![]() | Imagine chegar a um país estrangeiro, entrar em um carro alugado e... travar. O volante está do lado errado. O trânsito funciona ao contrário. Cada instinto do seu cérebro lhe diz que você está prestes a bater. Hoje, cerca de 65% do mundo dirige pela direita (mão francesa), enquanto 35% dirige pela esquerda (inglesa). Poderia-se pensar que, a esta altura, a humanidade já teria concordado com uma regra universal única para as estradas, mas não foi isso que aconteceu. E o motivo não é resultado de algum estudo moderno de trânsito ou de um simples cara ou coroa. |

A mudança da mão esquerda para a direita na Suécia, conhecida como Dagen H (Dia H).
Essa é uma história que remonta a quase 2.000 anos, envolvendo estradas romanas, enormes carroças de madeira e um imperador francês desafiador.
Vamos voltar no tempo, para muito antes dos carros. Voltaremos ao Império Romano e à Europa medieval. Naquela época, as estradas eram frequentemente perigosas e imprevisíveis. Se você estivesse cavalgando por uma trilha de terra remota e visse um estranho se aproximando, não saberia dizer se era um amigo ou um salteador de estradas.
Como a maioria das pessoas é destra, muitos viajantes preferiam, naturalmente, cavalgar pelo lado esquerdo do caminho. Por quê? Porque isso deixava a mão que empunhava a espada mais próxima do estranho, caso precisassem se defender.
Além disso, carregar uma espada pesada no quadril esquerdo tornava muito mais fácil montar o cavalo pelo lado esquerdo. Durante séculos, manter-se à esquerda era menos uma regra formal e mais um hábito prático de sobrevivência.
Então, como o lado direito acabou prevalecendo? Para isso, avançamos para o século XVIII, nos Estados Unidos. À medida que as colônias americanas cresciam, havia a necessidade de transportar grandes quantidades de mercadorias.
É aí que entra a carroça Conestoga: uma estrutura enorme e pesada, puxada por uma parelha de até seis cavalos. Muitas dessas carroças não tinham um assento específico para o condutor. Em vez disso, o condutor sentava-se no cavalo traseiro esquerdo. Isso lhe permitia segurar o chicote pesado com a mão direita para controlar a parelha.
Mas sentar-se totalmente à esquerda criava um ponto cego. Dirigir pela direita lhe proporcionava uma visão muito melhor das carroças que vinham em sentido contrário e o ajudava a calcular o espaço entre as rodas.
Foi por causa de carroças como essas que a Pensilvânia aprovou, em 1792, a primeira lei oficial determinando a circulação pela direita.
Enquanto isso, do outro lado do oceano, a Europa passava por sua própria mudança caótica. Diz uma versão popular que os aristocratas franceses ricos costumavam viajar pelo lado esquerdo da estrada, ao passo que as pessoas comuns geralmente seguiam pela direita.
No entanto, com o início da Revolução Francesa, ostentar riqueza era uma ótima maneira de perder a cabeça. Acredita-se que muitos aristocratas tenham passado a circular pela direita para evitar chamar a atenção.
Decreto papal: Em 1300, o Papa Bonifácio VIII determinou que todos os peregrinos que viajassem a Roma deveriam manter-se à esquerda, consolidando o costume na Europa.
Poucos anos depois, Napoleão Bonaparte, que era canhoto, assumiu o poder. O imperador francês mudou o sentido do trânsito na França para a direita e impôs essa regra a todos os territórios que conquistou na Europa continental.
À medida que seus exércitos se espalhavam pela Europa, muitos territórios sob influência francesa adotaram a nova regra de circulação pela direita.
Mas houve uma ilha que ele jamais conquistou. A Grã-Bretanha manteve obstinadamente a antiga tradição de dirigir pela esquerda e acabou por exportá-la para todo o seu crescente império, incluindo Índia, Austrália e África do Sul.
O Japão adotou a circulação pela esquerda devido a uma herança cultural da época dos samurais e à posterior ajuda dos britânicos na modernização dos transportes.
Os samurais carregavam suas katanas (espadas) no lado esquerdo do corpo para poderem puxá-las mais rápido com a mão direita.
Se duas pessoas passassem muito perto e as bainhas das espadas batessem uma na outra, isso podia ser visto como um sinal de briga ou desafio. Para evitar esse perigo, os guerreiros criaram o hábito cultural de caminhar pelo lado esquerdo da rua.
Na segunda metade do século XIX, quando o Japão começou a construir suas primeiras ferrovias, o governo contratou engenheiros do Reino Unido. Como os britânicos usavam o tráfego do lado esquerdo, eles aplicaram esse mesmo modelo nos trens que ajudaram a projetar no Japão.
Esse costume que vinha desde o período dos xoguns se transformou em uma regra definitiva para bondes e carros no início do século XX.
De fato, no século XX, com a popularização dos automóveis, o mundo tentou padronizar as regras, mas os países decidiram manter o lado que já possuía a infraestrutura viária e os carros adaptados para evitar custos gigantescos de transição.
O exemplo mais ousado foi o da Suécia. Exatamente às 5 da manhã de 3 de setembro de 1967, o país inteiro parou, atravessou a pista e mudou permanentemente da esquerda para a direita. Nas não foi tão simples assim.
Conhecido como Dagen H (Dia H), o evento evitou um caos generalizado de acidentes e engarrafamentos graças a um planejamento logístico rigoroso de quatro anos, toque de recolher veicular e cautela extrema dos motoristas.
Cerca de 90% dos carros na Suécia tinham o volante do lado esquerdo (padrão de importação), o que gerava colisões frontais frequentes nas ultrapassagens de estradas estreitas.
Os países vizinhos (Noruega e Finlândia) já dirigiam pela direita, causando confusão nas passagens de fronteira.
Em um plebiscito realizado em 1955, 83% da população sueca votou contra a alteração, querendo manter a tradição da mão-inglesa. Apesar disso, o Parlamento aprovou a mudança por lei em 1963.
No Dia H veículos particulares foram banidos das ruas em grande parte do país entre 1h e 6h da manhã para a reorganização da sinalização.
A virada sincronizada: Às 4h50 da manhã, todo o tráfego restante parou, os veículos mudaram com cuidado para o lado direito da pista e aguardaram até as 5h00 para reiniciar a marcha sob novos limites de velocidade.
Cerca de 360 mil placas de trânsito foram trocadas, e milhares de ônibus precisaram de adaptações nas portas ou substituição de frota.
Hoje, como vemos, o lado da estrada em que dirigimos é o resultado direto de tradições militares medievais, igreja metendo o bedelho onde não devia, estratégias imperiais, samurais brigões, grandes carroças e a rivalidade entre grandes potências do passado.
No Brasil, o uso da mão inglesa é proibido nas vias comuns, aparecendo apenas em trechos específicos e devidamente sinalizados para organizar o tráfego em cruzamentos complexos. Em Joinville, a maioria das vias perpendiculares secundárias, entre duas grande avenidas de trânsito contrário, adota a mão esquerda.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários