![]() | Ontem vi pela enésima vez o vídeo com baixa resolução do "homem-bueiro", um homem que mergulha literalmente em um poço de visita para desentupir a rede de esgoto. Estas imagens começaram a circular na rede em meados de 2020 e me intrigava bastante que não tivesse uma história de fundo. Um logotipo do Tiktok denunciava que foi postada lá, o que explicava a total falta de contexto do mesmo. Muitas suposições foram feitas pela internet sobre o homem-bueiro, mas todas remetiam a natureza indigna do seu trabalho. |

Um meme particularmente estendido dizia que, se o cara que segura a escada tivesse estudado, poderia estar fazendo o trabalho principal.
Chama a atenção que hoje em dia há equipamentos, como bombas, para fazer este trabalho sujo e impróprio.
Mas, como comentou um usuário do X, esse é um expediente comum em país pobres.
-"Não há nada de interessante nisso, são apenas razões econômicas simples", disse o usuário do Twitter. - "Há pessoas dispostas a fazer esse trabalho por pouco dinheiro que não valeria a pena comprar o equipamento."
Ontem decidi cavocar esta história mais a fundo, mas por onde começar já que todas os links sobre o vídeo levam ao mesmo sem nenhum contexto?
Notei que o vídeo ainda tinha um resquício de áudio e ao usar um aplicativo de conversão de vídeo-para-texto descobri que ele falava indonésio. Agora eu já sabia para onde olhar.
Todas as indicações levavam a um blogueiro chamado Yulius Iskandar (@juliuzickboy), que foi a primeira pessoa a entrevistar o homem-bueiro, cujo nome é Mang Uha, morador do bairro de Cicadas, em Bandung, Java Ocidental.
O mais inacreditável desta história é que Mang Uha fez isso por vontade própria, sem receber um tostão, apenas para livrar a comunidade dos entupimentos decorrentes das monções de dezembro.
Cumprida sua nobre tarefa, o homem subiu imediatamente à superfície e brincou com o seu parceiro da escada, Mang Oho.
- "Tem gosto de morango!"
Não havia qualquer traço de preocupação ou irritação em seu rosto; pelo contrário, ostentava um largo sorriso antes de fazer um sinal de positivo para a câmera.
Todos os indonésios que viram o vídeo louvaram a capacidade de Mang Uha de desobstruir o bueiro imundo pelo bem da comunidade onde mora, de fato, ele se tornou uma figura viral e um "herói ambiental" local no final de 2019.
Yulius retuitou o vídeo na conta do prefeito de Bandung, Oded Danial.
- "Quero perguntar a Oded qual prêmio esse nosso herói merece?", escreveu Yulius.
A pressão parece ter dado resultado. Segundo Yulius contou mais tarde, Mang Uha recebeu um prêmio do Distrito de Cicadas, ainda que o valor não foi revelado.
Yulius foi contatado pela mídia para confirmar a autenticidade das filmagens e para dar mais detalhes sobre Mang Uha e seu parceiro, Mang Oho.
Ele também se encontrou pessoalmente com Mang Uha em sua casa e coordenou uma campanha de doação da comunidade para ajudar os dois homens.
Uha já era bem conhecido da vizinhança por seu bom humor e disposição a fazer o bem sem olhar a quem, antes desse episódio.
Ele trabalhou muito anos como condutor de riquixá, mas, dada a sua particularidade de faz-tudo, hoje faz os mais diversos bicos, assentando tijolos e telhas, pintando casas e sendo um querido marido-de-aluguel.
Já Mang Oho, o ajudante da escada, respondendo com muito bom humor o meme em relação a ele, disse que está estudando e simplesmente não vê a hora de enfim ser promovido.
Quando postei o vídeo com melhor resolução da história inspiradora, me ocorreu a constatação de que ele recairá sobre a categoria de Shorts do Youtube. Você já sabe o que vai acontecer né?
O usuário do Youtube vai assistir o vídeo em loop umas 3 vezes e pulará para o próximo sem ler as informações importantes contidas na descrição, que finalmente fornecem um contexto para a história.
Foi por este motivo que decidi criticar os vídeos curtos no post anterior. Eles contribuem significativamente para a disseminação de informações errôneas devido ao seu formato com a falta profundidade e contexto, e os algoritmos das plataformas muitas vezes priorizam o engajamento (como curtidas e compartilhamentos) em detrimento da precisão.
A brevidade do formato de vídeo curto faz com que questões complexas (como saúde, política, ciência e até uma história simples como essa) sejam frequentemente simplificadas em excesso ou apresentadas sem nuances cruciais e informações de contexto. Isso pode levar a uma compreensão distorcida ou superficial do assunto.
Os algoritmos das redes sociais são projetados para maximizar o engajamento do usuário, e conteúdo sensacionalista ou controverso geralmente gera mais visualizações e compartilhamentos.
Quando um usuário interage com um conteúdo enganoso, o algoritmo recomenda mais vídeos semelhantes, criando "câmaras de eco" que reforçam crenças falsas e limitam a exposição a perspectivas diversas e factuais.
As descrições costumam ser mínimas ou "ocultas", como no caso dos Shorts e dos Reels e pode ser difícil identificar a fonte original de muitos vídeos devido à ampla republicação. Isso obscurece a responsabilidade e dificulta a verificação das informações por parte dos usuários em fontes confiáveis.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários