![]() | - "O futebol é um jogo bonito!", disse certa vez o Rei do Futebol, mas a partida entre Chile e Itália na Copa do Mundo de 1962 teve de tudo ,menos beleza. Hoje em dia, certamente é um jogo muito disputado. Nas últimas décadas, o futebol se tornou um grande negócio, com jogadores ganhando milhões, clubes sendo propriedade de bilionários e mais partidas disputadas do que nunca. A Copa do Mundo deste ano, que reúne seleções nacionais de todo o mundo competindo para serem as melhores, será a maior já organizada e a mais cara já organizada. |

Embora seja compreensível que paixões se exaltem em qualquer esporte, o futebol não tem fama de ser violento, pelo menos não dentro de campo. É por isso que raros casos de violência se tornaram parte da história do futebol.
Veja, por exemplo, a impressionante agressão com os dois pés do craque francês Eric Cantona contra um espectador em 1995, a briga entre os companheiros de equipe do Newcastle United, Lee Bowyer e Kieron Dyer, dez anos depois, ou a brutalidade da final da Copa da Inglaterra de 1970 , na qual Leeds United e Chelsea travaram uma verdadeira guerra.
Nenhum dos incidentes mencionados acima, porém, se compara à partida que ficaria conhecida como "A Batalha de Santiago".
Era 1962, a ocasião era a sétima Copa do Mundo da FIFA e o local era a capital e maior cidade do Chile: Santiago. No dia 2 de junho, os anfitriões, o Chile, entraram em campo para enfrentar seus grandes rivais, a Itália.
ambas as equipes estavam desesperadas por uma vitória para avançar da fase de grupos para as oitavas de final. Sessenta mil torcedores lotavam o estádio para assistir a uma partida que se tornara, para todo o país, uma questão de orgulho.
Seis anos antes, o Chile havia conseguido a votação para sediar o torneio de 1962, e os preparativos transcorreram sem problemas até 1960, quando um terrível desastre natural atingiu o país.
Em 22 de maio daquele ano, o terremoto de Valdivia devastou o país, matando milhares de pessoas, destruindo a economia e arruinando metade dos estádios da Copa do Mundo no Chile. A reconstrução do país a tempo para a competição de 1962 uniu a nação.
Pouco antes do início do torneio, porém, dois jornalistas italianos, Antonio Ghirelli e Corrado Pizzinelli, acenderam uma chama metafórica que rapidamente se transformou em um incêndio.
Escrevendo para o La Nazione e o Corriere della Sera, eles descreveram o Chile como um país de favelas, um lugar atrasado, afirmando que Santiago, em particular, era terrível. Era, escreveram, um lugar onde - “...bairros inteiros são entregues à prostituição a céu aberto."
Como resultado, mesmo antes do início da partida entre Chile e Itália, os ânimos já estavam exaltados. Doze segundos após o apito inicial, a primeira falta do jogo foi cometida.
A partir daí, a situação só piorou com a violência italiana contra a catimba chilena. Ao longo dos noventa minutos, dois jogadores foram expulsos, inúmeros socos e pontapés foram desferidos e a polícia foi chamada ao campo para intervir em pelo menos quatro ocasiões.
A situação ficou tão grave que o comentarista da BBC, David Coleman, descreveria mais tarde a partida como - "...a exibição de futebol mais estúpida, terrível, repugnante e vergonhosa da história do esporte."
A Seleção Brasileira conquistou o bicampeonato ao derrotar a Tchecoslováquia por 3 a 1 na grande final, garantindo o título mesmo após a contusão de Pelé logo no início do torneio.
A edição de 1962 marcou a sétima participação brasileira em sete Copas. A Seleção não participou das Eliminatórias por ter sido a última campeã, o que lhe assegurava uma vaga.
De fato, a Copa foi um exemplo de como não organizar uma competição mundial de futebol. O Brasil, por exemplo, poderia ter sido desclassificado da competição ao escalar Garrincha. Ele foi expulso na partida contra o Chile ao cometer uma falta grave no chileno Eladio Rojas. então como diabos ele pôde participar da final contra a Tchecoslováquia?
Uma comissão da FIFA convocou o bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que assinalou a falta, para depor e ele, misteriosamente, tomou chá de sumiço. Supostamente a CBF pagou a ele uma boa grana (falou-se em 15 mil dólares, boa quantia para a época) para que sumisse do mapa.
O doping correu solto provavelmente. Alfredo Di Stéfano teria dito então que não via nenhum problema em um jogador tomar estimulantes para jogar. O problema, porém, era como combater tal ação. Apesar do exame de urina já existir, não havia uma lista oficial de substâncias proibidas.
Vários atletas naturalizados participaram de sua segunda copa jogando para outros países. Exemplos clássicos incluíam Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás, ídolos respectivamente da Argentina e da Hungria, que nessa Copa jogaram pela Espanha.
Ainda havia o caso de Mazola, que jogou a Copa de 1958 pelo Brasil e em 1962 atuou pela Itália sob seu nome de batismo, José Altafini. E também houve o caso de José Santamaría que jogou a Copa de 1954 pelo Uruguai e que em 1962 jogou pela Espanha.
O árbitro sitiado no centro da tempestade de "A Batalha de Santiago" era um ex-soldado inglês chamado Ken Aston. Ken, compreensivelmente, ficou abalado com esses eventos e, quatro anos depois, introduziu com sucesso o agora padrão sistema de cartões amarelo e vermelho, um método de penalidade fácil de entender que contribuiu muito para garantir que cenas tão lamentáveis nunca mais ocorressem em um campo de futebol.
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