![]() | Evidentemente você sabe que cavalos domésticos usam ferradura. É um daqueles fatos estabelecidos que a gente sequer questiona e responde: - "Porque sim, ué!" Mas você já pensou que na natureza, os cavalos selvagens percorrem milhares de quilômetros por planícies, desertos e montanhas rochosas totalmente descalços? Eles não têm ferreiros. Eles não têm ferraduras de ferro e, ainda assim, prosperam. Mas, no momento em que um cavalo é domesticado, uma das primeiras coisas que fazemos é pregar um pedaço de metal em seu casco. Por quê? |

É para tração, proteção, ou será que os humanos criaram acidentalmente um problema que só o metal poderia resolver? Para entender a ferradura, primeiro precisamos entender o casco.
O casco de um cavalo pode parecer um bloco sólido de madeira ou osso, mas, na verdade, é feito de uma proteína chamada queratina. Esse é exatamente o mesmo material que compõe o seu cabelo e as suas unhas. E, assim como as suas unhas, o casco de um cavalo nunca para de crescer.
Na natureza, um cavalo pode percorrer até 32 quilômetros por dia em busca de alimento. Esse movimento constante sobre o solo funciona como uma lixa de unha gigante. O casco se desgasta na mesma velocidade em que cresce. É um equilíbrio biológico perfeito e auto-sustentável. A natureza projetou um casco resistente e calejado, perfeitamente nivelado para o peso corporal específico do cavalo.
Então, se a natureza projetou o casco perfeito, onde as coisas deram errado? A resposta curta: nós! A domesticação alterou completamente o equilíbrio anatômico do casco do cavalo. Primeiro, adicionamos peso. Um cavalo selvagem carrega apenas o próprio peso, mas os cavalos domesticados passaram a carregar cavaleiros com armaduras e selas pesadas de couro, além de puxar arados de madeira maciços.
Esse peso extra pressiona o casco com mais força contra o solo, fazendo com que ele se desgastasse muito mais rápido do que consegue crescer. Em segundo lugar, mudamos o ambiente deles. Em vez de vagar por campos secos, os cavalos domésticos são mantidos em estábulos úmidos, o que amolece quimicamente a queratina.
Depois, fizemos com que caminhassem sobre superfícies duras e artificiais, como ruas de paralelepípedos, cascalho e, eventualmente, concreto. Nessas condições adversas impostas pelos humanos, o casco do cavalo se desgasta rapidamente, expondo os tecidos internos sensíveis.
Sem proteção, o cavalo fica manco. E, no mundo antigo, um cavalo manco significava que você não conseguia viajar, cultivar a terra ou sobreviver. Os humanos perceberam logo cedo que precisavam proteger seu meio de transporte mais valioso.
Os antigos romanos inventaram uma das primeiras soluções: a "hipossandália", uma peça de couro e ferro presa ao casco, quase como um tênis de corrida antigo. Mas, na Idade Média, surgiu a necessidade de uma solução mais permanente. Eis que surge a ferradura pregada.
Pode parecer doloroso, mas lembre-se: a parede externa do casco do cavalo não possui terminações nervosas. Assim como a ponta branca da sua unha, o casco permite que um ferreiro habilidoso pregue a ferradura diretamente nele sem causar ao animal sequer uma gota de dor.
Essa peça simples e curva de ferro mudou a história mundial. Ela permitiu que os cavalos puxassem cargas mais pesadas, sobrevivessem aos invernos europeus frios e úmidos e caminhassem com segurança por terrenos rochosos em vastos impérios.
Então, por que os cavalos precisam de ferraduras? A verdade é que os cavalos selvagens, por si sós, não precisam delas. Nossos cavalos é que precisam.
A ferradura não é apenas um equipamento agrícola; é uma solução antiga e genial para um problema que os humanos criaram ao tirar o cavalo da natureza selvagem e trazê-lo para a nossa civilização.
