![]() | As histórias das princesas da Disney nem sempre foram reconfortantes. Por trás dos icônicos vestidos de baile e das canções oníricas, escondem-se contos folclóricos centenários que originalmente tinham o objetivo de aterrorizar as crianças para que se comportassem bem, abordando temas como derramamento de sangue, traição e finais trágicos. Uma madrasta malvada exige os pulmões e o fígado de uma bela donzela; uma garota é arrancada do estômago de um lobo; e irmãs mutilam os próprios pés para caberem em um sapato de ouro maciço. |

No início do século XIX, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm reuniram esses detalhes macabros e sem rodeios a partir de histórias que circulavam pelo que hoje é a Alemanha. Mas, à medida que os contos ganhavam fama, eles se transformaram drasticamente.
Os irmãos Grimm nasceram em Hanau, na década de 1780. Na época, as terras germânicas ainda não existiam como o Estado-nação unificado da Alemanha, mas estavam divididas em pequenos principados independentes.
E as forças francesas exerciam um controle significativo sobre a região como resultado das ambições expansionistas de Napoleão.
Enquanto isso, o Romantismo europeu começava a florescer, acompanhado por movimentos para preservar línguas e tradições nacionais.
Na adolescência, os irmãos Grimm se matricularam para estudar Direito na universidade e logo se interessaram por como as regras e os costumes locais estavam inseridos nos contos populares.
Não demorou muito para que eles iniciassem seu próprio projeto romântico-nacionalista, solicitando todo tipo de folclore alemão, buscando, segundo eles, - "...penetrar nas florestas selvagens de seus ancestrais." Seu objetivo era fomentar um senso unificador de identidade cultural alemã.
Eles idolatravam a ideia de histórias do chamado "homem comum", que consideravam evidência de uma "imaginação intocada" e "pureza interior" nacional.
Na prática, muito do que eles coletaram veio de fontes das classes média e alta, e algumas histórias tinham origens transnacionais rastreáveis. Mas os irmãos Grimm receberam material que abrangia canções, piadas, fábulas e contos de fadas mágicos, de livros e jovens mulheres instruídas, bem como de um pintor e um ex-soldado, embora provavelmente tenham coletado a maior parte do material da esposa de um alfaiate.
Eles publicaram seu primeiro volume, "Contos Infantis e Domésticos", em 1812. Mas, desde a madrasta que serve o próprio filho do marido para o jantar, até o homem que assassina o irmão para se casar com uma princesa e depois se afoga em um saco, essas histórias estavam longe de serem aconchegantes.
Na verdade, originalmente, as histórias eram para adultos e frequentemente abordavam realidades difíceis, como pais abandonando seus filhos na floresta por causa da pobreza e soldados exaustos desertando do exército.
Os momentos mais felizes eram, muitas vezes, fantasias escapistas de circunstâncias adversas, como a princesa que atira um sapo com quem é forçada a se casar contra uma parede, apenas para revelar um príncipe encantador.
Os dois primeiros volumes publicados pelos Irmãos Grimm tendiam a refletir o horror e a estranheza dos contos que eles originalmente coletaram. Mas muitos leitores acharam o conteúdo perturbador, e eles não venderam bem.
No entanto, uma versão em inglês, mais curta, ricamente ilustrada e voltada para crianças, fez sucesso. E, à medida que suas obrigações financeiras e familiares aumentavam, os irmãos começaram a editar mais ativamente.
Em 1825, os Irmãos Grimm publicaram uma "Edição Reduzida" que incorporava ilustrações e tinha como objetivo atrair os ideais românticos mais recentes da infância e as sensibilidades cristãs mais conservadoras das classes média e alta.
Um conto sangrento de crianças "brincando" de porco e açougueiro, por exemplo, não foi incluído. Enquanto isso, as mães biológicas negligentes originais de "Branca de Neve" e "João e Maria" se transformaram em madrastas malvadas em edições posteriores, ajudando a reforçar os papéis de gênero tradicionais que retratavam as mães biológicas como virtuosas, femininas e carinhosas.
E embora inicialmente fosse revelado que Rapunzel estava entretendo seu príncipe visitante quando engravidou, com a revisão, ela simplesmente deixou escapar sobre ele -sem nenhuma implicação de sexo fora do casamento-.
Os irmãos também acentuaram certa violência retaliatória, criando contos com um tom mais moralizante. Por exemplo, na versão mais antiga de Cinderela dos Grimm, para que o sapatinho de cristal servisse, as irmãs malvadas cortaram os próprios calcanhares e dedos dos pés. No final, duas pombas mágicas descem em voo rasante e arrancam os olhos das irmãs.
Ao longo de suas vidas, os irmãos publicaram sete edições dos contos, que se tornaram cada vez mais populares à medida que excluíam e adicionavam histórias, editando-as intensamente para se adequarem a gostos mais puritanos e ampliando os detalhes narrativos e descritivos.
