![]() | Ontem enquanto escrevia o artigo da reserva de ouro armazenada no Banco da Inglaterra, me ocorreu o episódio do roubo descarado de sementes de seringueira que mudou o curso da história brasileira. As seringueiras são encontradas naturalmente em regiões tropicais das Américas e, à primeira vista, não parecem particularmente especiais. Apenas uma árvore sem-graça que destila "leite" quando a casca é cortada diagonalmente. A diferença é que este leite vulcanizado vira borracha: a substância impermeável e durável que está ao nosso redor de forma quase onipresente. |

- "Não seria possível ter nada parecido com o mundo de hoje sem a borracha", disse o químico e historiador da borracha ao programa "As Coisas que os Britânicos Roubaram", da rede de TV Corporação Australiana de Radiodifusão (ABC).
Mas, como muitos recursos, a borracha tem um passado sombrio, em que as invenções atuais só existem graças a gerações de exploração no passado. E esse passado sombrio teve uma reviravolta crucial, baseada nas ações de um inglês no coração da Amazônia.
Durante milênios, os povos indígenas das Américas usaram a borracha para coisas como impermeabilizar roupas e fazer bolas para esportes.
No final do século XV, os europeus começaram a atravessar o Oceano Atlântico rumo às Américas e, com a passagem dos anos, também perceberam os benefícios da borracha.
Foi o químico inglês Joseph Priestley quem lhe "deu o nome" de "borracha" em 1770, depois de constatar que a substância conseguia apagar marcas de lápis. Isso é estranho porque o látex da seringueira já tinha nome: caa-uchu ou caucho, tupi-guarani pra "madeira que chora".
Mas a borracha em sua forma natural apresentava alguns problemas. Se você deixasse no sol, derretia. Ou, se ficasse muito frio, quebrava em cacos.
Os cientistas tentaram remediar isso. Em 1839, o americano Charles Goodyear misturou borracha e enxofre sobre um fogão quente, e encontrou a solução perfeita.
Essa "borracha vulcanizada", que recebeu o nome do deus romano do fogo, Vulcano, era muito mais estável e durável, o que significava que muito mais coisas podiam ser feitas com ela.
A borracha revolucionou a forma como as pessoas viviam, começando pelos itens mais banais, como vedações e juntas simples.
O sistema de esgoto no Reino Unido naquela época era praticamente inexistente. Juntas de borracha possibilitaram o fornecimento de esgoto em praticamente toda Londres. E também água potável.
De repente, surgiram protótipos de botes infláveis, coletes salva-vidas e bolsas de água quente. Nas fábricas, peças de borracha eram usadas para vedar frestas e absorver impactos. Foi inventado o tubo de borracha para enema.
Assim, quando o comércio de borracha prosperou na década de 1800, riquezas fluíram para o Brasil, que - "... detinha o monopólio mundial da borracha natural", afirmou Joe Jackson, autor de "O Ladrão no Fim do Mundo: Borracha, Poder e as Sementes do Império".
" - "Como os brasileiros controlavam o mercado, podiam cobrar o que quisessem das potências europeias. E assim enriqueceram", completou Joe.
Esse crescimento econômico teve como foco Manaus. Conhecida naquela época como a "Paris dos Trópicos"", se tornou a cidade mais rica da América do Sul no final do século XIX, graças à borracha.
Sandro Gama, um guia da floresta amazônica, diz que a borracha era considerada "ouro branco".

Henry Wickham, o filho de chocadeira que roubou 70 mil sementes de Hevea brasiliensis.
Os britânicos, em particular, não gostavam do domínio que os brasileiros exerciam sobre o mercado. Então, na década de 1860, começaram a conspirar.
Mas havia um problema. A Grã-Bretanha precisava obter sementes de seringueira e transportá-las através do Atlântico, o que não era uma tarefa fácil.
Nos séculos passados, o Jardim Botânico Real de Kew foi uma parte essencial do crescente Império Britânico, dedicada ao lucrativo mundo das plantas, incluindo a seringueira.
