![]() | Poucas plantas são tão singularmente simbólicas do Oeste americano quanto o arbusto-rolante solitário. Na cultura popular, ele passou a simbolizar desolação, vazio e até mesmo tédio, quase se tornando um clichê cinematográfico próprio. Também se tornou um elemento básico dos filmes de faroeste, funcionando como um adereço do deserto que aponta para o potencial a ser explorado de uma pequena cidade. Mas, apesar de seu lugar no imaginário, muitos desconhecem suas origens. O arbusto-rolante não só não é nativo da América do Norte, como também causou problemas desde sua chegada. |

Os estepicursores, também conhecidos como nuvens-do-deserto é um dos muitos nomes comuns do cardo-russo (Salsola tragus). É nativa de regiões secas e semiáridas da Europa e da Ásia Central.
Acredita-se que as primeiras sementes de cardo-russo chegaram acidentalmente em um carregamento de linhaça importado do Império Russo na década de 1870.
Os primeiros registros de plantas-rolantes surgiram nas planícies do Condado de Bonhomme, Dakota do Sul, onde tomaram conta de terras aradas destinadas ao cultivo.
Em pouco tempo, a humilde planta-rolante viajou por quilômetros a fio, tornando-se uma das invasões vegetais mais rápidas da história dos Estados Unidos. Na virada do século XX, a espécie já havia chegado à Califórnia.
Hoje, a planta pode ser encontrada em todos os estados, exceto no Alasca e na Flórida. Além de se espalhar pela América do Norte, o cardo-russo também foi introduzido em outras partes do mundo, como a Europa e a América do Sul.
Graças à sua natureza, a planta-rolante se espalha rapidamente. Primeiro, ela produz até 250.000 sementes, dependendo do tamanho da planta. Quando a planta morre, ela se desprende facilmente do solo com rajadas de vento, que a impulsionam devido ao seu formato arredondado, espalhando as sementes enquanto quica.
Embora seja uma muda macia em seu estágio inicial, ela se torna uma planta espinhosa, afastando herbívoros e protegendo as sementes antes de serem liberadas.
Uma vez depositadas as sementes, elas também não precisam de muito para crescer. Basta uma temperatura diurna de cerca de 20°C e uma noturna de 5°C para germinarem. Além disso, adaptaram-se a solos alcalinos e salinos.
Isso significa que podem crescer em locais com vegetação naturalmente reduzida, seja em terrenos desmatados para agricultura ou em áreas onde podem competir facilmente com a vegetação nativa e ocupar o espaço dela.
Embora inicialmente tenha causado muitos problemas para os agricultores americanos, como perdas nas colheitas e ferimentos no gado que tentava comê-la, hoje em dia representa menos um problema agrícola e mais uma ameaça devido às ações humanas e às mudanças climáticas.
Por exemplo, seus galhos inflamáveis podem contribuir para a propagação de incêndios florestais, servir de hospedeiro para insetos transmissores de doenças, causar acidentes de trânsito e obstruir estradas.
Às vezes acontece que espécies de plantas-rolantes grandes, especialmente as espinhosas, podem formar agregações fisicamente perigosas, capazes de bloquear estradas e soterrar edifícios e veículos.
Isso pode ocorrer onde cercas e obstáculos semelhantes causam o acúmulo, mas as plantas também podem se emaranhar umas nas outras até formarem pilhas que não conseguem mais rolar. Tais pilhas podem representar uma séria ameaça para veículos ou edifícios presos e seus ocupantes, principalmente por serem secas e inflamáveis.
Mas, apesar de todos os aspectos negativos, alguns são gratos por sua presença onipresente. Na década de 1930, um período severo de seca no Sul dos Estados Unidos, conhecido como dust bowl, fez com que famílias recorressem aos arbustos jovens que rolavam pelo deserto, a única planta que continuava a crescer, para alimentar seu gado e até mesmo a si mesmas.
Ironicamnente, as plantas-rolantes não são tão comuns na Rússia, porque lá enfrentam vegetação nativa densa e predadores naturais. Note que o próprio narrador do seguinte vídeo não tem conhecimento que a planta é nativa da Rússia, dizendo que ele viu algo igual no Chipre.
Em contraste, sua chegada aos EUA na década de 1870 encontrou um vasto oeste americano árido e perturbado, sem inimigos naturais, o que lhes permitiu colonizar rapidamente milhões de hectares.
Para entender por que se espalham de forma tão diferente, é preciso analisar a ecologia de ambas as regiões. Nas estepes da Eurásia, o cardo-russo coevoluíu com insetos, fungos e patógenos nativos que mantêm sua população sob controle rigoroso.
Ao chegar aos EUA, deixou para trás esses controles biológicos naturais, o que lhe permitiu multiplicar-se agressivamente sem resistência.
Durante a expansão para o oeste americano na década de 1870, os pioneiros araram vastas extensões de gramíneas nativas das pradarias e praticaram o sobrepastoreio em pastagens.
Como o cardo prospera em solos soltos e revolvidos, onde há pouca ou nenhuma vegetação concorrente, as extensas rodovias sem cercas e as cercas abertas no oeste americano atuam como corredores perfeitos para a dispersão descontrolada da planta.
O Brasil possui centenas de espécies exóticas invasoras. Entre as mais agressivas e que se alastram de forma descontrolada por diversos biomas, temos a leucena, introduzida no Brasil para alimentar gado e hojeproibida em solo brasileiro. A jaqueira, introduzida na época colonial, tornou-se uma praga em áreas de Mata Atlântica, e o capim-gordura, trazido acidentalmente nos navios negreiros, onde era utilizado como cama para o transporte de escravizados.
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