Adaptações adicionais feitas por outros autores fizeram com que as histórias evoluíssem ainda mais. Branca de Neve não seria mais ressuscitada por um carregador de caixão desajeitado, mas sim pelo beijo de um príncipe, e, dali em diante, sua madrasta bruxa não dançaria até a morte em sapatos de ferro sobre um leito de brasas escaldantes. Em outras palavras, elas se tornariam menos excêntricas ou sombrias do que em suas origens.
Com Hans Christian Andersen não foi diferente, na verdade foi pior. Desde a tenra infância, Hans se destacava como um tanto excêntrico. Desproporcionalmente alto, desengonçado e deturpado, ele se mostrava assombrosamente efeminado.
Enquanto os demais rapazes se divertiam ao ar livre, ele preferia recluir-se no lar, confeccionando indumentárias para bonecas e ensaiando minuciosamente com seu teatro de marionetes.
Mais tarde, ele disse que seus anos em uma escola particular, onde morava na casa de seu professor, foi abusado e informado que o crime foi feito para "melhorar seu caráter".
Os contos de Hans traziam fortes elementos de terror e melancolia porque o autor escrevia simultaneamente para adultos e crianças, em uma época em que o conceito moderno de infância ainda estava se formando.
Ele usava o horror e a tragédia para discutir duras realidades sociais e existencialistas.
No conto trágico original de Andersen de "A Pequena Sereia", Ariel (que nunca é nomeada) não conquista o príncipe. Em vez disso, cada passo que dá com seus pés humanos é como caminhar sobre facas afiadas, e quando o príncipe se casa com outra pessoa, ela se atira ao oceano e se dissolve em espuma do mar.
Diferente de histórias focadas apenas na magia, as narrativas originais de Andersen são fundamentadas em experiências de sua própria infância pobre e nos desafios da sociedade, abordando temas como a morte, a rejeição, a fome e o abandono.
Ele também sofreu forte influência do Romantismo alemão, que valorizava a dualidade do ser, o medo do desconhecido e o confronto psicológico. Contos como "A Sombra" ou "A Pequena Vendedora de Fósforos" exploram o peso da alma e o desespero de forma quase expressionista.
Os elementos aterrorizantes funcionavam como uma alegoria. Em vez de apenas apresentar finais felizes, Hans utilizava o impacto emocional profundo para forçar uma reflexão madura sobre virtude, desigualdade e a fragilidade da vida.
Quando Walt Disney criou o arquétipo da princesa moderna, ele suavizou essas histórias para se adequarem à moralidade da classe média americana e à classificação livre para toda a família. No entanto, mesmo dentro do universo Disney, o tom mudou drasticamente ao longo das décadas para refletir a transformação dos valores culturais de cada época.
Foi assim que Branca de Neve, Cinderela e Bela Adormecida apresentam principalmente heroínas doces e passivas, que são manipuladas pelo mundo e cujos principais objetivos são a fuga, a sobrevivência e a espera pelo beijo do príncipe azul.
Mais recentemente, a Disney deu uma forte guinada, focando em histórias de sororidade, autodescoberta e empoderamento vividas por atrizes lacradoras nos filmes live-action e as salas de cinema começaram a fazer eco.
Críticos e maioria do público argumentam que a ânsia da Disney por modernidade às vezes descaracteriza o conceito de "princesa", substituindo a delicadeza e a suavidade por uma postura de "ação" que beira estereótipos masculinos, invalidando a feminilidade tradicional. Foi assim que Rachel Zegler se tornou uma das atrizes mais odiadas de Hollywood.
Se traçarmos um paralelo, isso explica porque muitas cantigas infantis antigas parecem assustadoras porque nasceram em contextos históricos sombrios.
Elas costumavam ser sátiras políticas, histórias de advertência sobre a peste ou narrativas de dor. Antes de a infância ser vista como uma fase de inocência, as cantigas serviam para alertar os mais novos sobre a dura realidade da época.
Cantigas clássicas traziam letras sobre violência contra animais ou aprisionamento. Um exemplo é "Atirei o pau no gato', cujo título e versos naturalizam agressões, apesar de hoje em dia ser alterada ou evitada por promover maus-tratos.
A origem exata de quem compôs "Atirei o pau no gato' perdeu-se no folclore, mas a letra reflete costumes rurais e a relação que se tinha com os animais no passado.
A canção narra a história de alguém que atira um pedaço de pau em um gato, mas o animal não morre. A personagem "Dona Chica" se assusta com o "berro" que o felino dá.
Acredita-se que a música nasceu de forma espontânea na cultura popular brasileira como uma forma de registrar o folclore, servindo também como exercício de rimas e sons para o aprendizado infantil, trabalhando a repetição de fonemas.
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