
Outros países retaliaram taxando produtos americanos, o que levou à queda das exportações e à retração do comércio global. No final, essa política fez com que os preços nos EUA disparassem e gerou ainda mais desemprego.
Esses resultados desastrosos da Lei Tarifária Smoot-Hawley não surpreenderam os mais de mil economistas que condenaram publicamente o projeto de lei. Mas essa não seria a última vez que um líder mundial ficaria surpreso com as consequências de uma tarifa.
Então, o que exatamente é uma tarifa? Uma tarifa é um imposto que um importador paga para trazer produtos estrangeiros para um país. Por exemplo, se ele importar mercadorias no valor de R$ 1.000 com uma alíquota de 10%, pagará R$ 100 ao governo, além dos R$ 1.000 ao vendedor.
Exportadores estrangeiros podem reagir a uma tarifa reduzindo o preço de seus produtos para manter o negócio com o importador. Mas, se não o fizerem, os importadores arcam com esse custo e aumentam seus preços, fazendo com que os consumidores paguem a diferença.
Isso pode parecer simples, mas a imposição de uma tarifa desencadeia uma reação em cadeia econômica complexa. Para simplificar, vamos analisar alguns exemplos de um único país e explorar os fatores que tornam difícil prever os resultados de uma tarifa.
Primeiramente, tarifas podem ser aplicadas a diferentes países com alíquotas variadas. Por exemplo, em 2024, os EUA aplicavam uma tarifa de 6% sobre toda a lã que entrava no país. No entanto, se essa lã viesse do México ou da Coreia do Sul, seria isenta de tarifas devido a acordos comerciais. Por outro lado, importadores que comprassem lã da Rússia poderiam enfrentar uma tarifa elevada de 55,5%.
Políticas como essas podem ajudar os produtores nacionais de lã ou simplesmente incentivar os importadores a comprar de produtores estrangeiros específicos. A situação fica ainda mais complexa ao tentar prever o impacto das tarifas no emprego. Às vezes, os empregos criados têm um custo elevado.
Em 2018, os EUA impuseram uma tarifa sobre máquinas de lavar que gerou 1.800 empregos e arrecadou cerca de US$ 82 milhões em receitas governamentais. No entanto, a medida também elevou o preço médio das máquinas de lavar em US$ 86, custando aos consumidores aproximadamente US$ 1,5 bilhão. Isso significa que os consumidores pagaram cerca de US$ 817.000 para criar cada um desses empregos.
Em outros casos, os empregos gerados por tarifas surgem à custa de empregos já existentes. Em 2002, o governo Bush impôs tarifas de até 30% sobre o aço importado. O nível de emprego na produção de aço dos EUA vinha caindo há décadas; assim, ao tornar o aço estrangeiro mais caro, a tarifa visava criar novos empregos para os fabricantes americanos do setor.
Inicialmente, a política de fato desacelerou a perda de empregos. Mas, como o aço americano ainda custava mais do que o aço estrangeiro antes da tarifa, as indústrias nacionais que utilizavam esse material tiveram de aumentar seus preços.
Isso tornou seus produtos menos competitivos internacionalmente, mercado no qual os fabricantes estrangeiros continuavam utilizando aço barato. Menos de um ano após a implementação da tarifa, os EUA perderam muito mais empregos em indústrias que utilizavam aço do que ganharam nas indústrias que o produziam.
Claramente, a forma como outros países reagem às tarifas é outro fator importante no efeito cascata que essas políticas geram. Um exemplo claro ocorreu em 2018, quando os EUA tentaram lidar com seu déficit comercial com a China taxando produtos chineses.
Embora essas tarifas tenham protegido empresas nacionais e aumentado a arrecadação do governo, elas também desencadearam uma guerra comercial. A China retaliou aumentando as tarifas sobre exportadores americanos, incluindo agricultores que dependiam do mercado chinês para a venda de soja.
No final, isso resultou em preços mais altos para os consumidores americanos e em uma leve queda no PIB dos EUA. Guerras comerciais não são novidade. Mesmo nos séculos XVIII e início do XIX, quando certas tarifas ajudaram indústrias em dificuldades a se consolidarem no mercado interno, elas eram utilizadas principalmente para arrecadar fundos para o governo.
No entanto, nos últimos 200 anos, nossa economia global tornou-se muito mais interdependente. Hoje, importa-se mais componentes industriais do que nunca, muitos dos quais são utilizados na fabricação de uma ampla variedade de bens de consumo.
