![]() | Parece algo que poderia ser oferecido a Alice pouco antes dela embarcar em sua jornada para o País das Maravilhas, mas este cogumelo-azul-celeste não é fruto da imaginação de Lewis Carroll. Ele pode ser encontrado em ambas as ilhas da Nova Zelândia e, curiosamente, em alguns lugares do Brasil e da Índia. Quando criança eu vivia no "mato", onde vi estes cogumelos muitas vezes na Serra da Mantiqueira, em Passa Quatro. Por isso achei estranho como um "pedaço da Nova Zelândia" pareceu brotar sob as araucárias da minha cidadezinha em Minas. |

O cogumelo-azul-celeste não tem um nome comum além de, bem, cogumelo-azul-celeste, mas se você tiver um momento para um verdadeiro trava-línguas, seu nome científico é Entoloma hochstetteri. Ele obtém sua cor azul muito característica de pigmentos presentes no corpo do fruto, conhecidos como azuleno.
O azuleno é um hidrocarboneto orgânico encontrado na natureza como um constituinte não apenas de pigmentos em cogumelos, mas também de alguns invertebrados marinhos.

Por que é tão especial? Pese que seja uma cor muito proeminente na terra, quando se trata da natureza, o azul é raríssimo. Menos de uma em cada dez plantas tem flores azuis e algumas ainda precisam realizar alguns truques com suas paletas para acidificar antocianinas, geralmente vermelhas, para que assumam a cor azul.

O cogumelo apareceu brevemente, juntamente com outros cinco fungos nativos, em uma série de selos emitidos pelo governo da Nova Zelândia em 2002, e também pode ser visto no verso da nota de 50 dólares do país, lançada em 1990. Fora da Nova Zelândia, no entanto, as pessoas parecem completamente alheias à existência desse incrível cogumelo azul.

O corpo de frutificação (ou basidiocarpo) do cogumelo geralmente é encontrado entre musgos, samambaias ou folhas caídas, e o chapéu pode atingir até cinco centímetros de diâmetro. Com seu formato cônico, ele realmente parece saído de um conto de fadas ou história infantil, e o exuberante cenário verde das florestas da Nova Zelândia ou de Passa Quatro só aumenta a expectativa (ainda que um pouco infantil, mas enfim) de que uma fada começará a pular ao redor dele a qualquer momento.

Sendo autóctone da Nova Zelândia é difícil explicar como este cogumelo pode ser encontrado no Brasil, inclusive maiores e mais azulados, possivelmente devido à divergência genética, fenótipos isolados e ao complexo de espécies crípticas, ou seja espécies que parecem idênticas visualmente, mas diferem geneticamente.

O Brasil abriga uma enorme diversidade fúngica endêmica. Pesquisadores estimam que o país possa ter uma das maiores diversidades fúngicas do planeta. O Brasil tem pouco mais de 5.700 espécies de fungos registradas oficialmente. No entanto, considerando estimativas mais amplas que incluem microfungos e liquens, esse número ultrapassa 27.500 táxons conhecidos.

Uma breve pesquisa me levou ao conhecimento que o gênero Entoloma possui quase 2.000 espécies. No Brasil, existem espécies azuis nativas, como o Entoloma cyaneum ou outras ainda não catalogadas, que são visualmente idênticas ao hochstetteri para quem olha de longe.
Ele não é considerado comestível. Embora a toxicidade exata do cogumelo azul-celeste seja oficialmente inconclusiva, a maioria dos cogumelos do gênero Entoloma é considerada tóxica ou não comestível. Então é provável que este belo cogumelo azul não seja muito bom em uma omelete.
Quando criança eu já sabia a regra de ouro ensinada pela minha avó mateira: nunca consuma cogumelos encontrados na natureza se você não sabe com o que está lidando, pois muitos tipos venenosos se parecem com espécies inofensivas. Vejam o exemplo do amanita que continua matando incautos até hoje.
Como última curiosidade, lembro que muitos fungos do gênero Entoloma exalam odores adocicados, florais ou que lembram frutas e especiarias devido a compostos voláteis. No entanto, aroma agradável não significa comestibilidade.
O azuleno é amplamente utilizado em cosméticos (cremes, loções pós-barba, calmantes de pele) por suas propriedades anti-inflamatórias e suavizantes, mas na indústria cosmética, o azuleno comercializado quase nunca é extraído de cogumelos raros, mas sim obtido através da destilação a vapor da camomila-alemã (Matricaria recutita) ou sintetizado em laboratório. O cogumelo serve mais como uma joia da bioinspiração do que como matéria-prima de larga escala.
Em suma, este post acabou sendo um gancho perfeito para discutir o conceito de complexos de espécies, quando cogumelos do mundo todo parecem iguais, mas revelam identidades diferentes no DNA, e a urgência de mapear os mistérios da nossa própria Mata Atlântica.
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