![]() | O bambu geralmente está associado a pandas, cercas de jardim, móveis modernos e elegantes, e, claro, ao Vietnã, onde é fundamental na cultura, economia e até política. A alimentação raramente entra na conversa do mundo ocidental. De fato, durante muito tempo os biólogos acreditavam que os pandas sofriam de desnutrição crônica devido à sua dieta à base de bambu. Mas novas pesquisas científicas sugerem que o bambu, especificamente os brotos de bambu, podem merecer uma análise mais detalhada como uma fonte de alimento rica em nutrientes e surpreendentemente promissora. |

Uma revisão sistemática recente, publicada no periódico científico Advances in Bamboo Science, analisou décadas de pesquisas sobre o consumo de bambu e seus efeitos na saúde humana. As conclusões não coroam o bambu como um alimento milagroso, mas sugerem algo mais interessante. O bambu pode ser uma das plantas comestíveis mais negligenciadas que já temos.
O uso de bambu como alimento não é novidade. Em toda a Ásia, os brotos são consumidos há séculos. Eles aparecem em refogados, sopas, pratos fermentados e refeições sazonais. Fora dessas regiões, o bambu ainda é considerado um alimento de nicho ou pouco conhecido.
O que torna a nova pesquisa notável não é o fato de o bambu ser comestível, mas sim que os cientistas agora o estejam avaliando usando abordagens nutricionais e biomédicas modernas.
A revisão examinou ensaios clínicos em humanos, estudos em animais e pesquisas laboratoriais focadas em brotos de bambu e compostos derivados do bambu. Vários temas consistentes emergiram.
Os brotos de bambu são ricos em fibras alimentares, principalmente celulose e lignina. Essas fibras estão associadas à melhora da digestão, da saúde intestinal e da regularidade do trânsito intestinal. Alguns estudos sugerem que a fibra de bambu também pode ajudar a promover bactérias benéficas no intestino.
Estudos iniciais em humanos indicam que o consumo de bambu pode ajudar a regular os níveis de açúcar no sangue e melhorar os perfis de colesterol. Esses marcadores estão intimamente ligados à saúde metabólica e ao risco de doenças a longo prazo.
Estudos laboratoriais demonstram atividade antioxidante e anti-inflamatória em extratos de bambu. Essas propriedades são frequentemente associadas à redução do estresse celular e à proteção contra inflamações crônicas.
Alguns compostos do bambu parecem reduzir a formação de substâncias químicas nocivas, como acrilamida e furano, durante o cozimento em altas temperaturas. Isso aponta para possíveis aplicações além da nutrição, incluindo o processamento e a segurança alimentar.

Em conjunto, o bambu preenche muitos dos requisitos comumente usados para descrever superalimentos. Rico em fibras, micronutrientes e biologicamente ativo.
Um dos motivos pelos quais o bambu se destaca não é apenas o que ele oferece em termos nutricionais, mas também a forma como cresce. O bambu é uma das plantas de crescimento mais rápido da Terra. Ele se regenera rapidamente, requer relativamente pouca água e prospera em uma ampla variedade de climas.
Em um momento em que os sistemas agrícolas estão sob pressão devido às alterações climáticas e à escassez de recursos, o bambu apresenta uma combinação invulgar de escalabilidade e valor nutricional. É raro encontrar um alimento que se mostre simultaneamente resiliente do ponto de vista ambiental e biologicamente promissor.
Entretanto, os pesquisadores tiveram o cuidado de não exagerar na interpretação dos resultados. Os dados clínicos em humanos ainda são limitados, e muitos dos resultados mais robustos provêm de estudos com animais ou células. Mais ensaios clínicos em larga escala com humanos são necessários antes que o bambu possa ser recomendado com segurança como um alimento funcional.
Há também uma questão de segurança. Os brotos de bambu crus contêm compostos naturais que podem liberar cianeto. Métodos tradicionais de preparo, como fervura, imersão e fermentação, são essenciais. Esta não é uma descoberta moderna, mas é um lembrete importante de que o conhecimento alimentar e as práticas culturais são importantes.
Então, o bambu é um superalimento? A resposta não é um simples "sim" ou "não". O bambu ainda não possui a mesma quantidade de evidências clínicas que alimentos como aveia ou leguminosas. Mas as pesquisas sugerem que ele merece mais atenção do que recebeu até hoje.
O bambu ocupa uma posição interessante na intersecção entre nutrição, sustentabilidade e tradição. Pode não ser um superalimento que ganhe as manchetes, mas tem o potencial de se tornar, discretamente, parte de uma abordagem alimentar mais diversificada, resiliente e consciente.

