![]() | Muito provavelmente, quando criança, você chamava de "pele de galinha" quando sua pele arrepiada ficava com pequenas elevações que lembram exatamente a textura da pele de uma ave depenada. O termo científico para isso é reflexo pilomotor ou "piloereção" e, na verdade, todo tipo de coisa pode causar arrepios. E quero que você pense na última vez em que se lembra de tê-los sentido: frio, música, filme, medo, etc. De fato, há uma infinidade de coisas que nos deixam arrepiados, mas por qual motivo o corpo reage assim? |

A situação mais óbvia em que sentimos arrepios é quando estamos com frio e parece não fazer nenhum sentido ... pelo menos hoje não. Esta é uma reação vestigial. Quando ainda éramos muito peludos, os pelos se levantavam criando uma camada de proteção entre a pele e o ar frio, ajudando na termorregulação.
Ok, agora faz todo o sentido, mas por que também temos calafrios ao ouvir música ou assistir a um filme? Vamos analisar isso mais de perto.
Existe um músculo minúsculo na base de cada pelo do seu corpo: o músculo eretor do pelo. Quando esses músculos se contraem, eles puxam os pelos, fazendo-os ficar em pé. E, quando relaxam, o pelo volta a ficar deitado.
Esses são músculos involuntários que fazem parte do nosso sistema nervoso simpático, responsável pela maioria das respostas de "luta ou fuga". A reação está intimamente ligada ao nosso estado emocional. E, além do frio, é por isso que filmes podem ser o melhor gatilho para arrepios.
Filmes tendem a simular interações sociais, e a combinação de estímulos auditivos e visuais pode desencadear respostas intensas de luta ou fuga, resultando na liberação de adrenalina e na contração daquele minúsculo músculo eretor do pelo.
Mas ouvir música também causa arrepios na grande maioria dos adultos, embora as razões sejam um pouco mais complexas.
Uma teoria sugere que a própria estrutura e natureza da música são suficientes para causar arrepios, pois criam uma sensação de expectativa no cérebro.
Muitas vezes, nossa mente tenta prever automaticamente o que virá a seguir na música, e a tensão interna aumenta enquanto ouvimos. Se nossas previsões estiverem corretas, ocorre uma liberação de dopamina que, por vezes, pode ser suficiente para provocar uma sensação de arrepio.
Outra teoria sugere que músicas tristes têm mais probabilidade de causar arrepios do que músicas alegres; dependendo de a quem se pergunta, isso pode ocorrer porque músicas tristes ou nostálgicas recriam a sensação de frio na espinha associada à perda de vínculos sociais.
Sabe-se que a sensação de isolamento da família ou do grupo social provoca arrepios, embora a razão exata para isso não seja bem compreendida. Sabemos, porém, que sentir arrepios ao ouvir música ativa as mesmas estruturas cerebrais que outras coisas capazes de nos deixar eufóricos, como comida e certas drogas.
Um estudo de 2011 constatou que "Adagio para Cordas", de Samuel Barber, foi extremamente eficaz em provocar arrepios na maioria das pessoas.
Segundo outros estudos, a cena de Jack e Rose na prancha em "Titanic" é a campeã absoluta de propagação de arrepios no cinema, devido a combinação de tragédia romântica, tensão extrema de sobrevivência e o sacrifício altruísta.
A impotência de Jack na água gélida, enquanto garante a sobrevivência de Rose, evoca um luto profundo que permanece na memória afetiva do público.
O sucesso absoluto em transmitir essa emoção visceral e gélida se dá por alguns fatores cruciais: o instrumental da clássica música "My Heart Will Go On" de Céline Dion cresce no momento em que a tragédia se consolida. A união da harmonia musical com as últimas palavras do casal se fundem, gerando arrepios imediatos.
Estudos de imagem cerebral revelaram que os arrepios ativam estruturas como a amígdala e partes do córtex pré-frontal, áreas comumente associadas ao prazer e à recompensa.
A empatia também pode causar arrepios porque o cérebro ativa o mesmo sistema de alerta e emoção intensa usado para perigos reais. Os cientistas compreendem perfeitamente os mecanismos físicos, como a liberação de adrenalina e a ação dos neurônios-espelho, mas ainda investigam exatamente como o cérebro processa e traduz o profundo impacto de uma história ou conexão comovente, como a do seguinte vídeo, em uma resposta puramente fisiológica.
Arrepiar-se pode proporcionar uma sensação agradável, mas, parando para pensar, muitas outras coisas também nos trazem bem-estar, como nossos amigos ou uma fatia de bolo.
Os arrepios são, na verdade, bastante inúteis. No entanto, eles são mais úteis para gatos, cachorros e muitos outros animais: os pelos deles se arrepiam quando estão muito agitados ou com medo. Curiosamente, os pelos de um gato não ficam eriçados quando ele está com frio, senão que com as patas agitadas.
O mesmo reflexo pilomotor que temos faz com que eles pareçam maiores e mais ameaçadores, podendo até afastar predadores.
Imagine que você é um porco-espinho: feixes musculares semelhantes, situados na base de seus espinhos, permitem que ele os movimente de forma independente para se proteger.
Para nós, os arrepios são, como dizíamos parágrafos acima, um vestígio da evolução. O eriçar dos pelos ajudava a manter o corpo aquecido antes da invenção das roupas e também pode ter servido para afastar predadores.
Esses arrepios são uma peculiaridade curiosa e fascinante da nossa biologia, algo que você pode ver, literalmente, na pele de uma galinha ou de um ganso, como dizem correntemente os anglófonos.
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