![]() | Imagine que você está sentado no seu restaurante de frutos do mar favorito. Você olha o cardápio e vê duas opções de dar água na boca: camarão ao alho e manteiga e lagostim no bafo. Se você não for litorâneo existe a real possibilidade de que pense que o lagostim é apenas um camarão-pistola, certo? Se você pensa assim, não está sozinho. Por décadas, restaurantes, supermercados e cozinheiros domésticos usaram essas duas palavras de forma intercambiável, tratando-as como tamanhos diferentes da mesma criatura. Mas aqui está a verdade surpreendente: eles não são a mesma coisa. |

Biologicamente falando, eles não são simplesmente tamanhos diferentes do mesmo animal. Eles pertencem a ramos diferentes da árvore genealógica dos crustáceos.
Qual é exatamente a diferença? Vamos direto para a ciência. Tanto os camarões-comuns quanto os lagostins são decápodes, ou seja, crustáceos equipados com 10 patas, mas suas linhagens evolutivas se separaram há centenas de milhões de anos.
Os camarões pertencem a uma subordem chamada Pleocyemata, enquanto os lagostins pertencem a uma subordem completamente diferente, conhecida como Dendrobranchiata.
Como diferenciá-los a olho nu? Observe atentamente a carapaça deles. O corpo do camarão possui uma estrutura de carapaça sobreposta única: o segundo segmento abdominal sobrepõe-se tanto ao primeiro quanto ao terceiro. Esse design específico confere ao camarão aquela forma característica de corpo bem curvado.
Já o lagostim apresenta segmentos de carapaça que se sobrepõem em uma sequência ordenada, como telhas de um telhado. Isso confere aos lagostins uma aparência visivelmente mais reta do que a dos camarões.
Ambos têm 10, mas o camarão possui pinças em apenas dois pares. O lagostim, por outro lado, tem três pares de pinças, sendo o segundo par geralmente o maior.
As diferenças biológicas vão ainda mais fundo. Se você observasse as brânquias deles ao microscópio, veria que são estruturadas de formas muito diferentes. Os camarões têm brânquias lamelares, que parecem placas planas empilhadas. Os lagostins têm brânquias ramificadas, que lembram pequenas árvores delicadas.
Há também a questão de como eles geram vida nova: os camarões são pais surpreendentemente protetores. A fêmea carrega seus ovos em segurança na parte inferior do corpo até que eles eclodam. Já os lagostins não cuidam da prole: eles liberam os ovos diretamente na água, deixando-os à deriva para se desenvolverem sozinhos.
Então, se são tão diferentes, por que existe tanta confusão? A culpa é da geografia e de um marketing inteligente. No Reino Unido, na Austrália e na Nova Zelândia, a palavra prawns (lagostim) é a preferida culturalmente para quase todas essas criaturas. Nos Estados Unidos, shrimp (camarão) tornou-se o termo padrão.
Devido a essa variação linguística entre diferentes regiões, o mundo da gastronomia acabou adotando uma regra simplificada: tamanho pequeno significa camarão, e tamanho grande significa lagostim.
No Brasil a confusão quase sempre reside em pessoas interioranas que confundem o lagostim com camarão-pistola. Na verdade o nome camarão-pistola é um incorreção, pois ele é um pequeno camarão que vive entocado e recebe tal nome por possui um dos quelópodes muito desenvolvido que, ao se fechar, produz não apenas um som de estalo, mas também uma onda de choque.
Na verdade estes camarões grandes fazem referência principalmente ao camarão-gigante-da-Malásia (Macrobrachium rosenbergii), uma espécie de água doce famosa por suas longas pinças azuis, muito como no Brasil, ou ao camarão-tigre-gigante (Penaeus monodon). Ambos possuem grande importância comercial na alimentação e na criação em cativeiro
Hoje, um cardápio americano ou inglês que anuncia com orgulho um "jumbo prawn" pode, na verdade, estar servindo o camarão-tigre-gigante. E aqueles camarões minúsculos usados em sopas e saladas da cozinha internacional são, na verdade, lagostins pequenos, conhecidos como lagostinos. Que confusão.
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