![]() | Os morangos parecem atemporais, não é? Seja em cima ou dentro de uma torta, mergulhados em chocolate ou comidos direto da caixa, essas frutas vermelhas e suculentas são as favoritas em hortifrutis e supermercados por todo o mundo. Mas os morangos que conhecemos hoje, grandes, doces e perfeitamente vermelhos, não são tão antigos quanto você imagina, segundo dica do amigo Zé Roberto Isabella, via e-mail. Na verdade, a história deles envolve espionagem, viagens transcontinentais e uma reviravolta surpreendente de serendipidade botânica. Por trás do seu sabor doce e familiar, há uma história de biodiversidade e melhoramento genético de plantas. |

É difícil estabelecer a origem dos morangos, pois espécies endêmicas foram encontradas em quase todas as partes do mundo. Estudos de seu genoma revelaram uma história interessante: os morangos europeus são diplóides, ou seja, têm dois conjuntos de cromossomos em suas células, como a maioria das espécies, incluindo os humanos: um do pai e outro do mãe.
Mas morangos americanos são octoplóides, ou seja, têm oito cópias completas do genoma que foram feitas por várias espécies de pais diferentes.
O fato é que, na época em que os humanos surgiram no planeta, já havia morangos silvestres de vários tipos em todo o mundo, inclusive naquela terra ao sul onde os picuches e mapuches os domesticariam e cultivariam séculos antes da chegada dos europeus.
Antes dos campos de morangos modernos se estenderem pelo mundo, existiam ao menos 25 espécies mais antigas consumidas pelo ser humano: os pequenos morangos silvestres.
Então, como evoluímos das minúsculas frutinhas silvestres aos gorduchos morangos de supermercado que comemos hoje em dia?
O morango silvestre é um primo de primeiro grau das amoras e das rosas

A Fragaria vesca, encontrada em grande parte do continente europeu, especialmente nas regiões central e norte, já era valorizada na época romana por seu aroma e propriedades medicinais, e não por seu tamanho ou doçura.
Assim como suas primas, amoras silvestres, do gênero Rufus, os morangos silvestres crescem naturalmente em muitas partes do mundo, exceto na Austrália, e, durante séculos, foram colhidos em vez de cultivados.
Pétalas de rosas também são comestíveis e bem gostosinhas, ainda que tenham retrogosto amargo. Outra prima próxima do morango, a roseira também dá pequenos frutos chamados cinórrodos, que aparecem após a floração, podendo ser usados na culinária ou mesmo na medicina.
Na França do século XIV, os morangos eram cultivados em jardins mais pela sua beleza do que pela produção de frutos. Essas primeiras frutas eram delicadas, muitas vezes inconsistentes em tamanho e sabor, e disponíveis apenas na época certa.
No entanto, essas frutinhas cativaram a atenção das pessoas. Reis, poetas e pintores as admiravam. Até mesmo o rei Henrique VIII da Inglaterra cultivava morangos em seus jardins reais. Mas os morangos que ele apreciava não se pareciam em nada com os morangos vermelhos e rechonchudos que encontramos hoje em dia.
O espião francês que contrabandeou o morango-chileno

