionalistas no Nordeste. Para impedir que suprimentos fossem transportados por via aérea para Changchun, o comandante do cerco, Xiao Jinguang, capturou o Aeroporto de Dafangshen, abriu crateras em sua pista e defendeu o aeroporto com veemência.
O governo nacionalista tentou lançar suprimentos por via aérea para a cidade, o que teve sucesso apenas em certa medida devido ao aumento da presença antiaérea comunista nas proximidades. O bloqueio militar duraria 150 dias, tendo uma grande percentagem da população civil perecido de fome no processo.
Um toque de recolher das 20:00 às 5:00 foi imposto na cidade e quem se recusasse a ser revistado por sentinelas podia ser executado.
O comércio formal entrou em colapso e foi substituído por trocas clandestinas quando objetos passaram a ser trocados por pequenas quantidades de comida de baixa qualidade ou um punhado de grãos de soja mofados.
Os nacionalistas até tentaram manter a ordem através de um racionamento rígido, mas a corrupção e o desespero ditaram as regras.

Os cavalos foram as primeiras vítimas. Milhares de animais, que deveriam ser a mobilidade do exército, acabaram nos pratos. Em seguida, cães e gatos. Por fim, as pessoas passaram a comer cascas de árvore, raízes, enchimentos de travesseiro e colchões, fezes de cavalo, couro de cintos e sapatos fervidos.
Quando a fome já estava matando, os nacionalistas abriram os portões para que os civis saíssem, esperando que isso poupasse comida para os soldados. Mas os comunistas não deixaram. Lin Biao sabia que cada civil dentro da cidade era uma boca para alimentar. Se os civis fugissem, o KMT resistiria por mais tempo. Manter a população presa era parte de um cálculo macabro para acelerar a rendição.
Sem o fornecimento de carvão, as pessoas começaram a queimar os móveis, molduras das janelas, livros e arquivos públicos. Ironicamente, a arquitetura moderna de Changshun, feita de concreto e aço, era impossível de queimar, e os civis morriam congelados dentro dos edifícios modernos.
Soldados nacionalistas desesperados começaram a saquear as casas dos civis que deveriam proteger. As poucas famílias que tinham bons estoques de comida guardada tinham um alimento confiscado e eram expulsos da cidade para morrer no bloqueio.
A estrutura moral da cidade colapsou junto sob o peso da fome. Surgiu um mercado de farinhas adulteradas feitas de terra branca e serragem, conhecidas como "pó de dragão". As pessoas comiam para sentir o estômago cheio, mas o material endurecia nos intestinos, causando mortes agonizantes por obstrução.
Carne humana passou a ser vendida discretamente como carne de carneiro ou carne bovina por preços exorbitantes. O desespero levou a uma onda de suicídios. Famílias inteiras se enforcavam ou se jogavam de prédios para evitar a agonia lenta da fome ou o horror de ver os filhos morrerem.
Não havia energia nem saúde para enterrar os milhares de mortos que jaziam nas ruas e dentro das casas. Cozinhar tornou-se perigoso, pois a fumaça podia atrair soldados ou vizinhos famintos. A confiança entre as pessoas desapareceu completamente.
Dentro da cidade de Changchun, o racionamento de alimentos cada vez mais escasso levou a conflitos entre o 60º Exército Nacionalista e o Novo Sétimo Exército, já que este último era acusado de receber tratamento privilegiado no fornecimento de suprimentos por via aérea.
As forças comunistas aproveitaram a situação para encorajar soldados nacionalistas a desertarem para o lado comunista, e 13.700 soldados nacionalistas o fizeram até meados de setembro.
Após a queda de Jinzhou para os comunistas em 14 de outubro, o cerco comunista a Changchun se intensificou rapidamente. Na noite de 16 de outubro, o 60º Exército Nacionalista mudou oficialmente de lado para o lado comunista e começou a atacar o Novo Sétimo Exército a partir de sua posição na cidade.
Zheng Dongguo estava relutante em se render, mas os oficiais do Novo Sétimo Exército já haviam chegado a um acordo com os comunistas, e o agrupamento finalmente depôs as armas em 20 de outubro.
O número de mortes de civis foi estimado em 150.000 e 300.000, pois o ELP impediu que civis deixassem a cidade para esgotar o suprimento de alimentos dos defensores, o que resultou em "dezenas de milhares de pessoas morrendo de fome".
O ELP continuou a impedir que refugiados civis deixassem a cidade até o início de agosto. No final, cerca de 150.000 refugiados conseguiram deixar Changchun, embora alguns deles tenham sido enviados de volta à cidade como agentes ou espiões para refutar a alegação de que o PCC estava deliberadamente matando a população civil de fome.
O fato de Changchun não ter ligações políticas nem com o KMT nem com o PCC foi, sem dúvida, uma das razões para o tratamento desumano dado aos civis. Os relatos das poucas testemunhas são verdadeiramente horripilantes e falam de pais comendo os corpos de filhos mortos (ou vice-versa).
De acordo com o livro "Where Chiang Kai-shek Lost China: The Liao-Shen Campaign, 1948", de Harold M. Tanner, historiador especialista em conflitos na China e no Japão do século XX, o elevado número de baixas civis no Cerco de Changchun "lança uma sombra" sobre a legitimidade do Partido Comunista Chinês.
As baixas civis eram amplamente desconhecidas do público chinês até o lançamento do livro "Neve Branca, Sangue Vermelho" publicado em 1989 pelo coronel do Exército de Libertação Popular (ELP) Zhang Zhenglu. Com efeito, toda a história do "cerco de Changchun" leva a este livro. Não é surpresa nenhuma então que ele foi censurado pelo governo chinês.
Após a vitória em 1949, o PCC controlou a historiografia oficial. O cerco foi retratado como uma vitória militar estratégica e "pacífica" do Exército de Libertação Popular (ELP), minimizando o sofrimento humano.
O evento contradiz a imagem do ELP como um exército que protegia o povo. A estratégia de "fome" para forçar a rendição foi um ato brutal de guerra, dificultando sua inclusão na narrativa oficial de "libertação".
Diferente de batalhas com explosões e confrontos diretos, o cerco consistiu em isolar a cidade e impedir que civis saíssem, matando-os pela fome. As forças comunistas bloquearam a saída de refugiados para esgotar os suprimentos de comida da guarnição nacionalista (KMT), prendendo a população em um espaço sem alimentos.
Testemunhas relataram que as tropas do ELP atiravam ou forçavam os moradores famintos a voltarem para a cidade, criando uma armadilha mortal.
Durante décadas, foi proibido falar publicamente ou escrever sobre o cerco. As memórias das vítimas e sobreviventes foram suprimidas. O silenciamento sob o cerco só foi quebrado mesmo com o lançamento do livro "Neve Branca, Sangue Vermelho, que detalha a crueldade do cerco.
Como dizíamos, o cerco ocorreu no final da guerra civil, um período de caos extremo. A magnitude da violência na China -incluindo a Segunda Guerra Sino-Japonesa- ofuscou eventos específicos.
Para o governo comunista, as vidas perdidas em Changchun foram vistas como um custo necessário para a conquista do nordeste chinês (Manchúria), não como uma tragédia humanitária.
O cerco de Changchun continua sendo um "trauma nacional indizível" na história chinesa, raramente mencionado em livros didáticos, mas bem documentado por historiadores e sobreviventes que relataram cenas de canibalismo e desesperança extrema.
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