![]() | Hoje mais cedo, quando escrevia o artigo sobre a "muda vocal", me ocorreu a ideia de que o cérebro poderia causar alguma falha na laringe que resulta na disfemia (gagueira), mas não tem nada a ver. Com efeito, você já se perguntou por que nunca viu ou ouviu alguém gaguejar enquanto cantava? É uma observação interessante e não há uma resposta única para o motivo pelo qual esse fenômeno ocorre. Cientistas e pesquisadores trabalharam duro para responder a muitas perguntas difíceis sobre a gagueira, quando se trata do debate sobre o canto. |

Existem algumas teorias interessantes, entre elas que o canto ocorre em uma parte diferente do cérebro, que pode muito bem ser o motivo pelo qual o canto não é afetado pela gagueira.
Cientistas do Instituto Max Planck de Ciências Humanas Cognitivas e do Cérebro obtiveram considerações cruciais: a hiperatividade em regiões do hemisfério direito parece ser central para a gagueira:
- "Partes do giro frontal inferior direito (GFI) são particularmente ativos quando paramos ações, como movimentos da mão ou da fala", disse Nicole Neef, neurocientista do instituto e primeira autora do estudo. - "Se essa região estiver hiperativa, atrapalha outras áreas do cérebro que estão envolvidas na iniciação e finalização dos movimentos. Em pessoas que gaguejam, as regiões do cérebro responsáveis pelos movimentos da fala são particularmente afetadas."
Duas dessas áreas são o GFI esquerdo, que processa o planejamento dos movimentos da fala, e o córtex motor esquerdo, que controla os movimentos reais da fala.
- "Se esses dois processos são inibidos esporadicamente, a pessoa afetada não consegue falar fluentemente", explicou Nicole.
Os cientistas investigaram essas relações usando ressonância magnética em adultos que gaguejam desde a infância. No estudo, os participantes se imaginavam dizendo os nomes dos meses. Eles usaram esse método de fala imaginária para garantir que os movimentos reais da fala não interferissem nos sinais sensíveis da ressonância magnética. Os neurocientistas foram então capazes de analisar o cérebro procurando por tratos de fibra modificados nas regiões hiperativas do hemisfério direito em participantes que gaguejam.
Se você assistir ao vídeo abaixo do elegante Harrison Craig, vencedor da segunda temporada do The Voice Austrália 2013, entenderá o quão grande pode ser a mudança entre falar e cantar para alguém que gagueja.
Este pode não ser o único motivo. É verdade que para cantar (bem), precisamos alterar a maneira como usamos nossas cordas vocais, bem como moldamos nossas línguas e bocas. Existe uma teoria de que isso pode ter um papel a desempenhar no motivo pelo qual as pessoas não gaguejam quando cantam e é atribuída como uma das possíveis razões pela Fundação da Gagueira da América.
Outra teoria tem a ver com a comunicação bidirecional, que envolve uma conversa imprevisível, onde você não pode planejar sua próxima resposta. Também tem o potencial da outra pessoa ou pessoas interromperem ou ficarem impacientes. Cantar, no entanto, é principalmente uma comunicação de mão única e elimina a possibilidade desses desafios. Muitas vezes memorizamos as letras quando cantamos, em vez de enfrentar uma conversa imprevisível e, a menos que estejamos no karaokê, é improvável que alguém na platéia esteja planejando interromper.
Muitos pais comentam que quando uma criança está brincando sozinha, ou falando sozinha, sua gagueira não está presente. Isso pode ser semelhante ao motivo pelo qual a comunicação unidirecional no canto reduz a gagueira.
Essas três teorias podem ou não ser a razão pela qual não gaguejamos quando cantamos, pode ser uma combinação das três, ou pode até ser outra coisa. A verdade é que ainda há muita pesquisa a ser feita, sobretudo sobre o motivo que leva uma pessoa nervosa ou tímida a gaguejar ainda mais.
Embora a timidez e a falta de confiança não causem gagueira, elas podem influenciar e agravar significativamente isso. Essa relação cria um ciclo de retroalimentação em que o estresse, a baixa autoestima e o medo de reações negativas do ouvinte podem aumentar diretamente as interrupções na fala.
Vejam por exemplo o caso da fofa Amanda Mammana, uma cantora, compositora e violonista então com 19 anos de Trumbull, no estado norte-americano de Connecticut. A tímida e insegura mocinha convive com a gagueira desde os 10 anos de idade.
Em sua audição na Temporada 17 do America's Got Talent, Amanda se abre sobre a vida com um problema de fala e então pega seu violão e apresenta uma canção original emocionante que comove os jurados e plateia até às lágrimas.
A timidez, os níveis de confiança e o nervosismo influenciam a gagueira de diversas maneiras concretas. Pessoas com baixa autoestima frequentemente antecipam reações negativas dos ouvintes, o que causa tensão e hesitação ao falar. A falta de confiança leva ao aumento da ansiedade. Isso ativa o sistema nervoso autônomo, causando respiração superficial, tensão muscular nas cordas vocais e fala acelerada, o que torna a gagueira muito mais difícil de controlar.
Para evitar o medo de julgamento ou constrangimento, indivíduos tímidos podem substituir palavras ou evitar completamente situações de conversação. Essa evitação reduz ainda mais a prática da comunicação e a confiança social.
Especialistas observam que a relação é bidirecional: a gagueira frequentemente leva à baixa autoestima, o que, por sua vez, agrava ainda mais as dificuldades de fala já existentes.
Em entrevista, o cantor Noah Sam Honegger disse que evitava falar com as pessoas, porque a gagueira lhe deixava nervoso e atropelando as palavras cada vez mais em um ciclo vicioso que ele não conseguia dominar. Ele só ganhou verdadeira auto-confiança quando começou a tocar violão e cantar.
A gagueira de Noah, que participou do The Voice 2020 na Alemanha, é tão galopante que ele evita falar frases longas ou, às vezes, responde cantando.
Segundo um estudo de 2024, da Associação Europeia de Medicina, pessoas que gaguejam apresentam maior risco de desenvolver sintomas de ansiedade social, com até 22-60% dos adultos que gaguejam preenchendo os critérios para um diagnóstico clínico.
Atitudes e sentimentos negativos em relação à fala e à gagueira podem surgir já na idade pré-escolar e acredita-se que sejam decorrentes da exposição a reações negativas dos ouvintes, estereótipos e isolamento social.
Experiências negativas repetidas levam a sentimentos de medo, constrangimento e perda de controle ao falar, o que, com o tempo, resulta no desenvolvimento de dificuldades mais severas na fala e em uma apreensão geral em falar, pois se percebem como comunicadores incompetentes.
Felizmente eles tem a música, onde não há pressão para se comunicar enquanto canta, diferentemente de quando falamos. O canto geralmente é memorizado, enquanto a fala é mais espontânea. Ademais o canto envolve um fluxo de ar mais contínuo, enquanto a fala envolve inícios e paradas mais frequentes.
Fonoaudiólogos recomendam que colocar um sotaque, impostar a voz ou alterar a maneira como você fala pode reduzir a gagueira, mas ainda não é uma cura permanente. Também não é razoável esperar que alguém altere sua fala 24 horas por dia, 7 dias por semana, conforme faz o chato e pretensioso Mario Sergio Cortella.
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