Em 916, o rei Carlos 3º da França recebeu um presente que o agradou muito. Julius de Berry, da Antuérpia, o presenteou com uma travessa cheia de morangos silvestres maduros. Como recompensa, o rei deu o nome de "Fraise" (morango, em francês) à família.
Oito séculos depois, outro rei da França, Luís 14, estava preocupado com o fato de seu país não estar indo bem na Guerra da Sucessão Espanhola e temia que um tratado de paz deixasse a corte de Versalhes sem acesso às riquezas das Américas.
Em 1711, ele decidiu enviar um espião ao sul do Novo Mundo para coletar informações. O escolhido acabou por ser um engenheiro do exército francês chamado Amedée François Frézier.
O sobrenome havia mudado um pouco, pois a família se estabelecera na Escócia na Idade Média, como parte da comitiva do embaixador francês, e lá se tornou Frazer. De volta à França, nova mudança: Frézier.
Mas Amedée era um descendente de Julius, aquele que havia presenteado Carlos com os morangos silvestres. E, em uma dessas curiosas coincidências da história, sua viagem à América do Sul mudaria para sempre aquela iguaria de que o monarca tanto gostava.
Durante sua estadia no Chile, Amedée deparou-se com algo inesperado: morangos grandes e pálidos crescendo perto da cidade costeira de Concepción. Eram diferentes de todos os que ele já tinha visto na Europa. Em seus diários, ele os descreveu assim:
- "Eles plantam campos inteiros com uma espécie de junco de morango. O fruto geralmente é do tamanho de uma noz, e às vezes do tamanho de um ovo de galinha, de cor vermelho-esbranquiçada, e um pouco menos saboroso do que os nossos morangos silvestres."
Essa era a Fragaria chiloensis, o morango-chileno, chamado kellén pelo povo mapuche. Seus frutos eram muito maiores e mais resistentes do que as variedades europeias, embora não tão doces. Amedée ficou tão intrigado que, ao retornar à França, levou consigo cinco plantas.
Mas elas não se adaptaram bem ao clima mais frio da Europa, ou assim acharam, porque não rendiam frutos ano após ano. Parecia que essa baga exótica talvez não se adaptasse, afinal.
Amedée era engenheiro, matemático e espião, mas pouco sabia de botânica. Ele desconhecia que a Fragaria chiloensis era dioica, uma planta com flores funcionalmente femininas e outra com flores funcionalmente masculinas, exigindo exemplares de ambos os sexos para a frutificação natural. Na pressa de voltar para a França ele apanhou somente aquelas que tinham frutos, portanto fêmeas.
Foi então que, em 1764, Antoine Nicolas Duchesne descobriu este quebra-cabeça botânico e presenteou o rei Luís 15 com morangos tão grandes e bonitos que o monarca contratou um ilustrador para pintá-los.
Antoine, que tinha 17 anos na época, havia feito as plantas chilenas darem frutos polinizando-as com a espécie europeia Fragaria moschata macho, mas depois descobriu que desgraçadamente as sementes desses morangos rei não eram viáveis. Então veio um golpe de sorte.
A polinização cruzada fortuita de duas espécies americanas

A Fragaria chiloensis não foi a única espécie de morango americano a cruzar o Atlântico e completar essa volta ao mundo que começou há milhões de anos para conhecer seus primos diplóides na Europa.
Não está claro quando, mas a Fragaria virginiana, que cresce nos Estados Unidos e Canadá, também chegou à França, mas, embora se destacasse pela intensidade de sua cor "morango escarlate" e de seu sabor imtenso, também era pequena. Passou, assim, a ser apenas mais uma mera curiosidade, cultivada por jardineiros como planta ornamental
Em algum momento de serendipia, possivelmente com a ajuda do vento ou de insetos, aconteceu a polinização cruzada: o F. virginiana e a F. chiloensis se polinizaram mutuamente. O resultado foi uma nova planta: Fragaria × ananassa, o primeiro morango híbrido, uma planta criada pelo cruzamento de duas espécies diferentes para combinar suas melhores características.
Este novo morango tinha o tamanho e a textura firme da variedade chilena, e a doçura e resistência da variedade da Virgínia. Por volta de 1750, ele se espalhou rapidamente pela Europa. Os jardineiros o adoraram. Os agricultores começaram a cultivá-lo para os mercados. E, com o tempo, os melhoristas de plantas continuaram selecionando características como tamanho, cor vermelha brilhante, doçura e maior durabilidade. Nasceu o morango moderno.
É estranho e irônico pensar que o morango moderno, tão relacionado com a Europa, é o fruto -nunca melhor dito- do cruzamento de um norte-americano com um chileno em solo europeu.
O preço da perfeição

Mas outra coisa também acabou acontecendo. Você já reparou como os morangos de supermercado muitas vezes parecem perfeitos, mas, às vezes, têm gosto de nada com coisa nenhuma?
Isso não é por acaso. Ao longo do último século, o melhoramento genético do morango concentrou-se fortemente na aparência e na durabilidade. Morangos grandes, brilhantes e firmes o suficiente para viajar longas distâncias são mais fáceis de vender, duram mais tempo nas bancadas de frutas e chamam a atenção do consumidor, tornando-os mais atraentes comercialmente.
Mas há um preço a pagar. Muitas variedades modernas perderam parte do sabor, aroma e riqueza nutricional de seus ancestrais selvagens nesse processo.
Hoje em dia, a maioria dos morangos comerciais provém de apenas algumas variedades. Esse tipo de uniformidade genética (chamada monocultura) significa que todas as plantas são quase idênticas.
Embora isso torne a agricultura mais previsível, porque as plantas crescem e amadurecem na mesma velocidade e respondem de forma semelhante aos fertilizantes e à irrigação, também torna as plantações mais vulneráveis: se uma praga ou doença atacar uma planta, pode facilmente se espalhar e destruir as demais, pois todas compartilham as mesmas fraquezas.
Nem tudo é perfeito

