
No exterior ela é conhecida como guava (goiaba) com vários nomes comuns: goiaba-morango, goiaba-cereja, goiaba-serrana, entre vários nomes. Mas que diabo de goiaba é essa, endêmica do Brasil, que nenhum brasileiro conhece?
Talvez que por aqui ela tem vários outros nomes provenientes do tupi arasá (planta com olhos) que derivaram araçá-de-coroa, araçá-da-praia, araçá-do-campo, araçá-do-mato, araçapiranga ou simplesmente araça-branca (Psidium guajava L.) quando todas pertencem a família das mirtáceas distribuídas em mais de 100 espécies de araçás (Psidium).
Embora alguns acreditem que a chegada da goiaba-comum ao Havaí possa ser rastreada até meados do século XVI, os especialistas geralmente situam a chegada do araçá-rosa ao arquipélago do Pacífico central em uma data muito posterior e mais específica: 1825.
Diz-se que a espécie se espalhou pelo Havaí com a aprovação das autoridades, que a viam como uma aliada no abastecimento da população com seus frutos avermelhados, carnudos e saborosos. Verdade ou não, uma coisa é certa: as árvores frutíferas se adaptaram surpreendentemente bem às ilhas, colonizando milhares de hectares e se tornando parte integrante da paisagem havaiana.
Será que se adaptou tão bem? Sim. Embora a goiaba-morango seja nativa do sul/sudeste do Brasil e de suas florestas atlânticas, ela se adaptou perfeitamente ao ecossistema havaiano.
- "Sua capacidade de invadir florestas tropicais em ilhas oceânicas é especialmente notável", reconhecem Julie S. Denslow, da Universidade de Tulane, e seus colegas em um artigo que analisa a invasão do araçá-rosa no arquipélago. De fato, a espécie não só chegou ao Havaí, como também se estabeleceu em Madagascar, Maurício, Seychelles e Ogasawara, entre outras ilhas.
Uma invasora voraz e de movimento rápido. O problema não é apenas que a goiabeira se espalhou por todo o Havaí, mas que o fez com uma força surpreendente, alterando o ecossistema em seu rastro. No núcleo do arquipélago, ela se adaptou tão bem ao clima que especialistas lembram que foi considerada "a segunda espécie mais abundante" nas ilhas em 2021, onde exemplares de Psidium cattleianum podiam ser encontrados desde o nível do mar até áreas a 1.500 metros acima do nível do mar, bem como em zonas com padrões de precipitação muito diferentes.

Sua disseminação é tão rápida e seu impacto tão significativo que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a considera uma das 100 espécies exóticas mais daninhas do mundo.
E é compreensível. Os araçazeiros formam florestas densas que impedem o crescimento de outras plantas, facilitam a erosão do solo e dificultam a recarga dos aquíferos. Tudo isso se traduz em degradação do ecossistema e danos ao habitat da fauna nativa.
A porcentagem: 27%. Há algum tempo, a Universidade do Havaí decidiu investigar como a árvore Psidium cattleianum afeta as bacias hidrográficas do arquipélago e descobriu um fato preocupante: florestas infestadas por essas árvores perdem 27% mais água do que florestas nativas de 'Ōhi'a lehua (Metrosideros polymorpha), a árvore nativa havaiana mais comum.
Como se isso não bastasse, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) alerta que, quando cai, sua polpa se torna um criadouro para a mosca-da-fruta-oriental (Bactrocera dorsalis), uma praga que ataca mais de quatrocentos tipos de frutas e vegetais.
O objetivo: mantê-la sob controle Com essa informação, fica mais fácil entender por que as autoridades havaianas passaram anos (muitos anos) buscando maneiras de controlar o araçá-rosa.
Em 2011, o USDA informou que cientistas do Serviço Florestal dos EUA vinham pesquisando e buscando possíveis soluções há 15 anos. Não é uma tarefa fácil, pois a goiabeira se espalha rapidamente graças aos animais que comem seus frutos, sobretudo suínos selvagens, e cortá-la também não ajuda muito. É bem provável que ela volte a crescer com ainda mais vigor.
Qual é a solução, então? Várias foram propostas, como promover o consumo de cateto, um animal que desempenha um papel fundamental na disseminação da planta ao dispersar as sementes. A proposta mais forte, no entanto, concentra-se em outro fator: o Tectococcus ovatus, uma cochonilha nativa do Brasil que controla naturalmente o araçá. Ele não erradica as árvores, mas ajuda a conter sua disseminação com menos frutos sem prejudicar outras plantas, insetos ou animais.

A cochonilha interrompe a produtividade da planta, sem matá-la.
Em sua batalha contra o araçá, as autoridades havaianas não recorreram apenas ao inseto cochonilha . Há um ano, pesquisadores descobriram uma maneira peculiar de facilitar a disseminação do inseto: disseminá-lo com a ajuda de drones.
Os cientistas descobriram que o uso de pequenos veículos controlados remotamente permitiu um avanço muito mais rápido, embora a taxa de sucesso tenha sido um pouco menor do que com o uso de varas: em vez dos 97,6% de sucesso do método tradicional mais lento, eles alcançaram 86,6%. O inseto não mata a planta, mas produz galhas em suas folhas e funciona como um sistema de controle natural.
No Brasil o araçá-rosa carrega um paradoxo biológico fascinante: por que uma planta que é considerada uma praga invasora agressiva em locais como o Havaí e Madagascar enfrenta tantos problemas para prosperar e amadurecer com qualidade em seu próprio estado de origem, São Paulo?
O araçá-rosa consta na lista de espécies ameaçadas do estado de São Paulo, mas isso não ocorre por causa de um inseto ou doença específica que a esteja dizimando. O "controle" drástico que sofreu foi causado pela ação humana devido a perda extrema de habitat na Mata Atlântica, principalmente áreas de restinga e florestas de planície.
Diferente do Havaí, onde a planta não tem inimigos naturais e cresce descontroladamente sufocando outras árvores, no Brasil ela faz parte de uma teia ecológica complexa. Ela compete por luz e nutrientes com centenas de outras espécies de árvores e é controlada por fungos, insetos e microrganismos nativos com os quais evoluiu junto.
Em alguns lugares ela ainda é mato. Aqui em Santa Catarina, não é incomum ver famílias, com destino à praia no verão, trepadas em araçazeiros nas margens da BR-101.
No entanto definitivamente os frutos não são tão gostosos como os havaianos porque ele sofre exatamente com a mesma praga devastadora da goiaba: as moscas-das-frutas, principalmente as do gênero Anastrepha e a Ceratitis capitata.
As moscas adultas picam a casca do araçá ainda verde e depositam seus ovos lá dentro. Quando os ovos eclodem, nascem as larvas: o famoso "bicho-de-goiaba". À medida que as larvas se alimentam da polpa por dentro, elas aceleram o apodrecimento do fruto ou destroem seus tecidos internos.
Isso interrompe o fluxo normal de nutrientes, fazendo com que o araçá caia do pé antes do tempo, sem completar a maturação correta ou amadureça de forma totalmente danificada (cheia de mbigos, com consistência alterada, aspecto feio e gosto desagradável.
Na natureza, sem intervenção, a imensa maioria dos araçás selvagens são consumidos verdes, antes de acabar infestada pelas moscas nativas, pois não há controle químico ou biológico direcionado a árvores isoladas na mata.
Exatamente por esse motivo você dificilmente encontrará araçazeiros aqui no Brasil fartamente carregados com frutos perfeitos com cores carmim e roxas como as mostradas no vídeo acima.
Sem a presença de pragas, estes frutos são extremamente doces e deliciosos, mas não tem gosto de morango, senão que o consabido gosto de goiaba, com sementes mais macias.
Para comer um araçá doce, suculento e limpo, geralmente é necessário o cultivo doméstico ou comercial controlado, onde os produtores utilizam armadilhas de monitoramento para moscas-das-frutas ou fazem o ensacamento manual dos frutos logo após a queda das flores, impedindo fisicamente que a mosca consiga picar a casca.
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