![]() | Em 1996, a jornalista chilena Nancy Guzmán bateu à porta de uma casa na Rua Bremen, no bairro de Ñuñoa, em Santiago. Ela estava lá para entrevistar uma das mulheres mais temidas da história da ditadura de Pinochet. A mulher que atendeu era corpulenta, com mãos grandes, voz rouca e um cigarro no canto da boca. Vestia uma saia florida e um suéter feito à mão. Morava completamente sozinha, sem filhos, sem marido. E alojada em seu crânio, uma bala que ali permanecia havia quinze anos. Essa era Íngrid Felicitas Olderöck Bernhard, conhecida em todo o Chile como La Mujer de los Perros. |

Durante os anos da ditadura militar de Augusto Pinochet, ela foi a mulher mais proeminente dentro da Direção de Inteligência Nacional (DINA), a temida polícia secreta chilena. Sobreviventes dos centros de detenção clandestinos do Chile a colocaram entre as torturadoras mais brutais de todo o regime.
Íngrid nasceu em 14 de setembro de 1943, em Santiago, em uma família de imigrantes alemães que havia chegado ao Chile em 1925. A família vivia estritamente isolada da sociedade chilena. Ela e suas irmãs não tinham permissão para falar espanhol em casa nem para ter amigos chilenos. A ideologia que permeava sua infância era abertamente fascista. Mais tarde, ela contou a Nancy:
- "Sou nazista desde criança, desde que aprendi que o melhor período da Alemanha foi quando os nazistas estavam no poder, quando havia trabalho, tranquilidade e não havia ladrões descarados."
Mais tarde, quando seus pais morreram, Íngrid decidiu torturar e estuprar sua irmã mais velha para se apoderar da herança.
Ela ingressou nos Carabineros, a polícia nacional do Chile, e rapidamente se destacou. Tornou-se a primeira mulher a se qualificar como paraquedista no Chile e, de fato, em toda a América Latina, uma distinção da qual, segundo relatos, se orgulhou pelo resto da vida.
Quando o golpe de Pinochet derrubou o governo eleito de Salvador Allende em 11 de setembro de 1973, a trajetória de Íngrid mudou decisivamente. Ela foi recrutada quase imediatamente para a recém-formada DINA e designada para a Brigada Purén, uma das unidades responsáveis por assassinatos e desaparecimentos.
Dentro da DINA, Íngrid ascendeu a ser a agente feminina mais proeminente da organização. Ela foi encarregada de treinar destacamentos de jovens mulheres para atuarem como agentes contra opositores políticos do regime.
Ela também tinha acesso privilegiado à rede de centros de detenção clandestinos que a DINA administrava em Santiago e arredores, incluindo a Villa Grimaldi, a Londres 38 e aquele que ficou mais intimamente associado ao seu nome: Venda Sexy.
Venda Sexy era uma casa de dois andares no bairro de classe média de Macul, em Santiago. Seu nome, dado pelos próprios agentes, refletia os métodos ali utilizados. Música era tocada em volume máximo 24 horas por dia para abafar os sons vindos de dentro.
O relatório da Comissão Valech de 2004, que documentou mais de 27.000 casos de prisão política e tortura sob o regime de Pinochet, descreveu-a como uma das instalações mais brutalmente sistemáticas de toda a rede.
Relatos de sobreviventes descrevem um cronograma estruturado de abusos, com sessões planejadas e agendadas como um dia de trabalho.
O depoimento que deu a Íngrid seu apelido veio de sobreviventes desses centros de detenção, que a acusaram de treinar cães pastores alemães, incluindo um chamado Volodia, para estuprar prisioneiras durante interrogatórios.
As acusações foram apresentadas às Nações Unidas pela Anistia Internacional e constam em depoimentos de sobreviventes coletados por investigadores de direitos humanos ao longo de várias décadas.
Íngrid negou tudo. Em suas conversas com Nancy e em processos judiciais subsequentes, ela se recusou a admitir qualquer envolvimento nos abusos documentados em Venda Sexy, Villa Grimaldi ou em qualquer outro lugar.
