![]() | No começo dos anos 80 eu trabalhei no setor de pesquisas e ensaios de uma empresa da linha branca em Curitiba. Nosso objetivo era estender ao máximo a vida útil de um produto com a descoberta de novos dispositivos e testar toda e qualquer peça do mesmo para identificar qual era o mais durável. Em geladeiras, por exemplo, era realizado um teste chamado pull-down de refrigeração, o processo de medir o tempo e a quantidade de ciclos que o equipamento leva para reduzir a temperatura interna até a marca desejada, para avaliar a eficiência geral do sistema e a capacidade de resfriamento do compressor. |

Estes ensaios permitiam com que soubéssemos quando um produto precisaria inexoravelmente de manutenção ou da troca de peças. Naqueles anos a prática de manutenção era algo bem comum e abundavam as oficinas de consertos de eletrodomésticos.
Aqueles produtos duravam facilmente 10 a 12 anos sem "abrir o bico" graças a estes testes e ensaios. Muitas dessas geladeiras da vovó acabaram saindo do altar da cozinha e foram para a área da churrasqueira ou tomar pó em um cômodo abandonado quando substituídos por novas geladeiras com tecnologia de ponta.
O que ninguém esperava é que estes novos produtos logo começaram a exigir sinais de desgaste precoces com vidas úteis muito menores. Infelizmente, aqueles testes que estendiam a utilidade do produto, começaram a ser usados para o mal com a mania de consumismo desenfreado e da infame obsolescência programada.
Obsolescência programada é a estratégia industrial onde produtos são projetados para falhar, se tornarem incompatíveis ou saírem de moda rapidamente. O objetivo é forçar o consumidor a comprar novas versões, impulsionando o lucro das empresas e gerando impactos ambientais severos.
Os testes e ensaios passaram a ser feitos com componentes de vida útil reduzida como forma de saber de antemão quando um produto começaria a falhar, geralmente com um limite um pouco maior que a sua garantia de venda.
Tenho quase certeza que você já passou pela situação estranha de que de repente quase todas as lâmpadas LED de sua casa queimam no mesmo período com diferença de poucos dias. Ainda que possa parecer um surto do fornecimento de energia elétrica, está longe de ser isso.
Se você verificar o recibo de compra destas lâmpadas, vai notar sem surpresa que as comprou a pouco mais de um ano. Essas lâmpadas foram projetadas para queimar obrigando que compre novas.
Maltas pessoas tem em casa uma geladeira jurássica que já sobreviveu a muita geladeirinha nutella, com "pracas" eletrônicas ou termostatos avariados, gaxetas endurecidas e vazamento de gás.
Eu tenho uma antiga lavadora Westinghouse que me acompanha desde o primeiro casamento, porque ninguém quis ficar com a tranqueira. Em mais de 30 anos só necessitou da troca de uma correia e ainda está lá funcionando forte, faceira e ... barulhenta. Toda a vizinhança ouve sua centrifugação.
Os aspiradores de pó robóticos são fantásticos: bonitinhos, silenciosos, dão carona para os gatos, mas são limitados na prestação de serviço e propensos a obsolescência programada. Duram pouco mais que um ano e o conserto em geral custa o mesmo que um novo.
Em comparação, um cacareco da General Eletric Pro-1000 aspirava 5kg de lixo, água e até o gato se ele desse bobeira. Como vantagem sobressalente, bastava inverter o tubo para a entrada e você tinha um soprador potente.
A obsolescência programada avançou também para o software com aparelhos que deixam de funcionar com o lançamento de tecnologias incompatíveis com produtos anteriores, ou novos recursos que fazem o item antigo parecer ultrapassado.
Drones da linha Phantom, como Phantom 2 e 3, perderam o suporte da DJI e, em muitos casos, não operam mais com os firmwares e aplicativos recentes. A incompatibilidade ocorre porque a fabricante encerrou o desenvolvimento de software para esses modelos, causando falhas de comunicação com celulares modernos. Reclamações: procure o bispo mais próximo.
De forma absurda, até mesmo as panelas antiaderentes estão sujeitas à pratica da obsolescência programada. Elas funcionam muito bem por 6 meses. Depois disso, pequenos arranhões aparecem e o revestimento começa a descascar, caindo na sua comida.
Esse revestimento é feito de Teflon. Quando ele é arranhado, você está temperando seus ovos mexidos com produtos químicos sintéticos. Se você acidentalmente deixar uma panela antiaderente em fogo alto, o revestimento se deteriora e libera vapores tóxicos. Esses vapores são comprovadamente causadores da febre dos vapores de polímero em humanos e são letais para pássaros.
Por outro lado, a panela de ferro fundido da sua avó provavelmente é mais antiga que seus pais e ainda funciona muito bem. As pessoas as passam de geração em geração como heranças de família.
O ferro fundido fica melhor quanto mais você o usa. Cada vez que você cozinha, uma fina camada de óleo se forma na superfície. Isso se chama cura. Ao longo dos anos de uso, essa cura se acumula, criando uma superfície naturalmente antiaderente. A panela literalmente melhora com o tempo.
O que fazer para não cair na esparrela da obsolescência programada? A resposta é ... complicada. Mas embora seja um desafio sistêmico, você pode adotar algumas práticas para driblar essa realidade, como buscar avaliações de durabilidade, facilidade de reparo e suporte de atualizações de longo prazo em sites especializados.
Ainda que as oficinas eletrônicas tenham tomado chá de sumiço, prefira o recondicionamento. Sempre que possível, conserte seu aparelho antigo em assistências de confiança ou compre produtos recondicionados, contribuindo para a economia circular.
Acompanhe discussões sobre o Direito ao Reparo e políticas de logística reversa que exigem maior responsabilidade de marcas que tem políticas que exigem que o consumidor só utilizem oficinas próprias ou especializadas. O PL 6151/2019 do deputado Pedro Lucas Fernandes, trata do assunto e busca incluir no Código de Defesa do Consumidor uma garantia da disponibilização de peças e manuais no mercado.
Por fim, verifique o período de garantia: quanto mais extenso -geralmente mais caro- maior será a garantia de que o produto durará no mínimo o tempo de cobertura. Por exemplo, se a marca A proporciona uma garantia de um ano por R$ 1.000 e a marca B oferece dois anos por R$ 1.200, escolha a B.
Mas atenção, se o produto oferecer um período de garantia estendida alternativo -certamente mais caro-, esqueça, pois certamente o produto foi ensaiado para durar este período, mas exija ver o código do produto, geralmente localizado na parte posterior do produto. Uma letrinha a mais é utilizada para diferenciar o produto. Nesse caso chame o Procon.
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