![]() | O turismo é uma faca de dois gumes, que o digam os moradores de Vlkolínec, na Eslováquia. O local é conhecido por ser uma das aldeias rurais tradicionais mais preservadas da Europa Central, com um traçado urbano medieval praticamente inalterado. Em 1993, Vlkolínec recebeu o título de Patrimônio Mundial da Unesco e entrou no mapa do turismo de massa. Alguns moradores afirmam que o aumento do turismo está prejudicando a rotina e defendem que a vila seja removida da lista. E não há precedente de uma comunidade pedir voluntariamente para deixá-la. |

A repentina fama viral de Vlkolínec, sob a administração da cidade de Ružomberok, levou a comunidade local ao limite, com os moradores reagindo ao fluxo avassalador de turistas da internet.
O turismo excessivo, impulsionado por algoritmos de redes sociais, transformou áreas residenciais pacíficas em cenários lotados para criadores de conteúdo, perturbando a vida cotidiana e sobrecarregando a infraestrutura local.
Moradores relatam que turistas ignoram placas que proíbem fotografias ou a entrada em propriedades privadas e tratam o local mais como um museu a céu aberto do que como uma comunidade onde os moradores levam uma vida normal.
Ruas estreitas e serviços locais projetados para uma população pequena enfrentam congestionamento severo. O ritmo tranquilo da vila foi substituído pelas exigências aceleradas dos visitantes em busca de selfies.
Antes de toda essa febre da Unesco começar, a vida ali era muito mais tranquila. As pessoas tinham seu próprio ritmo de vida. Não eram constantemente incomodadas por turistas.
- "Quando você sai de casa e só quer sentar em paz, tomar um café ou conversar com os amigos, logo aparece um turista perguntando: 'Como você está? Como é morar aqui?'", disse Seu Antônio. - "Depois vem o segundo, o terceiro, o quarto. E quando a mesma pergunta é feita 200 ou 500 vezes, enche o saco da gente: 'Estou péssimo porque você está me incomodando.'"
Atualmente, apenas 43 pessoas vivem no local durante o ano todo, quase todos idosos ou aposentadoas, mas até 100 mil turistas o visitam anualmente.
As autoridades de Ružomberok reconhecem os desafios gerados pelo turismo, mas argumentam que o reconhecimento ajudou a preservar o vilarejo e garantiu recursos para sua restauração.

Além do prestígio, a Unesco aumentou significativamente a região. Isso valorizou não apenas Vlkolínec, mas também a cidade de Ružomberok e toda a região de Liptov.
Além do reconhecimento internacional, as autoridades afirmam que o status de Patrimônio Mundial ajudou a captar recursos para a conservação do vilarejo. Um grande projeto de infraestrutura está sendo preparado. A expectativa é receber apoio e financiamento da Noruega.
Os moradores podem receber subsídios de até mil euros (R$ 5.966,00) por ano para consertar ou reformar suas casas. Qualquer pessoa que apresente a documentação necessária pode solicitar esse apoio anualmente.
Além disso, cada morador recebe 400 euros (R$ 2.386) por ano provenientes da venda de ingressos. Mas o Seu Antônio afirma que as regras de preservação impedem que o dinheiro seja usado em melhorias como isolamento térmico, o que faz com que muitos moradores ainda dependam da lenha para aquecer as casas.
Muitos visitantes dizem que o selo da Unesco foi justamente o motivo que os levou até a vila, mas os moradores estão reagindo. Para recuperar a paz, a comunidade e as autoridades locais estão considerando ou implementando diversas medidas rigorosas, como a proibição de fotos.
As autoridades de Ružomberok vão instalar placas visíveis proibindo fotografias e filmagens nas zonas residenciais mais movimentadas.
Também deverão fechar certos caminhos panorâmicos ou restringir a entrada apenas a moradores e convidados autorizados.
Há um plano de introdução de penalidades severas para invasão de propriedade, descarte de lixo ou bloqueio de vias públicas.
Mas retirar um lugar da Lista de Patrimônio Mundial seria uma tarefa extremamente difícil.
Se você quiser encher o saco do Seu Antônio, o vilarejo fica situado em uma clareira montanhosa nas Montanhas Veľká Fatra, no norte dos Cárpatos Ocidentais. Ele está localizado a cerca de 10 quilômetros ao sul do centro da cidade de Ružomberok, que administra o local.
