![]() | Amanhã, muito provavelmente aproveitado o sábado e o friozinho, você deve dar uma esticada até mais tarde na cama, mas com certeza haverá alguém em algures no mundo que sairá para a labuta sob dezenas de graus negativos. Certamente estas pessoas também lamentam pelo frio, mas por que então elas não escolhem um lugar melhor para viver? A reposta é complicada em grande parte do espectro. Acontece que nem todas as populações humanas decidem viver em locais extremos por puro acaso ou preferência inicial. |

Norilsk, uma das cidades mais poluídas e frias do mundo.
Pressões históricas de deslocamento, confinamento territorial ou busca por refúgio, levaram estes povos a lugares que eles também não gostariam de estar.
Grupos humanos migraram historicamente empurrados por conflitos ou competição por recursos, encontrando nesses locais inóspitos um espaço livre de concorrentes. É o verdadeiro - "Tá ruim, mas tá bom também..."
Populações que fixaram residência em grandes altitudes, como no Himalaia ou nos Andes, por exemplo, desenvolveram mutações genéticas específicas (como no gene EPAS1 nos tibetanos) para lidar com o ar com pouco oxigênio. Para nós seria uma grande e literal "dor de cabeça" de soroche. Para eles não é nada.
O corpo humano em crescimento desenvolve características físicas adaptadas ao estresse ambiental local, a exemplo de caixas torácicas mais largas.
O uso de vestimentas especializadas, abrigos térmicos engenhosos e controle do fogo permitiu que Homo sapiens dominasse desertos e o Ártico sem terem uma pelagem ou gordura corporal de animais polares.
A verdade é que os humanos modernos habitam a maioria dos ambientes mais inóspitos da Terra e exibem uma ampla gama de estilos de vida. Adaptações biológicas, além de inovações tecnológicas, possibilitaram essas explorações geográficas e culturais.
O estudo dessas adaptações não só ajuda a compreender fundamentalmente nossa evolução como espécie, mas também pode ter relevância crescente à medida que a genômica transforma campos como a medicina personalizada.
Um exemplo clássico de "gente que não queria estar lá" encontramos nas montanhas do Himalaia. Populações nômades asiáticas migraram em ondas ao longo dos milênios, em busca de fuga e proteção.
E o que acontece quando alguém procura proteção? Foge para as montanhas, oras. Assim, vales altos serviam como abrigo contra conflitos e inimigos nas planícies, adaptando-se biologicamente com o tempo, e desenvolvendo alterações no sangue para tolerar o oxigênio escasso.
Os povos do Himalaia enfrentam sérias crises de saúde e subsistência devido à altitude, mas desenvolveram estratégias biológicas e culturais únicas para sobreviver.
As dificuldades vão muito além do cansaço físico, afetando a reprodução humana e a produção de alimentos.
A falta extrema de oxigênio (hipóxia) pode evoluir para o Edema Pulmonar de Alta Altitude (EAPE), acumulando líquido nos pulmões.
Mulheres não adaptadas que engravidam em altas altitudes enfrentam taxas severas de aborto e bebês com baixo peso.
Diferente dos turistas, os povos nativos passaram pela evolução genética mais rápida registrada na história humana, estabilizando-se na região há cerca de 4 a 6 mil anos. Eles herdaram o gene EPAS1 de uma espécie humana extinta, os Denisovanos.
Enquanto o sangue de um estrangeiro engrossa na altitude, produzindo muitos glóbulos vermelhos e gerando coágulos, o corpo dos tibetanos usa o oxigênio de forma ultraeficiente sem engrossar. Seus vasos sanguíneos produzem mais óxido nítrico, mantendo-se dilatados para que o sangue circule com facilidade.
A sobrevivência na vertical exigiu engenharia e parcerias com o ecossistema local. Para combater a falta de planícies e as geadas, criaram terraços esculpidos nas montanhas para plantar cevada e batata.
Ah sim, temos que falar do iaque. Se o Nilo é um presente do Egito, o iaque é o pilar da vida local. Estes bovídeos são de vital importância para as populações de montanha nepalesas e tibetanas.
Tudo deles é aproveitado: além do leite, couro e carne saborosa, servem como animais de carga para transpor passos de montanha que nenhum outro animal poderia, dado a sua farta pelagem e a uma substância gordurosa que segregam na pele. Também trabalham em arados e seu esterco serve como combustível.
Mas então temos os russos... Ah os russos! A Rússia tem algumas cidades inóspitas onde as pessoas brigam para ir para lá. O motivo não é outro do que dinheiro.
Quando olhamos para cidades como Norilsk, uma das mais poluídas e frias do mundo, ou Mirny, a capital dos diamantes na Sibéria, a dinâmica muda completamente, separando a evolução biológica -que leva milhares de anos- da tomada de decisão socioeconômica -que acontece em uma única geração-.
Não se trata de uma adaptação genética lenta, como a dos povos andinos, mas sim de um cálculo racional de risco versus recompensa. As pessoas escolhem ativamente viver nesses lugares extremos por alguns grandes motivos estruturais.
O dinheiro é o maior motivador de migração voluntária para o inferno climático: o dobro ou o triplo da média. Em cidades como Mirny, mineradores, engenheiros e até médicos recebem salários que chegam a ser três vezes maiores do que a média nacional russa.
Muitos profissionais assinam contratos de curto prazo (3 a 5 anos). O plano deles é simples: suportar o frio de -50°C e o isolamento extremo, juntar dinheiro suficiente para comprar um apartamento à vista em Moscou ou São Petersburgo, e depois ir embora.
Para manter pessoas em locais que "ninguém iria de graça", o Estado e as grandes corporações mineradoras criam uma bolha de bem-estar: passagens aéreas gratuitas para qualquer lugar do país uma vez por ano, aposentadoria antecipada, bônus de insalubridade e ótimos planos de saúde.
Como o lado de fora é hostil e poluído com temperaturas menores que -50°C, essas "monocidades" investem pesado em complexos esportivos cobertos, arenas aquáticas aquecidas e centros culturais para que a vida social aconteça inteiramente indoor.
Há também um fator histórico. Na época da União Soviética, muitas dessas cidades foram construídas à força, usando o trabalho de gulags, como no início de Norilsk, ou eram Cidades Fechadas (só o governo decide quem pode entrar), conhecidas como Zatos, voltadas para testes nucleares e refino de urânio.
O governo soviético enviava os melhores cientistas e engenheiros para lá, oferecendo os maiores luxos da época: apartamentos melhores, acesso a bens escassos. Hoje, muitos moradores dessas cidades são filhos e netos dessas pessoas.
Essas cidades até hoje têm altos níveis de radioatividade, mas como nasceram ali, construíram laços e têm uma percepção de "normalidade" muito diferente da nossa, sobretrudo porque o salário ali ainda costuma ser duas vez maior que o de Moscou.
Em suma: enquanto os Inuítes se adaptaram ao Ártico por sobrevivência ecológica, o trabalhador moderno das Zatos se adapta por mobilidade social rápida. O corpo deles sofre com a falta de sol e a poluição, mas o bolso compensa o sacrifício temporário.
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