![]() | Durante quase seis décadas, uma vasta mina a céu aberto devastou a paisagem de As Pontes, em A Coruña, para abastecer uma das maiores centrais termoelétricas a carvão da Espanha. Quando a extração de carvão cessou, a enorme cratera que deixou para trás parecia destinada a se tornar uma estranha cicatriz. A solução foi exatamente o oposto do que se poderia imaginar: enchê-la com centenas de bilhões de litros de água até que se transformasse em um lago. Isto ocorreu entre 2008 e 2012. Hoje ele é o maior lago artificial do país. |

Um enorme buraco escavado ao longo de 60 anos. A história começou na década de 1940, quando a extração de linhita teve início em As Pontes. Ao longo dos anos, a mina tornou-se a maior mina de carvão a céu aberto da Espanha e abastecia a usina termelétrica da Endesa, que, em seu auge, produzia cerca de 5% de toda a eletricidade consumida no país.
Após a extração de cerca de 260 milhões de toneladas de carvão, o terreno ficou transformado em um enorme buraco com mais de 300 metros de profundidade.
Quando a mina fechou em 2007, o desafio não era mais continuar extraindo carvão, mas decidir o que fazer com aquele vazio. Em 2008, teve início um projeto de restauração ambiental tão ambicioso quanto inusitado: inundar toda a antiga mina de forma controlada.
Assim, durante pouco mais de quatro anos, foram introduzidos cerca de 547 bilhões de litros de água provenientes da chuva e do rio Eume, até que em abril de 2012 a antiga cratera se tornou um dos maiores lagos artificiais da Espanha.
Muito mais complicado do que simplesmente abrir uma torneira. Encher um buraco de tais dimensões era apenas uma pequena parte do trabalho. Os engenheiros tiveram que controlar a taxa de enchimento, estudar a estabilidade das encostas e monitorar constantemente a evolução química da água.
Estudos subsequentes mostraram que o lago desenvolveu duas camadas distintas, separadas por uma barreira invisível: uma camada superior rica em oxigênio e uma camada muito mais profunda, mais ácida e praticamente sem oxigênio, resultante da complexa mistura de águas e minerais.
De paisagem industrial a refúgio natural. O que durante décadas foi uma paisagem dominada por escavadeiras e montanhas de resíduos começou a se transformar gradualmente em um ecossistema completamente diferente.
Centenas de milhares de árvores foram plantadas, mais de mil hectares foram restaurados e a natureza fez o resto. Hoje, a área abriga centenas de espécies de plantas e animais, enquanto aves, peixes e mamíferos colonizaram um espaço que, há poucas décadas, era uma vasta operação de mineração.
A mudança é ainda mais impressionante à medida que nos aproximamos da margem. O lago abrange aproximadamente 865 hectares, estende-se por mais de cinco quilômetros e possui uma praia artificial de areia que ostenta com orgulho a Bandeira Azul desde 2021, prêmio pela qualidade de suas águas e serviços.
Onde antes trabalhavam gigantescas máquinas de mineração, agora há famílias nadando, pessoas praticando caiaque ou stand-up paddle, e excursionistas explorando um perímetro de 18 quilômetros.
Um exemplo para as minas do futuro. A transformação de As Pontes fez desta antiga mina galega um dos exemplos mais citados de recuperação de minas na Europa.
Enquanto outras minas a céu aberto espalhadas pela Alemanha, Polônia, Austrália ou Estados Unidos continuam a lidar com problemas de poluição ou lagos ácidos, o caso espanhol demonstra que, com planejamento, tempo e um enorme esforço de engenharia, uma das maiores cicatrizes industriais do país pode acabar se tornando um destino turístico e um novo espaço natural.
O maior lago artificial do Brasil, na verdade da América Latina, faz o lado de As Pontes parecer uma lagoa. O Reservatório de Sobradinho, localizado no norte da Bahia e formado pelo represamento do Rio São Francisco, foi projetado na década de 1970 para inundar uma vasta extensão de terras planas do semiárido, criando um gigantesco reservatório estratégico para controle de vazão e geração de energia em grande escala.
A região do Médio São Francisco possui relevo muito plano, o que faz com que pequenos ganhos no nível da água expandam horizontalmente a mancha de alagamento por quilômetros.
O lago foi desenhado para funcionar como uma "caixa d'água" gigante do rio, capaz de acumular água nas cheias e garantir a perenidade do São Francisco e a operação de outras hidrelétricas a jusante durante os períodos de seca.
O lago exigiu a realocação de cerca de 70 mil moradores das cidades originais de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso e Sento Sé, que foram inundadas.
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