![]() | Alguns assassinos em série cometem homicídios para facilitar outros crimes, como roubo a banco. Alguns o fazem por prazer mórbido. Alguns são loucos se vingando do mundo. Mas é preciso uma personalidade verdadeiramente aterrorizante para matar repetidamente sem nenhum motivo aparente. Ele continua sendo um dos assassinos em série mais notórios da história americana, e era apenas um adolescente. A partir de dezembro de 1957, Charles Starkweather, de 19 anos, e sua namorada, Caril Ann Fugate, de 14, embarcaram em uma onda de assassinatos em Nebraska e Wyoming, que deixou 11 mortos, ao longo de apenas dois meses. |

Charles Starkweather estava entre as pessoas mais jovens a serem julgadas por homicídio em primeiro grau na história americana. Junto com ele estava sua namorada de 14 anos e suposta cúmplice, Caril Ann Fugate, cuja família Charles Starkweather assassinou antes de iniciarem a maior parte de sua onda de assassinatos.
O reinado de terror só terminou quando Charles se entregou às autoridades após ser ferido durante uma perseguição policial em alta velocidade em Douglas, no estado norte-americano de Wyoming, em 29 de janeiro de 1958.
Mas como Charles Starkweather, um adolescente aparentemente comum, típico americano, passou de um rapaz do interior dos Estados Unidos a um assassino monstruoso?
Charles, o terceiro filho de Guy e Helen Starkweather, nasceu em 24 de novembro de 1938, em Lincoln, Nebraska. Embora levasse uma vida "bastante típica da classe média", seu pai, carpinteiro de profissão, passava por períodos de desemprego devido à sua artrite reumatoide incapacitante. Para sustentar a família durante esses períodos, Helen trabalhava como garçonete.
Embora Charles guardasse boas lembranças de sua família, o mesmo não se podia dizer de sua experiência escolar. Por ter as pernas ligeiramente arqueadas e gaguejar, ele era alvo de bullying implacável.
Na verdade, ele era tão provocado que, à medida que crescia, e ficava mais forte, encontrou nas aulas de educação física uma válvula de escape física, onde canalizava sua raiva crescente.
Na adolescência, Charles era pouco mais que um barril de pólvora prestes a explodir. Nessa época, ele conheceu o icônico ator James Dean e se identificou com a personalidade de marginalizado social que ele representava.
Por fim, Charles abandonou o ensino médio e conseguiu um emprego em um depósito de jornais para pagar as contas. Foi nesse emprego que ele conheceu Caril Ann Fugate.
Charles tinha 18 anos quando conheceu Caril, de 13 anos, em 1956. Eles foram apresentados pela ex-namorada de Charles, que era irmã mais velha de Caril. O "relacionamento" de Charles com Caril era, sem dúvida, de natureza predatória, visto que a idade de consentimento no Nebraska, tanto naquela época quanto agora, é de 16 anos.
Isso significava que qualquer contato físico entre os dois, por mais consensual que fosse, seria considerado estupro de vulnerável perante a lei.
Deixando de lado a legalidade do relacionamento, Charles e Caril rapidamente se tornaram próximos. Charles teria ensinado-a a dirigir usando o carro do pai. Quando ela bateu o carro, desatou uma briga entre os Starkweathers, que culminou com a expulsão de Charles da casa da família.
Ele então arrumou um emprego como coletor de lixo. Durante as coletas, planejava roubos a residências. Mas sua verdadeira veia criminosa começou quando cometeu seu primeiro assassinato no ano seguinte.
Em 30 de novembro de 1957, Charles tentou comprar um bicho de pelúcia em um posto de gasolina local "a crédito". Quando o jovem frentista se recusou, Charles o assaltou à mão armada e o levou para o meio do mato, onde atirou em sua cabeça.
Mas seu próximo assassinato foi ainda mais horripilante e desencadeou uma série de eventos que eventualmente o levaram à cadeira elétrica.
Em 21 de janeiro de 1958, Charles foi visitar Caril em sua casa, onde foi confrontado pela mãe e pelo padrasto dela. Segundo relatos, eles o mandaram ficar longe da filha e, em resposta, Charles atirou fatalmente em ambos. Em seguida, estrangulou e esfaqueou até a morte a meia-irmã de Caril, de dois anos de idade.
A participação de Caril nesse assassinato brutal ainda é controversa. Embora ela tenha insistido, tanto na época quanto agora, que não participou voluntariamente, mas sim foi refém, Charles insiste no contrário.
Independentemente de ter participado ou não nos assassinatos da própria família, de forma voluntária ou não, o que fica claro é que ela esteve presente durante toda a onda de assassinatos subsequente de Charles, que durou todo o mês de janeiro de 1958.
