![]() | Os marroquinos tem boas lembranças de festivais rurais chamados moussems, que mostram trupes montadas de tbouridas. A tbourida, uma tradição equestre secular, é um esporte para espectadores em que equipes de cavaleiros simulam uma carga de cavalaria em uma pista de terra, conduzindo seus cavalos com precisão sincronizada e firme. A cavalgada termina quando os cavaleiros, agindo em uníssono, com seus cavalos a galope, levantam um par de rifles de estilo antigo e disparam juntos uma única e estrondosa salva de tiros. |

A prática recebe seu nome da palavra árabe para "pólvora" e, embora seja realizada em outras partes do Norte da África, é particularmente apreciada no Marrocos.
Antigamente, os cavaleiros de tbourida eram quase exclusivamente homens. Mas um dia, em 1999, o cavaleiro de uma trupe faltou, e uma garota chamada Zahia Aboulait, então com 14 anos, pediu ao pai para substituí-lo. Ela cavalgava desde os seis anos e assistia e aprendia tbourida há quase o mesmo tempo.
Seu pai, que incentivava a paixão da filha, não viu problema em deixá-la montar. Ele lhe emprestou uma de suas longas vestes tradicionais, chamada djellaba, e ela a vestiu por cima de calças de moletom e tênis.

Quando ela insistiu e pediu uma arma, ele lhe deu uma e mostrou como carregar a pólvora-negra (sem balas). O que Zahia se lembra daquele dia é de como as pessoas na multidão, que provavelmente nunca tinham visto uma mulher cavalgando, tiraram centenas de fotos dela, assim nasciam as farīsāts.
Nos 27 anos que se seguiram, as mulheres conquistaram seu espaço no tbourida. Hoje em dia, Zahia é uma das cavaleiras mais conhecidas do país, líder de seu próprio grupo formado exclusivamente por mulheres, um dos poucos grupos existentes em todo o Marrocos, talvez entre mil, parte de um pequeno círculo de mulheres veteranas que ajudaram a mudar a percepção sobre o que a tradição pode representar.

Agora, mesmo com a explosão de vídeos de tbourida nas redes sociais, levando o esporte a novos públicos globais, Zahia se vê em transição de pioneira para mentora, treinando a próxima geração de jovens mulheres para dar continuidade a um costume com profundas raízes históricas.
A tbourida remonta ao século XVI, e os cavaleiros de hoje honram essa herança com trajes tradicionais que frequentemente incluem espadas árabes norte-africanas de estilo antigo.

A tbourida é praticada no Marrocos desde pelo menos o século XVI, tendo evoluído de um exercício militar para um esporte que mescla os costumes equestres das populações árabes e berberes indígenas do país.
Reconhecida pela UNESCO como um patrimônio cultural imaterial essencial, é por vezes chamada de fantasia, um apelido exótico dado pelos franceses do século XIX e amplamente ridicularizado no Marrocos.

Os participantes, tanto humanos quanto equinos, geralmente vestem trajes tradicionais elaborados, e os cavaleiros carregam rifles finos de carregamento pela boca que evocam uma era anterior.
Cada apresentação dura apenas alguns segundos, uma saraivada de cascos e expectativa crescendo em direção àquela salva perfeita. Quando a sincronia entre cavalos, cavaleiros e rifles é perfeita, a multidão explode em aplausos. Os grupos são julgados por sua precisão, pompa e habilidade equestre.

Durante séculos, a tbourida foi considerada “uma performance masculina”, uma exibição de habilidades guerreiras da qual as mulheres eram tradicionalmente excluídas. Os primeiros grupos femininos de tbourida, começaram a se formar em meados dos anos 2000, depois de Zahia.
Essa mudança uma revolução silenciosa, não o resultado de protestos ou agitações. Tampouco foi precipitada por qualquer alteração específica nas regras ou políticas.
O surgimento das farīsātscoincidiu com uma campanha da primeira presidente mulher da fundação equestre nacional do Marrocos, membro da família real do país, para promover a participação feminina nos esportes equestres.
Zahia continuou cavalgando com a trupe de seu pai, chamada sorba, até os 20 e poucos anos. Mas ela ainda era adolescente quando fundou sua própria sorba, composta por amazonas. Trupes com homens e mulheres ainda são raras.
Elas encontraram pouca resistência direta, e embora algum cavaleiro possa ser hostil, muitos são prestativos e corteses, oferecendo-se para emprestar rifles ou permitindo que sua sorba cavalgue primeiro.
Hoje, Zahia vive em Casablanca, onde trabalha na área de administração de empresas e cria três filhos. Mas, durante o verão, ela percorre o circuito de moussem, liderando um grupo de mulheres mais jovens que ela mesma selecionou e treinou para serem amazonas.
Como líder do grupo, ou muqadema, ela é responsável por muito mais do que simplesmente cavalgar na frente da fila. Ela é responsável por encontrar cavalos emprestados adequados para suas parceiras quando elas não têm os seus próprios.
Ela cuida do guarda-roupa e das finanças do grupo. Ela lidera os treinos e as sessões de aquecimento, garantindo que suas cavaleiras aprendam a manobrar seus cavalos e rifles em perfeita sincronia.
As amazonas vestem trajes de época que representam sua tribo ou região e carregam uma espada e um pequeno exemplar do Alcorão. Frequentemente, atribuem um significado espiritual ao evento, realizando rituais de purificação wudus e orações coletivas duas antes da apresentação. É importante que elas montem em seus cavalos com a mente tranquila e em harmonia.
As farīsāts muitas vezes enfrentam altos custos pessoais, financiando os próprios cavalos e equipamentos para provar seu devido lugar no patrimônio cultural. A tradição é transmitida de geração em geração dentro das famílias e exige grande habilidade equestre, equilíbrio e coragem.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários