
No entanto, como dizíamos, Okunoshima nem sempre foi o paraíso que é agora. Durante 16 anos foi ignorada nos mapas porque ali estavam localizadas fábricas de gases venenosos, que depois eram empregados na guerra contra a China.
Em 1925, o Instituto de Ciência e Tecnologia do Exército Imperial Japonês iniciou um programa secreto para desenvolver armas químicas, baseado em extensa pesquisa que mostrou que armas químicas estavam sendo produzidas nos Estados Unidos e na Europa.
Uma fábrica de munições químicas foi construída na ilha de 1927 a 1929 e abrigou uma instalação de armas químicas que produzia mais de seis quilotons de gás mostarda e gás lacrimogêneo.
O Japão foi signatário do Protocolo de Genebra de 1925, que proibia o uso de armas químicas, mas não o desenvolvimento e armazenamento. Mesmo assim, o Japão fez de tudo para manter a fábrica de munições químicas em segredo, chegando ao ponto de remover registros da ilha dos mapas.

A ilha foi escolhida por seu isolamento, segurança e distância de Tóquio e outras áreas em caso de desastre. Sob a jurisdição dos militares japoneses, a processadora local de conservas de peixe foi convertida em um reator de gás tóxico.
Os moradores e potenciais funcionários não foram informados sobre o que a fábrica produzia, e tudo foi mantido em segredo. As condições de trabalho eram duras e muitos sofreram de doenças relacionadas à exposição a substâncias tóxicas devido à falta de equipamentos de segurança adequados.
Aproximadamente 200 coelhos foram usados MCL-1MCL-1em experimentos destinados a testar a eficácia de um gás que foi usado na Segunda Guerra Sino-Japonesa e para armar bombas de balão que tinham como alvo os Estados Unidos.
Quando a fábrica foi demolida, esses coelhos provavelmente foram sacrificados. Embora os cientistas não tenham descartado uma ligação genética entre os coelhos de laboratório e a população atual de coelhos, a probabilidade de estarem relacionados é muito baixa.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os documentos relativos à fábrica foram queimados e as Forças de Ocupação Aliadas se desfizeram do gás, seja despejando-o, queimando-o ou enterrando-o.
A população foi instruída a manter silêncio sobre o projeto, e várias décadas se passaram até que as vítimas da fábrica recebessem ajuda governamental para tratamento. A fabricação de armas químicas na ilha só se tornou pública na década de 1980.
No início a década de 1970, uma escola primária local soltou um pequeno número de coelhos em Ōkunoshima, na esperança de revitalizar a ilha. Devido à falta de predadores na ilha, os coelhos foram habituados.
Em 1988, foi inaugurado o Museu do Gás Venenoso de Ōkunoshima. Embora ruínas dos antigos fortes e da fábrica de gás ainda existam por toda a ilha, a entrada é proibida por ser considerada muito perigosa.
Como não existem predadores na ilha os coelhos se reproduziram rapidamente e sem problemas, até atingir a cifra atual de quase 500, em 2025, e atraía cerca de 200.000 turistas anualmente. Pouco a pouco foram se acostumando à presença humana, e hoje se aproximam sem nenhum medo a procurar alimento. Hoje, a caça aos coelhos é proibida, e cães e gatos não são permitidos na ilha.
Na ilha há um hotel, o Kyukamura Okunoshima Hotel, que ademais vende alimentos para os coelhos. Negócio redondo. Também há um museu sobre seu obscuro passado, dedicado aos gases venenosos.
O Museu do Gás Venenoso foi inaugurado em 1988 e foi criado para alertar o maior número possível de pessoas sobre as terríveis verdades a respeito do gás venenoso.
- "Minha esperança é que as pessoas vejam o museu na cidade de Hiroshima e também este, para que aprendam que nós [japoneses] fomos tanto vítimas quanto agressores na guerra", expressou seu curador, Murakami Hatsuichi, ao New York Times. - "Espero que as pessoas percebam ambas as facetas e reconheçam a importância da paz."
Não obstante ainda espreitam perigos. Em 2005 as autoridades detectaram na água da ilha uma concentração de arsênico 49 vezes maior que o normal. Por isso há até onze lugares fechados ao acesso público, incluindo aqueles nos que creem que ainda existe gás enterrado.
Um artigo publicado em julho de 2026 por uma equipe de pesquisa da Universidade de Fukushima e do Colégio Nacional de Tecnologia de Kure revelou uma situação bizarra na ilha. Há algum tempo que os administradores da ilha vinham encontrando carcaças, quase 100, de coelhos.
Acreditem ou não, javalis nativos começaram a atacar e comer coelhos vivos. Acredita-se que esses comportamentos sejam devidos ao grande número de coelhos que vivem na ilha e ao uso de restos de comida levados por turistas para os coelhos.
O governo agora estuda proibir ou controlar a comida que os turistas dão aos animais. Também é preciso controlar a população de coelhos e de javalis para proteger o meio ambiente.
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