- "Eles enviavam botânicos para tentar encontrar a borracha mais resistente possível no Brasil. Foi um processo de tentativa e erro", disse Joe.
Mas, uma vez encontradas e transportadas para a Inglaterra, essas sementes de seringueira rançavam e morriam em seu próprio suco.
Entra na história o biltre, fanfarrão e contrabandista Henry Wickham. Nascido em 1846, Henry fez várias viagens malfadadas às Américas. Uma delas foi um desastre financeiro, em outra, vários membros de sua família morreram vítimas de doenças tropicais. Mas ele persistiu.
E na iminente guerra da borracha entre a Grã-Bretanha e o Brasil, Henry ofereceu algo extremamente útil: ele era um inglês atrás das linhas inimigas.
Com seu conhecimento e experiência da Amazônia brasileira, Henry passou a fazer parte da operação de sementes de seringueira de Kew.
Ao longo de um ano, Henry usou suas conexões para garantir cerca de 70.000 sementes. E descobriu que, se fossem embrulhadas em camadas de folhas de bananeira secas, poderiam ser transportadas com segurança.
Henry carregou as sementes em um barco, escondeu-as para evitar suspeitas e partiu com sua preciosa carga.
Hoje, se qualquer pessoa, brasileiro inclusive, tentar sair da Amazônia com uma muda de capim-barba-de-bode pode amargar uma cadeia por crime ambiental, como diabos este safardana roubou 70 mil sementes retiradas da Amazônia?
Mas a verdade é que as coisas eram muito diferentes no final do século XIX. Na década de 1870, quando Henry estava coletando as sementes, não havia restrições de qualquer tipo e nem a caneta que assinou a Lei de Crimes Ambientais tinha sido inventada.
Mas Sandro Gama tem uma visão bem diferente, para ele essas sementes e a indústria da borracha que veio com elas pertenciam ao povo da Amazônia e, portanto, ao Brasil.
As sementes de Hevea brasiliensis da região do Rio Tapajós, chegaram a Londres em junho de 1876, utilizando o navio a vapor britânico Amazonas. E dentro das estufas de Kew, mais de 2.000 das vagens mais robustas germinaram e se transformaram em mudas.
Os britânicos agora possuíam os elementos básicos para a sua própria plantação de seringueiras.
Mas havia mais um obstáculo. O clima e as condições da Amazônia e da Inglaterra rural são muito diferentes.

Henry Wickham se vangloriava de ter "passado a perna" no Brasil.
Assim, as mudas foram enviadas para as colônias britânicas. Isso incluiu Singapura, que fazia parte da Malásia Britânica naquela época.
Os botânicos singapuranos logo descobriram que a planta conseguia crescer muito bem afinal a latitude da Amazônia coincide com a da Amazônia.
Assim que os britânicos decifraram esse código, toda uma indústria foi criada. A demanda por automóveis com pneus de borracha disparou. E quando a Primeira Guerra Mundial começou, a borracha era essencial para a tecnologia e a logística do exército.
- "As seringueiras se espalharam por toda a Malásia. Na década de 1890, havia apenas cerca de 500 acres de plantações de seringueiras na Malásia. Em 1920, esse número havia chegado a quase 1 milhão de acres", afirmou John Loadman. - "E, em muitos aspectos, toda essa receita foi canalizada de volta para Londres."
Existiam grandes empresas britânicas de borracha. E para isso é preciso mão de obra. Então, elas começaram a importar mão de obra, principalmente da Índia.
Os britânicos enviavam condenados indianos para a Malásia britânica e eles trabalhavam como "condenados".
- "Era uma forma de escravidão", disse John. - "Os trabalhadores não recebiam pagamento. E se fugissem, eram jogados de volta na plantação."
Os britânicos também levaram tâmeis do sul da Ásia para trabalhar em plantações de seringueiras na Malásia, muitos dos quais não sabiam no que estavam se metendo.