Após assassinarem a família de Caril, os dois acamparam na casa dela por alguns dias, com uma placa na janela da frente alertando os visitantes para não entrarem porque todos estavam "doentes com gripe".
Após acreditar que haviam dissipado qualquer suspeita, Charles levou Caril Ann até a casa de um amigo da família, August Meyer, de 70 anos, e atirou nele e em seu cachorro com uma espingarda.
Charles então tentou fugir do local com Caril a reboque, mas quando atolaram o carro na lama, dois adolescentes, Robert Jensen e Carol King, pararam para ajudar.
Ele recompensou a generosidade deles atirando na testa de Robert; em seguida, tentou, sem sucesso, estuprar Carol antes de também matá-la a tiros. Charles alegaria mais tarde que Caril atirou e matou Carol por ciúmes; ela negou categoricamente a acusação.
A próxima parada deles foi na casa do empresário C. Lauer Ward. Depois de esfaquear sua empregada, Lillian Fencl, até a morte, Charles matou o cachorro da família e, em seguida, esfaqueou a esposa de Lauer, Clara, até a morte quando ela chegou em casa. Ele terminou atirando fatalmente em C. Lauer antes de roubar a casa e procurar desordenadamente por um novo veículo para a fuga.
Foi então que eles encontraram Merle Collison dormindo em seu Buick nos arredores de Douglas, Wyoming. Para pegar o carro, a dupla atirou e o matou. Mas enquanto Charles alegava que Caril foi quem puxou o gatilho, Ela negou veementemente ter matado Merle ou qualquer outra pessoa.
O Buick de Merle tinha um mecanismo de partida desconhecido para Charles e, como resultado, o carro morreu quando ele tentou fugir. Um motorista que passava, Joe Sprinkle, parou para tentar ajudar, e logo começaram a discutir. Quando Charles ameaçou Joe com uma arma, o delegado do xerife do condado de Natrona, William Romer, apareceu.
Ao ver o delegado, Caril correu até ele e identificou Charles como o assassino. Charles a arrastou para uma perseguição em alta velocidade com os policiais, mas ele parou quando uma das balas de um dos policiais estilhaçou seu para-brisa e cortou sua orelha.
- "Ele achou que estava sangrando até a morte", lembrou um dos policiais que o prenderam. - "Foi por isso que ele parou. Esse é o tipo de covarde filho da puta que ele é."
Charles Starkweather foi preso e acusado apenas de homicídio em primeiro grau, pelo assassinato de Robert Jensen. Na época, Charles optou por ser extraditado do Wyoming para o Nebraska porque acreditava, erroneamente, que os promotores não pediriam a pena de morte, já que o governador da época era contra a execução.
Mas esse governador mudou de opinião especificamente por causa de Charles.
Durante o julgamento, Charles mudou sua versão dos fatos diversas vezes. Primeiro, disse que Caril não estava presente, depois afirmou que ela participou por livre e espontânea vontade. Em determinado momento, seus advogados tentaram argumentar que ele era legalmente insano.
Mas o júri não acreditou em nada disso, e ele acabou sendo condenado por assassinato e sentenciado à morte. Antes de sua execução, Charles afirmou que Caril deveria ter o mesmo destino.
O estado de Nebraska executou-o a morte na cadeira elétrica em 25 de junho de 1959. na Penitenciária Estadual. Ele recusou uma última refeição formal, optando por uma bandeja de frios simples, alegando estar em jejum.
não demonstrou nenhuma emoção em suas últimas horas e foi declarado morto às 2h04 da manhã, após receber múltiplas descargas elétricas.
Pouco antes de ser retirado de sua cela, o vice-diretor do presídio entrou para anunciar que era a hora. Charles olhou para ele e perguntou casual e ironicamente:
Mi< - "Qual a pressa?"
Ao entrar na câmara de execução com iluminação forte, ele lançou um rápido olhar para as 40 testemunhas. Quando questionado por funcionários da prisão se tinha algo a dizer, ele apenas balançou a cabeça negativamente e permaneceu em silêncio.
Registros do jornal local Madera Tribune e arquivos históricos descrevem o processo brutal: sua cabeça foi raspada e os eletrodos foram fixados em sua cabeça raspada e em sua perna esquerda nua.
Um executor anônimo acionou o interruptor às 2h03 da manhã. Uma descarga de 1.200 volts fez com que o corpo de Starkweather se projetasse para cima e para fora contra as tiras de couro.
Várias outras descargas foram aplicadas ao assassino em intervalos de um minuto, causando um ruído crepitante na câmara antes que ele fosse declarado morto pelo médico da prisão.