Ela contestou sua presença em eventos importantes e questionou a credibilidade das testemunhas contra ela. Ela nunca foi condenada. Apesar do peso dos depoimentos das sobreviventes e das conclusões da Comissão Valech, ela morreu sem jamais ser responsabilizada legalmente pelas acusações que recebeu.
No final da década de 1970, Pinochet dissolveu a DINA e a substituiu pelo CNI, uma agência sucessora considerada um pouco mais moderada em seus métodos, ainda que não em seus objetivos.
O papel operacional de Íngrid chegou ao fim. Mas seus problemas estavam longe de terminar. Em 15 de julho de 1981, dois militantes do MIR, o Movimento de Esquerda Revolucionária que havia sido forçado ao exílio após o golpe e retornado clandestinamente ao Chile, atiraram nela à queima-roupa. Ela sobreviveu.
Quando foi levada para o hospital, ela recusou a anestesia. Seu raciocínio, segundo o relato de Nancy, baseava-se em seu conhecimento dos métodos de interrogatório da DINA, nos quais drogas e sedativos eram usados para extrair informações ou desorientar os detidos.
Ela não confiava na equipe médica e não queria ficar inconsciente. A bala ficou alojada em sua cabeça. Ela a carregou lá pelos vinte anos restantes de sua vida.
Havia uma preocupação secundária. Antes do tiroteio, Íngrid frequentava sessões de terapia, durante as quais pode ter revelado informações sensíveis sobre as operações da DINA.
Seus ex-colegas tinham motivos para estarem nervosos. Se o tiroteio foi obra exclusiva de militantes do MIR ou se houve qualquer envolvimento da DINA nunca foi comprovado, mas a suspeita foi suficiente para intensificar a paranoia que a acompanhou pelo resto da vida.
Quando Nancy a encontrou em 1996, Íngrid vivia em completo isolamento. A mulher que outrora inspirara medo em toda a rede de centros de detenção de Santiago não tinha família por perto, nenhuma comunidade e nenhum remorso aparente.
Ela conversou com Nancy em três sessões entre julho e agosto daquele ano, inicialmente como parte da pesquisa para um documentário da BBC. O livro resultante, "Ingrid Olderöck: La Mujer de los Perros, publicado em 2014, continua sendo o relato mais detalhado de sua vida e crimes.
Nancy a descreveu como a mulher mais poderosa e brutal da DINA. Nas entrevistas, Íngrid falou abertamente sobre sua ideologia, mas manteve suas negativas sobre os abusos específicos.
Em 2022, o diretor chileno Hugo Covarrubias lançou um curta-metragem de animação em stop-motion chamado "Bestia" inspirado na história de Íngrid e baseado no livro de Nancy.
O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação, trazendo renovada atenção internacional a um capítulo da história chilena que o país ainda está se recuperando.
Hugo teve o cuidado de descrever o filme como inspirado em fatos históricos, e não estritamente biográfico, mas seu impacto reabriu o debate público no Chile sobre responsabilidade, memória e os muitos perpetradores da ditadura que viveram seus dias sem serem levados à justiça.
A história de Íngrid situa-se numa encruzilhada particularmente desconfortável: uma mulher que ascendeu a posições mais elevadas em uma instituição patriarcal brutal do que quase qualquer outra agente feminina, utilizando métodos que visavam desproporcionalmente outras mulheres.
Ela foi produto de uma ideologia que absorveu antes mesmo de ter idade suficiente para questioná-la, e aparentemente nunca a questionou. Morreu em 2001, sozinha naquela casa em Santiago, com uma bala ainda alojada no crânio e sem uma única condenação em seu nome.
Ingrid Olderöck, que nunca se casou nem teve filhos, morreu em 17 de março de 2001, em Santiago, vítima de uma hemorragia gástrica aguda. Seu funeral foi breve: nenhum familiar compareceu, apenas alguns de seus ex-colegas dos Carabineros.
Íngrid Felicitas Olderöck Bernhard tinha 57 anos.
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