![]() | Por que o ser humano procrastina tanto em um mundo que pode acabar de uma hora para a outra se um maluco como Putin pode apertar um botão vermelho? Por que não diz "Eu te amo!" enquanto pode? Por que não visita seus pais enquanto é tempo? Por que não pede desculpas deixando que a dor do remorso o corroa por dentro? Por que escolhe a amargura quando é tão fácil ser feliz? Essas são umas daquelas perguntas que batem no peito como um soco, porque expõem a maior e mais bizarra contradição da nossa existência. |

Vivemos na corda bamba de um mundo absurdamente frágil, mas agimos como se tivéssemos todo o tempo do universo.
A psicologia e a filosofia tentam explicar esse nosso "bug" de fábrica por alguns caminhos bem reais, como, por exemplo, a ilusão da imortalidade psicológica.
Cérebro nenhum foi programado para operar em estado de pânico constante com a ideia do fim do mundo ou da própria morte. Para não enlouquecer, a nossa mente cria um filtro: a ilusão de que o amanhã é uma garantia.
Tratamos o "Eu do Futuro" como um super-herói que magicamente terá mais coragem, mais tempo e menos orgulho do que o "Eu de Agora". A verdade é que a vulnerabilidade assusta mais do que uma ameaça abstrata. Ligar ou ir ver os pais exige romper a rotina e encarar a passagem do tempo.
Fazia mais de ano que eu não via minha mãe. Inventava desculpas esfarrapadas recorrentes de que "eu não posso dirigir!", "ir de ônibus até Minas seria uma maratona por pelo menos 4 rodoviárias!", "ir de avião seria uma via sacra pelo interior do Paraná e São Paulo!", mas e daí?
Minha mãe esta bem de saúde, o que me levava a falsa crença de que ela vai viver para sempre ou "viver mais do que eu!", mas, de novo, e daí?
Ainda que, no meu atual estado de saúde, haja a possibilidade de que eu passe antes dela, minha mãe tem 89 anos e já está caducando. Fui até o aeroporto e peguei um voo para Itajubá. Foi uma epopeia. A aeronave parecia um ônibus pinga-pinga: umas 10 escalas e duas conexões em mais de 6 horas.
Fazia tempo eu não tinha um fim de semana tão bom e revigorante, cheio de abraços e lembranças boas, mas depois de 48 horas de alegrias minha mãe perdeu a lucidez e começou a me chamar de Sebastião Carlos, meu irmão, com quem aproveitei para fazer as pazes (a gente nunca se bicou). Matei a saudade.
Peguei uma carona até São Paulo com um amigo de infância e tomei um leito até Floripa. Dormi direto e nem precisei gastar uma fortuna no Graal. Desci em Balneário Camboriú.
Decidi colocar os pingos dos "is" da minha vida e depois de 10 anos fui falar com a mãe dos meus filhos. Pedir desculpas exige engolir o orgulho e admitir o erro. Dizer "Eu te amo" abre espaço para a rejeição.
Para o cérebro, o risco emocional imediato de parecer bobo ou ser rejeitado parece muito mais real e perigoso do que a ameaça distante de um botão vermelho em Moscou.
Mas eu pedi desculpas, ainda que indevidas, e diante do descrédito dela ainda disse que a amava como sempre. Foi uma catarse dupla. Depois que minha ex me deixou em casa em Joinville, me senti leve como uma pena, purificado, emocionalmente liberado.
Eu poderia agora dizer que "é tão fácil ser feliz", mas não é bem assim. Quero dizer... é um ideal lindo, mas, na prática, a felicidade dá trabalho. Ela exige presença, pedir desculpas, escolha consciente e esforço.
A amargura e o ressentimento, por outro lado, são confortáveis, escudos que usamos para não nos machucarmos.
Quando somos bombardeados por notícias caóticas e pela velocidade do mundo moderno, nossa energia mental se esgota. Em vez de focar no que realmente importa, nós nos anestesiamos nas pequenas procrastinações do dia a dia (como rolar o feed das redes sociais) para fugir da ansiedade existencial.
O paradoxo humano: somos a única espécie que tem plena consciência de que vai morrer, e justamente por isso, passamos metade da vida fingindo que isso não é verdade.
Adiar o afeto é o nosso mecanismo de defesa mais trágico. Sabendo disso, o que impede você, especificamente hoje, de dar o passo que está procrastinando? Já abraçou ou ligou para seus pais? Disse para sua esposa/marido o quanto a/o ama?
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