Milhares desses trabalhadores morreram, trabalhadores que foram essencialmente enganados para fazerem parte da indústria da borracha britânica.
Enquanto as plantações de seringueiras prosperavam na Grã-Bretanha, a indústria brasileira da borracha foi devastada.
- "Tudo desmoronou. As pessoas tiveram que abandonar seus trabalhos. Não havia dinheiro circulando. Então o Brasil sofreu muito naqueles dias", disse Sandro Gama.
O caso do roubo de sementes brasileiras pelos ingleses tornou-se conhecido principalmente por meio da ostentação e autopromoção do próprio ladrão, Henry Wickham, décadas depois do ocorrido, quando as plantações britânicas de borracha na Ásia começaram a dominar o mercado mundial.
Embora o incidente tenha ocorrido em 1876, não foi imediatamente considerado um "roubo" no Brasil, porque as autoridades brasileiras nem sabiam do roubo.
Anos mais tarde, quando o sucesso das plantações asiáticas, que utilizavam suas sementes, destruiu o monopólio brasileiro, Henry vangloriou-se de seu feito para ganhar fama e dinheiro, muitas vezes embelezando a história para se apresentar como um "James Bond da botânica" que enganou o governo brasileiro.
Henry criou a narrativa, chamando a si mesmo de "ladrão" que roubou as sementes bem debaixo do nariz das autoridades, acrescentando aos seus relatos que teve que se esconder das canhoneiras brasileiras que o perseguiam.
Ele foi pago especificamente pelos Jardins Botânicos Reais de Kew para coletar as sementes.
Ainda que a legislação era laxa, pesquisas históricas, no entanto, mostram que ele provavelmente mentiu para os funcionários da alfândega, alegando que as 70.000 sementes eram "espécimes botânicos extremamente delicados" para os Jardins de Kew, em Londres.
A história ficou famosa por coincidir com o colapso repentino e catastrófico do ciclo da borracha na Amazônia, no início do século XX. Em 1913, a borracha asiática controlada pelos britânicos inundou o mercado, e a queda drástica na prosperidade brasileira evidenciou o "roubo".
Com o tempo, o incidente passou a ser reconhecido como um dos atos de biopirataria mais significativos, senão o maior, da história.
No século XX, a borracha sintética dominou o mercado, mas a borracha natural ainda é amplamente utilizada nos dias de hoje.
Apesar de décadas de pesquisa brasileira na seleção de seringueiras altamente produtivas e resistentes a doenças, muitas seringueiras comerciais em todo o mundo descendem das sementes que este fdp levou para Londres
E o
desgraçado ainda morreu de velho. Henry Wickham, o homem que "passou a perna no Brasil", como ele mesmo gostava de se gabar, morreu em 27 de setembro de 1928, aos 82 anos.
De fato, a biopirataria é um grande e complexo problema para a Amazônia brasileira, com sérias consequências ambientais, sociais e econômicas. Ela envolve a exploração ilegal de recursos naturais e o uso indevido de conhecimentos tradicionais de comunidades locais sem a devida autorização ou compensação.
No episódio mais recente, no início dos anos 2000, uma empresa japonesa chamada Asahi Foods tentou registrar o nome "cupuaçu" como marca comercial e patenteou processos de produção de derivados do fruto no Japão, Estados Unidos e Europa.
Na prática isto significava que produtores brasileiros poderiam ser impedidos de exportar produtos com o nome "cupuaçu" ou pagar royalties para usar o nome. Mas este é assunto para um novo artigo.
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Comentários
Faltou contratar algum petista que levasse uma doença para estes seringais asiáticos, tal qual aconteceu com os pés de cacau na Bahia....
Na verdade, o planeta inteiro vive de plantas adaptadas fora da sua região de origem. Fui descobrir hoje que o maior produtor de tapioca do mundo é a Tailândia, e o maior produtor de mandioca é a Nigéria. Se as sementes de seringueira não fossem roubadas, certamente seriam compradas, alguém ganancioso colaboraria para esta transação.