E isso não é tudo. Os morangos são uma cultura delicada, frequentemente cultivada em túneis cobertos de plástico para colheita fora de época, exigindo grandes quantidades de água, fertilizantes e pesticidas. O impacto ambiental do cultivo de morangos está aumentando, especialmente fora de suas épocas naturais.
O que tem no seu morango? Os morangos costumam estar no topo da lista de frutas com maior quantidade de resíduos de pesticidas.
Existe uma lista chamada "dúzia suja" que destaca as frutas e os vegetais que tendem a apresentar os níveis mais altos de resíduos de pesticidas quando cultivados convencionalmente, de acordo com testes do Environmental Working Group (EWG)).
Como os morangos crescem perto do solo e não têm uma casca protetora, eles ficam especialmente expostos. Lavar ajuda, mas nem todos os métodos funcionam igualmente bem.
De acordo com especialistas, enxaguar os morangos em água corrente fria é a melhor opção. Deixá-los de molho em água com bicarbonato de sódio também pode ajudar a remover os pesticidas da superfície, embora nenhum método remova tudo.
Esse é um dos motivos pelos quais algumas pessoas optam por morangos orgânicos, principalmente quando compram fora de época.
O capcioso meme da semente do morango

Há um meme muito estendido que diz: "Morangos ligaram o foda-se. Sementes do lado de fora!" É engraçado, mas trata-se de uma
Em média, morangos de tamanho médio têm 200 aquênios. Ou seja, quando comemos um "morango", estamos consumindo centenas de frutas, não apenas uma. Então, se os aquênios são a fruta, o que é o resto do morango? Acontece que um morango é ainda mais confuso: na verdade, não é uma baga, e sua massa carnuda não é uma fruta, mas um receptáculo inchado.
Em uma flor, o receptáculo basicamente mantém todas as partes juntas. O que acontece em um morango é que o receptáculo se torna grande, carnudo e delicioso. O receptáculo cresce, enquanto as frutas permanecem do mesmo tamanho.
Se você coletar as grainhas, uma a uma com uma pinça (ou cortar tiras finas da pele), estratificá-las e plantá-las... voilá: pé de morango. Foi isso que provavelmente levou a confusão do aquênio com semente.
O sabor artificial que todos gostamos

Antes de concluir este artigo, devemos deixar uma nota de louvor sobre o "gênio" que inventou o sabor artificial de morango, porque simplesmente não tem minimamente o sabor de morango, mas ninguém liga porque tem gosto melhor do que da fruta.
Na verdade, não foi apenas um flavorista ou químico que criou o sabor artificial. Desde os anos 1800, os químicos já tentavam emular o sabor do morango com pouco sucesso.
Temos que viajar até 1905, quando o químico alemão Rainer Ludwig Claisen sintetizou pela primeira vez o etilmetilfenilglicidato de etila, comumente conhecido como aldeído de morango, utilizado para aromatizar perfumes, sabonetes, produtos de beleza, detergentes, produtos farmacêuticos, produtos de panificação, doces, sorvetes de... morango, claro. Prepare um sorvete com a massa do receptáculo de morangos e ele muito provavelmente vai ter o lixo como destino.
A história do morango

A história do morango nos lembra que a comida não é apenas combustível. É história, ciência, cultura e natureza, tudo junto e misturado. Compreender como até mesmo frutas comuns são cultivadas, plantadas e selecionadas nos abre os olhos para a complexidade por trás das nossas refeições, e para as escolhas que podemos fazer para moldar o futuro delas.
É também uma história sobre os desafios da agricultura moderna: como equilibrar a produtividade com o sabor, a vida útil com a biodiversidade e o lucro com o planeta.
Ademais, é mais um exemplo da apropriação colonial eurocentrista, desta vez botânica, que chamou de "seu" o filho bastardo de dois americanos em terras distantes.
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