Embora não seja uma declaração final falada, Charles enviou uma carta aos seus pais de sua cela, na qual delineava sua perspectiva arrepiante. Nela, ele escreveu:
- "Pai, não estou realmente arrependido do que fiz, porque pela primeira vez eu e Caril nos divertimos muito."
Ele foi enterrado no Cemitério Wyuka em Lincoln, Nebraska, onde cinco de suas vítimas também estão sepultadas.
A história de Caril Ann Fugate, no entanto, terminou de forma um pouco diferente. Ao longo de todo o julgamento, ela manteve a versão de que era refém de Charles Starkweather e que ele a ameaçou de morte, dizendo que mataria sua família se ela não o seguisse, sem saber que ele já havia assassinado seus pais.
Ela acrescentou que estava apavorada demais para fugir enquanto ele a levava para vários lugares em sua onda de assassinatos.
O juiz decidiu que ela teve ampla oportunidade de escapar e a condenou à prisão perpétua em 21 de novembro de 1958. Na época, ela foi a pessoa mais jovem da história americana a ser julgada por homicídio em primeiro grau.
Caril recebeu liberdade condicional por bom comportamento após 18 anos, em 1976. Ela se mudou para o Michigan, onde viveu discretamente, casou-se e mais tarde ficou viúva com o nome Caril Ann Clair. Em fevereiro de 2020, Clair — que tem 76 anos na data desta publicação — tentou obter um indulto da junta de indultos do Nebraska. Seu pedido foi negado.
Ao longo das décadas, ela, com 78 anos na data desta
publicação, tentou obter um indulto oficial do estado de Nebraska, o último foi em 2022, para limpar seu nome, mas seus pedidos foram negados.
Indulto estadual é um ato de clemência executiva concedido pelo governador de um estado americano, que absolve um indivíduo condenado por violar leis daquela jurisdição. Ele extingue a pena e pode restaurar direitos civis perdidos com a condenação, como o direito ao voto ou ao porte de armas.
Embora já tenham se passado mais de 50 anos desde os infames assassinatos de Charles, seu nome e sua infâmia permanecem vivos em livros, canções e filmes até hoje.
O álbum Nebraska, de Bruce Springsteen, é baseado nos assassinatos, e a música "We Didn't Start The Fire", de Billy Joel, cantada pelos membros de "Vingadores: Ultimato" abaixo, faz referência ao homicídio de Charles.
O impacto foi tão profundo que serviu diretamente de fundação para obras fundamentais da contracultura e do cinema policial americano. O filme "Kalifornia - Uma Viagem ao Inferno", com Brad Pitt e Juliette Lewis, também é baseado nos assassinatos de Charles, assim como o aclamado pela crítica "Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, e "Badlands", de Terrence Malick, de 1973.
O que me irritou um pouco sobre este caso horroroso foi o desfecho da maioria das publicações sobre ele: - "Os crimes de Charles e Caril destruíram o idílio de uma era inocente no coração da América."
Essa linha do "fim da inocência" é um enorme clichê que esvazia o verdadeiro peso histórico do caso. A história de Charles e Caril não foi simplesmente o fim de uma era idílica; ela funcionou como o marco zero de fenômenos profundos que moldaram a cultura e o sistema de justiça dos Estados Unidos nas décadas seguintes.
O caso Starkweather foi um dos primeiros assassinatos em série amplamente transmitidos em tempo real pela TV e pela mídia de massa nascente. O pânico nacional que se instalou mostrou às redes de TV o poder avassalador de audiência que o medo e o crime real geravam.
Ali nascia o protótipo da espetacularização do verdadeiro crime moderno e a obsessão norte-americana por coberturas de perseguições e julgamentos de assassinos violentos.
Até o final dos anos 1950, a narrativa do perigo nos EUA era amplamente focada no exterior (Guerra Fria, comunismo) ou em marginalizados sociais específicos nos grandes centros urbanos. Starkweather quebrou essa lógica.
O crime forçou a sociedade americana a internalizar o medo. Ficou evidente que a violência extrema não vinha de fora, mas podia surgir do tédio, do ressentimento social e da revolta da própria juventude suburbana branca que a classe média tentava proteger.
O desfecho cultural foi criar um subgênero permanente no imaginário e na arte pop norte-americana: o casal de jovens rebeldes e niilistas em uma rota de fuga sangrenta e sem propósito claro pelas estradas desérticas.
O caso Starkweather não "destruiu a inocência" da América, ele expôs uma ferida que o país tentava ignorar: o ressentimento de classe, a futilidade da violência jovem e a rapidez com que o horror pode ser transformado em entretenimento de massa na televisão.
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