Às vezes, os alimentos mais interessantes não são nada novos. Eles estão apenas esperando para serem repensados.
Então, qual é o gosto do bambu? Lembra bastante o palmito juçara tanto no gosto neutro quanto na textura, mas é um pouco mais amargo.
De fato o broto do bambu é um chuchu das gramíneas -sim bambu é grama-: ele adquire o sabor dos alimentos com os quais é preparado devido à sua textura, alto teor de água e sabor neutro.
Essas características fazem o broto de bambu um coringa da culinária, capaz de absorver caldos, temperos e corantes, transformando-se em um ingrediente versátil que assume o gosto de molhos, carnes ou refogados.
Um dos manjares se chama Oua No Mai, no sudeste asiático, ou Takenoko, no Japão, que consiste em brotos de bambu recheados com carne de porco picada, ervas e especiarias, frequentemente servido frito ou cozido. Na verdade, o recheio fica a critério do cozinheiro.
No seguinte vídeo a mãe solteira (uma realidade triste do Vietnã) Sam Thi Loan, que mora com a mãe do cara que a abandonou, prepara brotos de bambu recheados (Oua No Mai) e desidratados para conservação.
Este é o modelo de casa de bambu tradicional de muitas pequenas cidades do interior do Vietnã: feita de bambu sobre palafitas, para evadir enchentes.
O fogão a gás é coisa de gente rica e o fogão a lenha de chão é muito comum. Se você ficar incomodado com o barulho da água escorrendo o tempo todo, saiba que não é servida por concessionária, senão captada com mangueira em algum ponto alto do rio próximo.
Tigelinhas e hashis substituem pratos e talheres. Mesa e cadeiras nem pensar. No quarto, não mostrado no vídeo, provavelmente também não tem cama e nem colchão, no máximo um colchonete ou esteira.
O próprio bambu também é usado em um prato chamado Cơm Lam ou Lemang. Esses pratos consistem em colocar arroz glutinoso e outros ingredientes dentro do colmo de bambu verde, selar com folhas de bananeira e assar sobre brasas. Diliça!
No vídeo abaixo, La Thi Mui, uma mãe solteira do extremo norte do Vietnã, colhe enormes brotos de bambu-gigante o bastante para preparar conservas (o ácido cético e o sal eliminam a toxidade), coze brotos enormes para vender em uma mercearia e ainda sobra broto para preparar um cozidão com suã, acompanhado de panceta defumada e temperada com gengibre, pepino e arroz glutinoso. Deu até água na boca aqui.
Esta refeição foi uma espécie de celebração de Mui para comemorar a construção de sua casa de bambu no meio da floresta, depois que ela foi expulsa de casa por um companheiro tóxico que vivia bêbado e batia nela.
Como já disse em outra ocasião, estas "novelinhas" vietnamitas, são baseadas em fatos reais.m Você pode acompanhar toda a sua jornada em seu canal do Youtube.
Então... qual é a relação do povo vietnamita com o bambu? A relação é profunda, multifacetada e central para a identidade nacional, cultural e histórica do país.
O Símbolo Nacional e Cultural não é apenas uma planta comum no Vietnã, mas um símbolo reverenciado que representa a força, resiliência, solidariedade e a capacidade de adaptação do povo vietnamita.
Não é incomum que uma autoridade ou pessoa famosa, homem ou mulher, se livre do paletó ou dos saltos altos, pegue um facão vietnamita e mostre o que sabe fazer com o bambu.
Tradicionalmente, as casas no Vietnã eram feitas de bambu, incluindo vigas, paredes e telhados. Em cidades do interior muitas casas ainda são construídas dessa forma.
Sua flexibilidade e força tornam-no um material de construção sustentável, utilizado até hoje, inclusive em bangalôs modernos e estruturas complexas. Muitos resorts são feitos inteiramente com bambus e cobertos com folhas de palmeira-leque.
Mais recentemente, o termo ngoại giao cây tre (diplomacia do bambu foi popularizado, especialmente pelo Secretário-Geral Nguyen Phu Trong, para descrever a política externa do Vietnã.
Assim como o bambu, a diplomacia vietnamita busca ser flexível, resiliente e adaptável, mantendo relações estáveis com grandes potências, como China, EUA e Rússia, sem se submeter a nenhuma, protegendo sua soberania.
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