![]() | Está uma escuridão total lá fora. O sol nem sequer despontou no horizonte, mas, de repente: "cocoricó!". Muito antes da invenção do despertador do smartphone, do relógio digital ou da sirene de fábrica, os humanos despertavam com esse som exato: o canto matinal do galo. É um símbolo icônico do amanhecer, reconhecido em quase todas as culturas da Terra. Mas por que eles fazem isso? Será a luz do sol batendo em seus olhos? Eles estão apenas conversando entre si? Ou há algo muito mais complexo acontecendo em seus diminutos cérebros? |

Durante séculos, presumimos que a resposta fosse incrivelmente simples: os galos cantam porque o sol nasce. Historicamente, acreditava-se que os primeiros raios de luz funcionavam como um gatilho visual. A luz atingia os olhos da ave, despertava-a e a levava a anunciar o novo dia.
E, logicamente, isso faz sentido, não é? Luz significa dia, e dia significa que é hora de começar as atividades. Mas tanto cientistas quanto criadores começaram a notar algo um tanto estranho. Muitas vezes, os galos cantavam antes mesmo de haver qualquer luz visível, às vezes, duas horas inteiras antes do amanhecer.
Se tudo dependesse da luz solar, por que eles se antecipavam na escuridão total? Para descobrir a verdade, os cientistas decidiram colocar os galos à prova.
Em 2015, pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, elaboraram um experimento brilhante. Eles pegaram um grupo de galos e os colocaram em uma sala com um ciclo de luz totalmente artificial: 12 horas de luz intensa seguidas por 12 horas de luz fraca.
Como esperado, os galos aprenderam o padrão e cantavam logo antes das luzes se acenderem. Mas então, os cientistas mudaram as regras do jogo. Eles mantiveram os galos sob uma luz fraca, constante e inalterada, durante semanas. Sem nascer do sol, sem pôr do sol, sem qualquer pista visual. E adivinhem?
Os galos continuaram cantando exatamente no mesmo horário todos os dias. O estudo provou, de uma vez por todas, que o canto matinal do galo não é desencadeado pelo ambiente. Tudo isso é regido por um poderoso relógio biológico interno conhecido como ritmo circadiano.
É algo que está gravado no DNA deles. Seus corpos literalmente lhes avisam que o amanhecer se aproxima, mesmo que estejam na mais completa escuridão.
Mas isso levanta outra questão interessante. Se todos os galos possuem esse relógio biológico, será que todos simplesmente acordam e cantam ao mesmo tempo?
A resposta é não. E é aqui que a história fica realmente fascinante. Os galos vivem sob uma hierarquia social rígida. É como uma realeza de verdade. Em qualquer bando, existe um galo alfa. Ele é o rei, o chefe, o topo absoluto da hierarquia do grupo.
Por isso em qualquer bom galinheiro é recomendado ter apenas um, senão vira um caos. Recomenda-se manter apenas um galo por bando para evitar disputas territoriais agressivas e ferimentos graves entre os machos. O coitado do galo nutella acaba mesmo até sendo galado pelo alfa.
Além disso, um único galo consegue cobrir de 15 a 20 galinhas sem causar exaustão às fêmeas, garantindo uma boa taxa de fertilidade nos ovos. Quem tem um galinheiro só para postura não necessita de galos.
Pesquisadores de Nagoya descobriram que o galo alfa canta primeiro. Ele tem o direito exclusivo de anunciar o amanhecer e reivindicar seu território. Os galos subordinados esperam pacientemente que ele termine.
Então, o segundo na hierarquia canta, seguido pelo terceiro, e assim por diante. É um processo muito organizado. E, se o galo alfa for retirado do bando, o segundo no comando assume imediatamente o posto, reivindica o trono e passa a cumprir a tarefa de dar o primeiro alerta da manhã.
Vale ressaltar, porém, que os galos não cantam apenas de manhã. Ao longo do dia, você pode ouvi-los cantando para alertar o bando sobre predadores, como gaviões ou raposas, ou simplesmente para se comunicar com galinheiros vizinhos.
De fato, outra coisa que faz um galo cantar como desesperado é ouvir o galo do vizinho. Em 2018, eu adotei um galinho garnizé chamado Chitãozinho, para que comesse os caramujinhos que comiam minha horta.
O sucesso foi tremendo e, muito bocudo, contei para o vizinho, que também decidiu comprar um outro garnizé. A partir daquele dia foi um inferno matutino, com um galinho desafiando o outro.
Certo dia o Chitãozinho até desmaiou. Quando cantam excessivamente, eles podem sofrer perda temporária de fôlego e desmaiar devido à hipóxia (falta de oxigênio no cérebro). Isso ocorre porque o esforço contínuo na siringe demanda muito oxigênio, especialmente se eles esticam o pescoço e se esforçam demais para marcar território.
A farra não demorou muito, pois outro vizinho fdp denunciou a presença das aves em área residencial, o que é proibido em Joinville. Um fiscal da Saúde Pública confiscou o Chitãozinho e de lambuja ganhei uma multa de 130 reais.
Seja como for, aquele famoso canto rítmico que antecede o amanhecer é um ritual geneticamente programado. Ele serve para afirmar a dominância, garantir o território e preparar o bando antes mesmo de o dia começar.
Portanto, da próxima vez que você ouvir um galo cantando ao raiar do dia, saberá que não se trata apenas de uma ave reagindo ao nascer do sol. É uma maravilha biológica seguindo um antigo relógio interno, mantendo uma hierarquia real rígida e dando continuidade a uma tradição natural que moldou a vida de nossos ancestrais por milhares de anos.
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