Curiosamente, minha cidadezinha natal no Sul de Minas passa por um problema semelhante. Passa Quatro tem potencial turístico, mas permitiu que a exploração hidromineral ficasse nas mãos de um monopólio, que fez com que o turismo se voltasse para pessoas abastadas, enquanto a população local enfrenta desabastecimento e água turva nas torneiras.
Na economia, chamamos isso de "modelo de enclave". Uma riqueza natural abundante é explorada por agentes externos ou por uma elite muito restrita. O lucro é exportado, mas o impacto ambiental e a escassez sobram para os moradores locais.
O turismo, com dois hóteis 5 estrelas e dezenas de pousadas,que deveria ser um vetor de distribuição de renda, passa a focar no público abastado de fora (SP e RJ), inflacionando o custo de vida local sem gerar contrapartidas reais de infraestrutura para quem vive ali o ano inteiro, tropeçando na horda de viciados pedindo "pratinha na rua".
Junte-se a isso a carência de moradias e de políticas habitacionais que fazem com que a população local olhe com ressentimento para os turistas, que sempre encontram boas acomodações e imóveis para alugar.
O ressentimento dos moradores é uma consequência direta da gentrificação. Os imóveis são valorizados para atender ao mercado de temporada e eventos, como a famosa La Mision Brasil (uma corrida de trekking de montanha), empurrando a população local para a periferia.
As medidas para aplacar a falta de moradia para famílias de baixa renda, erguendo conjuntos habitacionais na margem dos rios, são um desastre anunciado diante do risco de uma enchente descendo a serra. É um exemplo claro de injustiça ambiental.
As áreas seguras e nobres ficam para o turismo e para as elites; as áreas de risco, suscetíveis à fúria da natureza que desce a serra, são destinadas aos mais pobres. E quando uma "merda acontece" sempre aparece alguma "otoridade" justificando que "choveu mais em duas horas que em 10 dias". É a perpetuação da vulnerabilidade sob o pretexto de "ação social".
A população ficou eufórica quando esses 2 hotelzões chegaram a Passa Quatro. E estava, mais ou menos, certa: progresso, turismo e mais oportunidades de crescer na vida.
O que ocorreu? O encarecimento artificial do comércio em cidades pequenas como Passa Quatro reflete a turistificação e gentrificação comercial, um fenômeno em que estabelecimentos adotam a lógica de consumo do "hotelzão" e abandonam a realidade financeira dos moradores locais.
Esse descompasso gera exclusão social, inflação dos produtos e serviços básicos e perda de identidade comunitária. Preços de mercados, farmácias e restaurantes começam a se equiparar aos de grandes centros turísticos, sem que os salários locais aumentem na mesma proporção.
Lojas e mercados voltados para as necessidades diárias dos residentes fecham ou mudam de perfil para focar em itens de alto valor agregado.
Assim chega o desgaste social dos moradores: o nativo sente-se marginalizado em sua própria vizinhança, tratado como visitante eventual pelo próprio mercado consumidor.
Especulação nos aluguéis: a chegada de negócios focados em público externo inflaciona os aluguéis de pontos comerciais, forçando o reajuste geral dos produtos. Novas pousadas e resorts focados nos turistas de grandes cidades disparam o valor dos aluguéis residenciais.
Dei uma olhada no AirBnb de Passa Quatro e descobri que a média é de R$ 2 mil por fim de semana, mas há locações que ultrapassam os R$ 10 mil. Isso é comparável a ficar em um hotel 5 estrelas no centro de Paris.
Para piorar tudo, o comércio prioriza o lucro sazonal de turistas em detrimento da fidelidade do cliente residente e até mesmo dos turistas habituais como eu.
Eu tinha o costume de comprar quilos de nozinho (queijo) e parmesão quando ia a Passa Quatro antigamente. Simplesmente adoro!
No entanto, na última vez, o preço me levou a inferir que a queijaria estava funcionando em Nárnia. Fiz as contas e valia mais a pena ir a Treze Tílias comprar os queijos locais e ainda sobrava grana para tomar um bom vinho.
Por falar em Passa Quatro, hoje a cidade comemora 138 anos. Parabéns!
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