
Seria uma sigla militar, uma pronúncia equivocada ou o nome inspirado em um personagem mágico de histórias em quadrinhos? A resposta não é tão simples quanto você imagina. É uma mistura de segredo militar, rivalidade corporativa e um cachorro de desenho animado.
Para entender o nome, primeiro precisamos entender a máquina. O ano é 1940. O mundo está à beira da guerra e o Exército dos EUA enfrenta um problema. Eles precisam de um veículo leve de reconhecimento para substituir o cavalo e a motocicleta.
Enviam uma solicitação a 135 fabricantes de automóveis. As exigências são rigorosas: o veículo deve ser leve, ter tração nas quatro rodas e, o detalhe mais desafiador, eles precisam de um protótipo funcional em apenas 49 dias.
Apenas uma empresa aceitou o desafio: a pequena e falida Companhia Americana de Carros Bantam, obedecendo o princípio: "Falido, Falido e meio". Eles trabalharam dia e noite e entregaram um veículo conhecido como carro de reconhecimento Bantam. Foi um milagre da engenharia.
No entanto, o Exército temia que a Bantam fosse pequena demais para produzir unidades suficientes. Por isso, entregaram os projetos da Bantam a duas gigantes: Ford e Willys-Overland.
A verdadeira sacanagem: o Exército dos Estados Unidos não reembolsou nem compensou bem a Bantam pelo projeto do Jeep. Embora a pequena empresa tenha criado e entregue o protótipo original em tempo recorde, o Departamento de Guerra dos EUA justificou que os designs feitos sob contratos militares pertenciam ao governo.
Sem lucrar com a massificação do projeto e esmagada por dívidas, a American Bantam acabou declarando falência anos depois, enquanto a Willys-Overland registrou a marca "Jeep" e ficou com todo o prestígio e sucesso comercial.
Em 1941, três versões diferentes desse pequeno veículo já estavam sendo testadas. Os soldados os adoravam. Eram ágeis, robustos e capazes de ir a qualquer lugar. Mas, oficialmente, ainda não eram chamados de Jeeps. Eram chamados de "bantams", "buggies" ou "blitz buggies". Então, de onde veio o nome?
Vamos analisar primeiro a teoria mais famosa. Se você perguntar ao seu avô ou ao seu professor de história por que ele se chama Jeep, provavelmente ouvirá a teoria do "GP". Diz a lenda que o veículo foi designado como GP, sigla para "General Purpose" (uso geral). Os soldados pronunciavam as duas letras juntas: "ji-pe", e o nome pegou.
Parece lógico. Parece perfeito, mas os historiadores afirmam que essa explicação está quase certamente errada. A realidade é a seguinte: a designação GP era usada apenas pela Ford. E, no código de fabricação da Ford de 1940, o "G" indicava um contrato governamental. Já o "P" não significava *purpose* (propósito); era o código da Ford para um veículo com distância entre eixos de 80 polegadas.
Além disso, a versão da Willys, que acabou se tornando o modelo padrão, chamava-se oficialmente Willys MB; não havia "GP" em seu nome.
Se os soldados já chamavam o modelo da Willys de "Jeep", o nome não poderia ter origem em um código de peça da Ford. Então, se a teoria do "uso geral" é um mito, de onde os soldados tiraram a palavra?
Para descobrir, precisamos olhar para as histórias em quadrinhos. No final da década de 1930, Popeye era uma das tiras de quadrinhos mais populares dos Estados Unidos. Em 1936, seu criador, E.C. Segar, introduziu um novo personagem: um animal misterioso e mágico vindo da quarta dimensão, chamado Eugene o Jeep.
Eugene era pequeno, ágil e tinha o poder de se teletransportar. Ele conseguia ir a qualquer lugar e resolver qualquer problema. E o único som que emitia era "ji-pe, ji-pe. Esse personagem tornou-se um fenômeno cultural.
"Jeep" virou uma gíria para qualquer coisa extraordinária, inédita ou estranha. Quando os novos carros do exército chegaram, eles eram exatamente como Eugene: pequenos, moviam-se de maneiras que carros comuns não conseguiam e pareciam capazes de resolver qualquer problema no campo de batalha.
Os soldados, que cresceram lendo Popeye, olhavam para aquele carrinho ágil e diziam: "É um Jeep". Foi um apelido que nasceu do afeto. Mas o nome só se oficializou quando um homem subiu uma escadaria com o veículo.
O momento em que o nome se tornou definitivo ocorreu em fevereiro de 1941. Irving "Red" Hosman era piloto de testes da Willys. Ele estava em Washington, D.C., demonstrando a potência do veículo para políticos e para a imprensa. Para impressionar, ele dirigiu o veículo subindo os degraus do Capitólio dos Estados Unidos.
Katherine Hillier, repórter do Washington Daily News, ficou impressionada. Ela correu até Hosman e perguntou:
- "Que coisa é essa?" Irving não respondeu: - "É um Willys MB." ou - "É um veículo de um quarto de tonelada." Ele simplesmente sorriu e disse: - "É um Jeep!"
No dia seguinte, a foto saiu no jornal com uma legenda que se referia ao veículo como Jeep. O nome foi impresso em preto e branco e, a partir daquele momento, não havia mais volta. Após a guerra, a Willys-Overland agiu com inteligência: registrou a marca Jeep em 1950, consolidando-a como uma marca oficial, e não apenas um apelido.
Assim, embora a teoria de "uso geral" seja segura e monótona, a verdade é muito mais humana: o nome surgiu de uma mistura de gíria de mecânicos, um cachorro mágico dos quadrinhos e um piloto de testes que sabia como gerar uma boa manchete. É um nome que remete à aventura, assim como o próprio veículo.
Quando adolescente tive um clássico e surrado Jeep Willys 61. Na verdade era o carro da lida na roça de minha mãe. Dirigir um jipe antigo significava virar o volante de um lado para o outro enquanto o carro continuava andando reto por alguns instantes.
Essa famosa "folga de meio metro" na direção exigia braço forte, antecipação nas curvas e muita paciência dos motoristas nas ruas e estradas de terra. Por conta dela fui para no mato algumas vezes.
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