
A maioria (85%) dos detentos são réus em prisão preventiva, mantidos sob fiança ou em custódia. O restante dos internos foi condenado e está cumprindo penas curtas.
A Ilha Rikers tem uma reputação de violência, abuso físico e mental e negligência para com seus detentos, e atraiu a atenção da imprensa e do judiciário, resultando em inúmeras decisões contra o governo da cidade de Nova York.
Numerosas agressões ocorreram por parte de detentos contra policiais e outros funcionários civis, frequentemente resultando em ferimentos graves. Em maio de 2013, a Ilha Rikers foi classificada como uma das 10 piores instalações correcionais de todos os Estados Unidos.
Enquanto o problemático complexo penitenciário da cidade de Nova York tenta melhorar a qualidade da sua alimentação, as pessoas que cozinham lá enxergam uma missão maior.
E enquanto estão em seus turnos, os cozinheiros também ficam trancados lá dentro. Há câmeras por toda parte, monitoradas do escritório dos guardas. Facas cegas são acorrentadas a máquinas pesadas.
Tampas de latas deslizam para dentro de uma gaiola trancada. Colheres são trancadas no escritório. Dentro das cozinhas de Rikers, existe um delicado equilíbrio entre os cozinheiros, os guardas e os detentos que lavam a louça.
Em 2025, o chef Luis Reina estava preparando o jantar para uma multidão: ensopado de peru, arroz e salada de pepino. As receitas são simples: picar os legumes, dourar a carne, mas o processo estava longe de ser fácil.
Cada caixa de ingredientes tinha que ser revistada em busca de contrabando. A faca estava presa ao balcão por uma corrente resistente, e as colheres de metal vinham de um armário guarnecido por seguranças.

As tampas afiadas das latas de tomate tinham que ser jogadas em uma lata de lixo dentro de uma gaiola trancada. Vários auxiliares de cozinha estavam vestidos com macacões e eram cuidadosamente revistados antes de começarem a preparar a refeição para 6.800 pessoas.
Luis, de 56 anos, é cozinheiro em Rikers Island faz 29 anos. Ele viaja duas horas de Flatbush, no Brooklyn, para preparar refeições para a população carcerária e funcionários, juntamente com cerca de 50 outros cozinheiros, na maior das duas cozinhas da ilha.
Ela funciona 24 horas por dia, e os cozinheiros preparam o café da manhã, o almoço e o jantar de todos os detentos.
Alguns detentos, todos eles infratores não violentos, trabalham nas cozinhas de Rikers e recebem um salário de US$ 1,45 por hora.
Luis diz estar frustrado com a má qualidade das refeições, em que cada ingrediente e receita são ditados pelo Departamento Correcional da cidade. A maioria das frutas e verduras chega à prisão enlatada ou congelada. O sal está fora de questão, proibido desde 2014 por motivos de saúde.
- "As pessoas dizem que a comida em Rikers Island é horrível, e responsabilizam os cozinheiros":, disse Luis. - "Mas eu só cozinho o que me mandam cozinhar."
Rikers, é claro, não é uma instituição municipal qualquer. Abrigando cerca de 6.600 adultos, a maioria aguardando julgamento e outros cumprindo penas de menos de um ano, a prisão tem sido alvo de críticas há décadas devido às condições desumanas e à violência descontrolada.

