![]() | Quando cientistas coletam amostras de solo, corpos d'água ou até mesmo do ar em busca de DNA, eles frequentemente revelam milhares de pequenos mistérios — fragmentos únicos de DNA fúngico que não correspondem a nenhuma espécie conhecida. Esse DNA pertence a organismos enigmáticos, muitas vezes chamados de "fungos escuros", que, assim como a matéria escura e a energia escura, estão ao nosso redor o tempo todo, mas permanecem desconhecidos do escopo do conhecimento científico, devido a sua grande diversidade. |

Estima-se que existam entre 2 e 12 milhões de espécies de fungos ainda não descobertas, com estruturas físicas que nunca foram vistas, seja por serem microscópicas, por viverem ocultas dentro de outras espécies ou por outros motivos desconhecidos.
O diverso reino dos fungos, que abrange desde o fermento de padeiro e cogumelos comestíveis até agentes causadores de infecções nos pés, há muito desafia as classificações convencionais.
Durante séculos, biólogos os classificaram erroneamente como plantas, baseando-se em argumentos que pareciam sólidos: muitos crescem a partir do solo, estendendo-se por redes ramificadas semelhantes a raízes.
No entanto, biologicamente, eles são muito diferentes. Ao contrário das plantas, que obtêm energia do Sol, os fungos se alimentam decompondo matéria ou absorvendo nutrientes de outros organismos.
Em vez de celulose, suas paredes celulares são compostas de quitina, o mesmo material encontrado nos exoesqueletos de insetos como besouros e crustáceos como camarões.
Na verdade, os fungos são mais próximos dos animais do que das plantas, compartilhando um ancestral comum que surgiu há mais de 1 bilhão de anos. Com o tempo, os fungos evoluíram para desempenhar diversos papéis ecológicos, incluindo relações intrincadas com as plantas.
Muitas plantas não conseguem sobreviver sem esses parceiros fúngicos. Os fungos ectomicorrízicos envolvem as raízes das plantas, trocando nutrientes que extraem do solo, como fósforo e nitrogênio, por carbono, que utilizam para seu próprio crescimento.
Outro grupo, conhecido como fungos micorrízicos arbusculares, chega a perfurar as células das raízes das plantas, como se fossem canudos, para facilitar essa troca.
Essa relação permitiu que as plantas colonizassem a terra firme há 470 milhões de anos, numa época em que obter nutrientes de um solo rochoso e estéril era extremamente difícil.
Outros fungos desenvolveram estratégias notáveis para se defender, explorar e manipular seus vizinhos, muitas vezes produzindo um arsenal de compostos como antibióticos, toxinas e até substâncias psicodélicas.
Muitos cogumelos do gênero Psilocybe (mágicos) produzem psilocibina, uma molécula que se liga aos receptores de serotonina no corpo e no cérebro dos animais. Isso provoca efeitos alucinógenos em humanos, embora a psilocibina provavelmente tenha evoluído para afastar lesmas ou caracóis famintos.
Os dedos-do-diabo (Clathrus archeri), um aglomerado de cogumelos vermelhos semelhantes a tentáculos, expele uma substância viscosa e pegajosa repleta de esporos, chamada gleba.
Ela exala um odor de carne em decomposição, atraindo moscas das redondezas que se alimentam dela e transportam os esporos em seus corpos. Outros fungos adotam uma abordagem mais extrema.
Muitas espécies de Cordyceps infectam formigas, sequestrando quimicamente seus sistemas nervosos com toxinas e conectando-se diretamente às fibras musculares para controlar seus movimentos como se fossem marionetes. As formigas infectadas tornam-se zumbis, compelidas a subir em locais elevados e liberar milhões de esporos fúngicos.
Há ainda outros fungos mais independentes, que levam uma vida solitária em ambientes extremos, como as paredes de áreas devastadas por radiação nuclear. Pesquisadores observaram pelo menos 37 espécies de fungos vivendo entre as ruínas de Chernobyl, local de um dos piores desastres nucleares do mundo.
Muitos são ricos em melanina, um pigmento capaz de absorver radiação nociva para proteger as células e o DNA do fungo. Mas alguns não apenas suportam a radiação, eles se alimentam dela.
Estudos realizados na Estação Espacial Internacional revelaram que espécies como Cryptococcus neoformans conseguem converter a radiação gama absorvida em energia útil, estabelecendo uma estratégia metabólica até então desconhecida e redefinindo os limites da vida.
As consequências globais dessa variedade de funções fúngicas ainda estão sendo reveladas. Na tundra ártica, por exemplo, os fungos formam uma vasta rede subterrânea, ajudando as plantas a sobreviver aos invernos rigorosos enquanto armazenam carbono da atmosfera.
Cientistas suspeitam que esses solos possam ser particularmente ricos em fungos raros e escuros. E essas redes fúngicas, juntamente com as plantas que sustentam, podem sequestrar cerca de 1 trilhão de toneladas métricas de carbono: 10 vezes mais do que toda a Floresta Amazônica, potencialmente mantendo a Terra resiliente às mudanças climáticas.
O mundo dos fungos que vemos é vasto e selvagem. Quem sabe que outras maravilhas podem estar crescendo bem além do nosso campo de visão.
Antes de ganharem seu próprio reino, os fungos eram classificados como plantas primitivas ou inferiores. A ciência os conhece pouco por serem, em sua maioria, microscópicos, por viverem escondidos no subsolo e pela imensa biodiversidade oculta, o que torna o processo de descoberta e catalogação extremamente complexo e demorado.
Durante muito tempo, devido à sua aparência fixa no solo e à capacidade de formar estruturas que lembram raízes e caules, os fungos foram agrupados no Reino Vegetal.
O botânico Carl Linnaeus chegou a considerá-los vegetais. Apenas em 1969 os fungos foram oficialmente separados no seu próprio reino independente (Reino Fungi).
Como dizíamos, essa mudança ocorreu porque os biólogos perceberam que eles são geneticamente mais próximos dos animais: possuem quitina (a mesma substância da carapaça de insetos) na parede celular e não produzem o próprio alimento (não fazem fotossíntese).
Apesar de serem vitais para o planeta, a micologia, ciência que estuda os fungos, esbarra em barreiras geográficas e tecnológicas. A parte visível de um fungo (como um cogumelo) é apenas o corpo de frutificação. O organismo real fica escondido debaixo da terra ou dentro de troncos em redes de filamentos (hifas).
Organismos como bolores e leveduras exigem tecnologia complexa para serem encontrados, isolados e sequenciados. Por isso é tão complicado combater a micose.
Apenas cerca de 5% a 10% de todas as espécies de fungos do planeta são formalmente conhecidas e catalogadas. Acredita-se que existam entre 2 e 112 milhões de espécies, sendo que mais de mil novas são descobertas a cada ano.
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