Essa complexidade significa que até mesmo uma tarifa aparentemente simples pode desencadear uma reação em cadeia global, gerando mais consequências do que qualquer um poderia prever ou planejar.
A aplicação de tarifas elevadas, como as de mais de 50% em eletrônicos no Brasil, segue exatamente a mesma lógica protecionista de Donald Trump, mas com uma diferença crucial de contexto: o destino final e quem paga a conta.
A política tarifária agressiva de Trump, frequentemente chamada de "tarifaço", baseia-se no nacionalismo econômico e no uso de taxas aduaneiras como ferramentas de pressão política.
A comparação direta entre a prática de Trump e a tributação de eletrônicos e blusinhas da Shopee revela alguma semelhanças e diferenças,
O discurso americano é proteger a indústria nacional e forçar empresas a fabricarem nos EUA. Já o brasileiro é proteger o mercado interno (que mercado?), estimular a indústria nacional (que muitas vezes importa e triplica o preço) ou arrecadar impostos (real motivo).
Quem é que paga o pato? Como sempre é o consumidor. O importador dos EUA repassa o custo da taxa para o preço final. No Brasil, comprador paga as taxas alfandegárias diretamente ou no preço final do revendedor. O consumidor paga a taxa de importação daqui e também as tarifas de lá. Brasileiro só se fo...
A raiz econômica é a mesma. O argumento de Trump para aplicar taxas abusivas em eletrônicos ou componentes (como chips) é que, se uma empresa quiser vender no mercado americano sem pagar impostos, ela deve transferir suas fábricas para os EUA (reshoring).
Governos que taxam fortemente eletrônicos importados usam o mesmo pretexto: encarecer o produto de fora para tentar fazer o cidadão consumir o similar fabricado internamente ou forçar a montagem local de fábricas.
A principal diferença está no poder de barganha e na cadeia global: a estratégia de Trump usa o gigantismo do mercado americano como "arma" para forçar gigantes de tecnologia (como a Apple ou montadoras) a investirem bilhões dentro dos EUA para conseguir isenções.
Em países em desenvolvimento, tarifas altas em eletrônicos acabam funcionando mais como um imposto puramente arrecadatório ou inflacionário, pois o país muitas vezes não possui uma cadeia nativa de semicondutores e tecnologia de ponta para substituir a importação.
Portanto, a prática de usar alíquotas na casa dos 50% ou mais para frear a entrada de mercadorias estrangeiras é exatamente a mesma cartilha protecionista do Laranjão, ademais diminuindo o poder de compra do consumidor local.
No entanto, enquanto em grandes potências ela funciona como uma ferramenta de retaliação e pressão geopolítica, em mercados menores ela tende a isolar o consumidor do acesso a tecnologias globais de ponta, enquanto políticos ignorantes repetem como um mantra que o Brasil é o segundo maior detentor de reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China. E daí?
O país consegue fazer a extração inicial e a concentração do minério bruto, mas, assim como Rússia, Índia e Vietnã, a partir dai não sabe bem o que fazer com ele.
As terras raras são formadas por 17 elementos químicos muito parecidos entre si. Isolá-los e purificá-los exige processos químicos altamente sofisticados, uso de ácidos fortes e extração por solventes.
O Brasil carece de plantas industriais de refino em larga escala. Por causa disso, o país costuma exportar o minério bruto de menor valor e importar os óxidos refinados prontos para uso tecnológico.
A China controla hoje quase 90% da capacidade global de refino, mas EUA, França, Estônia, Japão e Austrália têm capacidade possuem e operam infraestruturas comerciais independentes com capacidade de processar e separar múltiplos elementos de terras raras.
ö azarão da vez é a Malásia, o segundo produtor mundial sem ter 1 kg do metal em seu solo. O país tem um grande complexo industrial que processa minério concentrado australiano e o separa em óxidos comerciais de alta pureza.
Curiosidade: não são terras, tampouco raras. O termo "terra" é uma antiga nomenclatura usada por geólogos para designar óxidos desses elementos. Na natureza, eles não aparecem em forma metálica pura, mas sim misturados a óxidos e outros minerais, como terra.
A maioria desses elementos é relativamente abundante na crosta terrestre. O que os torna "raros" é a dificuldade de achá-los concentrados em quantidade suficiente para viabilizar a mineração, além do processo químico complexo, caro e ultrapoluente necessário para separá-los.
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