Um juiz federal recentemente considerou a cidade culpada de desacato por não resolver esses problemas, o que pode levar à intervenção de um tribunal federal em Rikers. A cidade tem um prazo para fechar a prisão até agosto de 2027 e substituí-la por quatro centros menores, uma exigência legal que dificilmente será cumprida.
Enquanto isso, a cozinha de Rikers nunca fecha. E uma reformulação do cardápio não aliviará os rigores do trabalho dos cozinheiros: turnos de oito horas confinados atrás de uma longa série de portas trancadas, por um salário inicial anual de US$ 38.858.
A experiência deles pode ser estranha: embora os cozinheiros digam que não se sentem em perigo, o espectro da violência ainda paira sobre o complexo. Apesar de trabalharem com alguns detentos, eles nunca veem a maioria das pessoas que alimentam.
Muitos utensílios de cozinha são guardados em armários trancados, e a cozinha é monitorada por câmeras de segurança.
No entanto, vários cozinheiros entrevistados pelo New York Times disseram que viam o trabalho como uma oportunidade de fazer a diferença na vida dos detidos, proporcionando-lhes uma rara lembrança de sua humanidade: uma refeição.
O trabalho de Luis envolve muito mais do que cozinhar: ele se considera um terapeuta, instrutor e mentor para os detentos que o ajudam na cozinha. Ele nunca pergunta a eles o que fizeram para acabar em Rikers.
Uma colega de trabalho, Tamara Craddock, disse que as refeições são "a única ligação que os rapazes têm para manter a sanidade". A comida não só humaniza as pessoas, disse ela, como também as estabiliza; se houvesse escassez, haveria tumultos.
Os cozinheiros geralmente não compartilham muita informação: usam apenas o sobrenome e não conversam sobre suas vidas pessoais com os detentos, por motivos de segurança.

Os cozinheiros estão animados com a nova formulação do cardápio porque ela envolve cozinhar de verdade. Atualmente, eles ainda passam boa parte do tempo descongelando alimentos embalados, como burritos e pizzas congeladas, que sabem que os detentos não gostam.
- Os carrinhos voltam cheios", disse Tamara. - "A maior parte da comida acaba no lixo."
A cozinha fica localizada no interior do Centro Anna M. Kross, uma prisão desativada de 47 anos, separada das celas dos detentos, após longos corredores repletos de impressões de mãos pintadas, placas com os dizeres "Proibido Falar" e pequenas janelas com vista para quadras de basquete e cercas de arame farpado.
Muitos dos alimentos nos cardápios atuais são embalados e congelados, e impopulares entre os detentos, segundo os cozinheiros.
Recentemente os cozinheiros foram treinados para preparar pratos como macarrão com queijo e abóbora cabotiá e sancocho vegano, um ensopado porto-riquenho muito apreciado, pela Hot Bread Kitchen, a organização sem fins lucrativos que está reformulando o cardápio.
Os objetivos iniciais são modestos: os novos pratos à base de plantas serão incorporados a duas refeições por semana, com a meta de aumentar para quatro refeições em nove a doze meses.
Diamond Wynn, instrutora culinária da ONG, quer mudar essa mentalidade. Na sala de descanso, ela ensinou aos cozinheiros as diferenças entre assar e cozinhar no forno e ofereceu uma bandeja de macarrão com queijo para eles experimentarem.
Diamond e sua equipe vivenciaram em primeira mão as limitações da cozinha de Rikers enquanto desenvolviam receitas. Nada de picar com precisão; as facas estão cegas e o tempo é curto. Nada de molhos que precisem ser batidos; não há liquidificador industrial. E nada de sal.
Luis, imigrante panamenho e pai de seis filhos adultos, cozinha em Rikers há tempo suficiente para se lembrar de quando a prisão servia pratos como frango frito, pizza e costeletas de porco assadas, antes da alimentação ser substituída por pratos mais saudáveis em 2010.
Ele ocasionalmente se desvia da receita e realça o sabor de um prato com um pouco de molho de soja ou pimenta-do-reino. Mas não importa o que ele cozinhe, os detentos reclamam.
- "Em meus 29 anos de experiência, é impossível agradá-los", disse ele. - "Aqui não é nenhum restaurante de luxo, mas fazemos o melhor que podemos com o que temos."
Muitos dos cozinheiros estão torcendo o nariz por acreditar que o novo cardápio vai piorar ainda mais a situação. Se carne sem sal é um asco o que será de comida vegana sem sal?
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