![]() | Perder um ente querido pode ser uma das experiências mais traumáticas da vida de uma pessoa. O luto traz consigo uma série de emoções intensas que afetam tanto a nossa saúde mental quanto a física. Mas será que esses sentimentos poderosos podem colocar a sua vida em risco? Em outras palavras, é realmente possível morrer de "coração partido"? Um dos fenômenos médicos mais documentados que abordam essa questão é o chamado "efeito da viuvez", que refere-se a um aumento significativo no risco de morte para indivíduos após a perda de um parceiro de longa data. |

Estudos com casais de idosos revelaram que o risco de morte de uma pessoa pode aumentar em até 90% nos três meses seguintes ao falecimento do cônjuge, levando um número significativo de casais a falecer com apenas meses, semanas ou até mesmo dias de diferença.
Existem muitas teorias para explicar esse efeito. Um estudo constatou que o luto intenso e a depressão estavam associados a níveis mais elevados de proteínas inflamatórias no sangue, o que pode comprometer o sistema imunológico.
Além disso, a depressão, somada à perda de um parceiro que oferecia apoio, pode dificultar a manutenção dos cuidados diários com a saúde. Da mesma forma, o estresse crônico pode alterar os níveis hormonais, prejudicar a digestão e desregular o sistema imunológico.
No entanto, embora todos esses fatores possam reduzir a expectativa de vida, existe outra condição na qual emoções intensas podem colocar a vida de alguém em risco direto: a cardiomiopatia de Takotsubo.
Também conhecida como cardiomiopatia induzida por estresse ou "síndrome do coração partido", essa condição foi descrita pela primeira vez por médicos japoneses em 1990, que a batizaram com o nome japonês de uma armadilha para polvos.
Na cardiomiopatia de Takotsubo, o ventrículo esquerdo, uma das quatro câmaras do coração, acumula sangue e se dilata para fora, adquirindo um formato característico que lembra o takotsubo (armadilha para polvos).
Embora a maioria dos pacientes se recupere ao longo de algumas semanas, cerca de 5% sofrem uma parada cardíaca potencialmente fatal. Embora a causa exata da cardiomiopatia de Takotsubo ainda esteja sendo estudada, a condição frequentemente surge após um evento traumático repentino.
E, como já houve casos desencadeados tanto por um luto avassalador quanto por uma alegria inesperada, é provável que o que importe não seja a natureza da emoção, mas sim a sua intensidade. Eventos emocionais intensos provocam um aumento súbito de dois hormônios: a epinefrina -também conhecida como adrenalina- e a norepinefrina. Ambos interagem com os receptores beta-adrenérgicos, que estão presentes em alta concentração no ventrículo esquerdo.
Acredita-se que, durante a cardiomiopatia de Takotsubo, a adrenalina e a noradrenalina inundam o ventrículo esquerdo, fazendo com que ele se contraia de forma rápida e repetida. Em poucos minutos, essa atividade esgota o ventrículo. Como ele não consegue bombear o sangue com eficiência, o sangue começa a se acumular. Esse pico hormonal também pode provocar espasmos nos vasos sanguíneos que fornecem oxigênio e nutrientes ao coração.
Assim, apesar de haver muito sangue dentro do coração, o tecido muscular em si pode não estar recebendo fluxo sanguíneo suficiente para funcionar. O resultado de tudo isso é uma sensação que muitas vezes lembra um ataque cardíaco, sem que seja, de fato, um.
Pessoas com cardiomiopatia de Takotsubo frequentemente sentem dor intensa no peito e falta de ar, mesmo que suas artérias não estejam obstruídas como ocorreria em um ataque cardíaco.
Essa semelhança nos sintomas também dificulta o diagnóstico da condição, que é facilmente confundida com problemas cardíacos mais comuns. Felizmente, o tratamento inicial para a cardiomiopatia de Takotsubo e para o ataque cardíaco é o mesmo.
Os médicos podem prescrever anticoagulantes para evitar a formação de coágulos no coração e betabloqueadores para reduzir a velocidade das contrações cardíacas.
Além disso, os pacientes podem utilizar anticoagulantes e medicamentos para a pressão arterial a fim de proteger o coração a longo prazo. No entanto, atualmente não existem tratamentos específicos para a cardiomiopatia de Takotsubo.
Também não sabemos exatamente quando ela pode ocorrer. O grupo que parece correr maior risco é o de mulheres na pós-menopausa, talvez porque o estrogênio ajude a prevenir doenças cardiovasculares e a menopausa reduza a produção desse hormônio. Mas, obviamente, qualquer pessoa pode vivenciar emoções traumáticas. A boa notícia é que, na maioria dos casos, os pacientes se recuperam totalmente.
Afinal, embora nosso corpo seja sensível às oscilações emocionais, ele também é resiliente. E, assim como um osso quebrado, até mesmo um coração partido pode se curar com tempo e cuidados.
Estou escrevendo este artigo, depois de muito conversar com minha mãe e vê-la reclamar a morte de meus padrinhos, Renato, irmão de meu pai, e tia Joaninha, esposa dele. Eles sempre foram os melhores amigos de minha mãe e ela tem certeza que ele morreu de amor e repete isso uma vez e outra.
Isso ocorreu quando eu tinha uns 13 anos. A madrinha era o tipo de pessoa que falava mais do que a boca, cheia de energia,"trabalhadeira com uma formiga', como se diz em Minas. O padrinho por outro lado era um homem bucólico, que se comunicava como monossílabos. O amor deles era notório. Não se largavam para nada.
De repente, a tia caiu na cama já sem o bicho-carpinteiro que habitava seu corpo. Um exame revelou que ela tinha adenocarcinoma ductal, o brutal câncer de pâncreas. 4 dias depois ela morreu.
Durante o velório, o tio se tornou uma matraca, falando sobre assuntos aleatórios e fumando um cigarro atrás do outro, coisa que ele não fazia desde que se casou.
Naquela noite, o tio foi dormir na casa da Avó, no meu quarto. No meio da madrugada ouvi um grande gemido e fui olhar: o padrinho já não respirava.
Desde então se espalhou a história de que ele morreu de amor e, até hoje, em todas as casas da minha família tem sempre um pequeno altar com aquelas fotos antigas de casamento dos padrinhos com flores e velas. Eu acho isso meio tétrico.
Na quarta-feira eu perguntei ao Gemini se era possível alguém morrer de amor e ele sugeriu uma farta lista de estudos sobre a cardiomiopatia de Takotsubo.
Sinceramente? Não sei muito o que pensar. Sob a ótica literal e literária, a ideia de alguém "morrer de amor" ou de "tristeza" carrega um romantismo trágico e clássico, que nem Shakespeare concebeu.
No entanto, se olho pelo lado puramente médico e real, a situação perde esse verniz poético, pois na prática, aquele gemido, que me assustou por anos a fio, foi o resultado de uma tempestade avassaladora de hormônios do estresse que "chocou" o coração do padrinho.
A ideia abstrata e o conceito por trás da síndrome têm, sim, uma estética trágica e artisticamente "bonita". Mas a realidade da perda e do sofrimento humano que a precede é, infelizmente, apenas muito triste.
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