Falando de cavalos selvagens, o Brasil tem dois planteis desses belos animais: os pantaneiros, do Pantanal de Mato Grosso, e os lavradeiros, das savanas de Roraima.
Na verdade, para corresponder a acepção correta da palavra eles não são selvagens, senão que assilvestrados e você já vai entender o motivo.
Os pantaneiros são exemplares domesticados que se aclimataram de forma livre ou selvagem na região alagada há mais de dois séculos.
Eles descendem de equinos ibéricos trazidos pelos colonizadores portugueses no século XVII (ciclo do ouro), que se adaptaram ao bioma, desenvolvendo cascos resistentes à umidade e habilidade para nadar em áreas alagadas, alimentando-se de vegetação submersa.
Embora muitos pertençam hoje a fazendas locais e alguns são inclusive casqueados quando enfrentam problemas, eles vivem em regime de liberdade nas planícies pantaneiras de municípios como Poconé e Cáceres.
Os bandos não são muito ariscos e não se assustam com a presença de humanos porque no plantel quase sempre há um animal doméstico convivendo com eles.
O caso do lavradeiro é mais complicado. Localizados nas savanas de Roraima, contam com cerca de apenas 200 exemplares puros restantes. Eles descendem de animais trazidos por colonizadores no século XVIII (ciclo da borracha) e correm sério risco de extinção.
Eles descendem de cavalos ibéricos (portugueses e espanhóis) que escaparam ou foram soltos no durante o período colonial.
Viveram isolados por mais de 200 anos nas extensas planícies do ecossistema de savanas conhecido como Lavrado, e tornaram-se um dos maiores símbolos culturais e de identidade do estado de Roraima.
Ao contrário dos pantaneiros, são cavalos de porte pequeno: medem em torno de 1,40 metro de altura até a cernelha.
Resistência extrema: adaptados para suportar secas longas, solos lamacentos e pastagens pobres em nutrientes, os lavradeiros desenvolveram grande tolerância a parasitas e a doenças comuns que afetam cavalos domésticos.
Os bandos são ariscos liderados por um garanhão forte e fogem rapidamente ao menor sinal de aproximação humana. Eles sofrem com a expansão do agronegócio, desmatamento, queimadas e a captura por fazendeiros para domesticação ou cruzamento com espécies domésticas.
Órgãos como a Embrapa realizam o acompanhamento de pequenos grupos para tentar garantir a preservação genética tanto dos pantaneiros quanto dos lavradeiros.
De fato, atualmente, existe apenas uma única população de equinos que nunca foi domesticada pelo ser humano: o Cavalo de Przewalski. Todos os demais cavalos livres no mundo, como mustangues, pantaneiros, lavradeiros e sorraias, são animais assilvestrados, ou seja, descendem de ancestrais que já foram domesticados.
O cavalo de Przewalski (Equus ferus przewalskii): conhecido na Mongólia como takhi, é nativo das estepes da Ásia Central. Assemelha-se mais a um burro do que um cavalo. Possui pelagem marrom-amarelada, crina curta e ereta e 66 cromossomos (enquanto os cavalos domésticos têm 64).
Embora tenha chegado a ser extinto na natureza no século XX, sobreviveu em cativeiro e hoje participa de bem-sucedidos projetos de reintrodução em seu habitat natural.
Os cavalos reintroduzidos reproduziram-se com sucesso, e o status do animal foi alterado de "extinto na natureza" para "ameaçado" em 2008.
Curiosamente, em dado momento de 2018, um teste de DNA negou que o Przewalski era o único equino verdadeiramente selvagem, senão que era assilvestrado como todos os outros. No entanto, um estudo estendido, publicado em 2024 na revista SciAm, lhe devolveu o status de "selvagem" ao apontar que o teste de DNA anterior foi realizado em um descendente do cavalo botai, uma espécie antiga do Cazaquistão, relacionados com os takhis.
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