![]() | Em julho de 2025, atletas de elite competiram em uma corrida de longa distância, mas sem um trajeto predefinido. Tratava-se do Campeonato Mundial de Orientação; munidos apenas de mapas e bússolas, os participantes precisavam encontrar o caminho entre pontos de controle distantes em alta velocidade, desviando de árvores, correndo sobre rochas e contornando penhascos. Isso pode parecer um tanto intimidador, mas existem pessoas que parecem ter (e têm) um Sistema de Posicionamento Global integrado que dificilmente se perdem. |

Quer você se considere um mestre da orientação ou alguém que se perde ao voltar do supermercado, seu cérebro possui um sistema de navegação integrado que facilita habilidades espaciais, desde identificar a direção norte até ler mapas e memorizar rotas.
Esse sistema é composto por duas partes principais: o corpo estriado e o hipocampo. O corpo estriado processa informações sensoriais, como pontos de referência próximos. Com a repetição, ele passa a associar estímulos e ações específicos a determinadas respostas e resultados, vinculando essas pistas a rotas estabelecidas. Isso cria hábitos de navegação; por exemplo, quando você faz automaticamente a mesma sequência de curvas ao voltar para casa.
Já o hipocampo constrói mapas mentais contínuos e dinâmicos do ambiente. Ele ajuda você a descobrir como chegar a um lugar, mesmo que nunca tenha estado lá ou nunca tenha feito aquele trajeto exato antes.
Pesquisadores perceberam a importância do hipocampo no mapeamento mental na década de 1970, ao observar a atividade cerebral de ratos e notar que neurônios específicos do hipocampo eram ativados quando os animais estavam em determinados espaços.
O mesmo fenômeno ocorria na escuridão total, indicando que esses neurônios, que passaram a ser chamados de "células de lugar ", formavam mapas cognitivos independentes de informações sensoriais.
Acredita-se que a atividade nessas áreas durante o sono represente uma espécie de "reprodução" dos locais, à medida que o cérebro consolida informações espaciais.
Em 2005, pesquisadores descobriram outros tipos de neurônios de navegação na região ao redor do hipocampo. Entre eles estão as "células de grade", que são ativadas em um padrão regular durante o movimento, fornecendo ao cérebro uma espécie de sistema de coordenadas interno.
Juntas, essas descobertas revolucionárias, que revelaram a existência das células de lugar e de grade, renderam aos pesquisadores John O'Keefe, May-Britt Moser e Edvard Moser o Prêmio Nobel de 2014.
Contudo, embora o corpo estriado e o hipocampo formem um sistema de navegação que permite ao cérebro alternar estratégias conforme a tarefa, ainda temos dificuldade em encontrar o caminho. Na ausência de pistas externas claras, as pessoas tendem a cometer pequenos erros que as desviam da rota e as fazem andar em círculos.
De modo geral, alguns de nós nos perdemos com mais frequência do que outros. A maioria das pessoas consegue lidar bem com rotas muito praticadas e baseadas no funcionamento do estriado; no entanto, aqueles que dependem mais de uma orientação própria centrada no hipocampo tendem a se destacar na navegação.
Estudos com gêmeos sugerem que a genética é responsável por cerca de 60% da variação em nossas habilidades de navegação. Essas habilidades parecem ser independentes da inteligência geral, o que sugere que a navegação é uma capacidade cognitiva distinta. E, o que é fundamental, pesquisas indicam que ela pode ser praticada e aprimorada.
Em comparação com pessoas de áreas suburbanas e rurais, aquelas que cresceram em cidades, especialmente as com traçados urbanos mais uniformes, em formato de grade, parecem ter mais dificuldade para navegar em ambientes menos organizados.
Em um famoso estudo de 2010, jogadores de rúgbi e praticantes de artes marciais foram vendados e instruídos a retornar a um ponto de partida. Os jogadores de rúgbi, que treinam em escalas muito maiores, realizaram a tarefa com maior precisão direcional, sugerindo que a diferença em seu treinamento espacial aprimorou sua capacidade de julgamento em distâncias mais longas.
Já os taxistas de Londres precisam aprender o que é conhecido como "o conhecimento", que consiste em memorizar extensas rotas e pontos de referência em meio ao labirinto de ruas da cidade, famoso por sua complexidade. Observou-se que aqueles que concluem o treinamento com sucesso apresentam um crescimento significativo do hipocampo.
No entanto, a maleabilidade do cérebro pode ser uma faca de dois gumes. Embora os dispositivos de GPS nos levem aos destinos com eficiência, eles resultam em reconstruções espaciais menos precisas do que as instruções verbais e os mapas de papel.
Ao permitir que nossos cérebros interajam menos ativamente com as pistas do ambiente, o GPS pode enfraquecer o sistema de navegação hipocampal e prejudicar nosso senso de direção interno.
Portanto, para melhorá-lo, você pode tentar deixar o GPS de lado em rotas mais familiares e prestar atenção a pontos de referência distantes.
Em vez de seguir instruções passo a passo, experimente usar um mapa de papel e explorar novos lugares a pé, já que o movimento físico ajuda o cérebro a codificar informações espaciais.
Assim, com um pouco de prática, da próxima vez que você se perder, talvez consiga olhar primeiro para dentro de si mesmo para encontrar o caminho.
Minha finada e querida esposa tinha um senso de direção e navegação tão absurdos que muitas vezes eu confundia com magia. Dizem que esposa é co-piloto; a minha era GPS, radar, sensor de estacionamento, controle de velocidade e alerta de colisão, tudo no mesmo pacote!
Certa feita, quando a levei pela primeira vez em Passa Quatro, usei o antigo acesso da Via Dutra pela cidade de Cachoeira Paulista, sem saber que já haviam inaugurado o acesso exclusivo para Cruzeiro.
- "Você pegou o caminho errado", disse ela. - "Mas que porra é essa. Ela nunca passou por aqui", pensei. Ela estava certa e se baseou no fato de que a estrada de paralelepípedo estava cheia de grama e sem movimento.
Ter esse "senso de direção absoluto" realmente parece um superpoder para quem está assistindo, quase como se a pessoa tivesse uma bússola interna ou um mapa mental tridimensional constantemente atualizado.
Muitas vezes, essa habilidade que parece "magia" é uma combinação de atenção extrema aos detalhes com uma excelente memória espacial. Enquanto a maioria de nós se perde no segundo cruzamento, algumas pessoas conseguem rastrear mentalmente cada curva que fizeram.
Com ela eu nunca me perdia, hoje tenho que usar o GPS para não ficar perdido nos bairros da zona sul de Joinville.
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