![]() | Se você mora em Joinville, certamente já ouviu falar de lendas como a "Noiva da Ponte"", o "Bonitão de Casco dos Bailões" e a "Rosa-do-Pé-Inchado, que fazem parte do imaginário local. A maior cidade de Santa Catarina, conhecida hoje pela indústria, pelo desenvolvimento e pelo altíssimo IDH, carrega nas suas ruas ecos de lendas repletas de mistérios. Entre as ruas do centro antigo, a biblioteca pública e salões de bailes, lendas urbanas atravessam gerações e continuam a intrigar quem vive ou visita a cidade. |

Criado pelo Gemini.
A mais conhecida delas é a lenda da Rosa-do-pé-inchado, que eu decidi contar neste post parque não é necessariamente uma lenda urbana. Ela foi baseada em uma pessoa de carne e osso chamada Rosa Corrêa (1913–1995), que eu cheguei a ver na cidade.
A lenda dizia que uma senhora idosa e enigmática perambulava incessantemente pelas ruas centrais de Joinville carregando uma bengala enferrujada e com os pés gigantescos e totalmente enfaixados.
O imaginário popular afirmava que ela andava sem parar porque sofria por um grande amor não correspondido do passado e vagava em busca do que havia perdido.
Para as crianças das décadas de 1970 e 1980, ela virou uma espécie de "bicho-papão" urbano; os pais diziam que quem se comportasse mal seria pego pela Rosa-do-pé-inchado.
A história real é muito mais ligada à vulnerabilidade social e à saúde pública do que ao sobrenatural. Rosa Corrêa nasceu em Araquari em 1913 e foi criada por parentes porque se tornou órfã muito cedo. Ela mudou-se jovem para Joinville, onde chegou a trabalhar como ajudante no Hospital São José.
Depois foi morar em Curitiba, onde trabalhou na casa de um farmacêutico. Foi lá na capital paranaense que Rosa teve uma filha. Outro mistério. Uns contam que ela engravidou de um médico que trabalhava no São José, outros afirmam que a filha era do farmacêutico de Curitiba. Porém, Rosa nunca contou quem era o pai de sua filha.
Outra coisa que chamava a atenção das pessoas sobre a figura da Rosa era a sua aparência na juventude: era uma loira linda de olhos azuis que monopolizava os olhares masculinos.
Mais tarde na vida, quanto voltou para Joinville e começou a vagar pelas ruas, ela já sofria de um problema grave de circulação ou erisipela (infecção bacteriana).
Outros relatos explicam que seria por um problema circulatório, devido a um choque térmico comum em pessoas que cozinhavam ao nível do chão e depois iam ao rio lavar roupa, o que teria causado o choque.
Como sentia dores, feridas e frio, ela enfaixava os pés com panos, jornais e meias grossas para conseguir caminhar, o que dava a impressão de que seus pés eram deformados ou gigantescos. Algumas pessoas afirmavam que esta indumentária ajudava-a ganhar esmolas.
No frigir dos ovos, Rosa era apenas uma cidadã de temperamento reservado que, na idosidade, adotou a caminhada diária como rotina urbana e muitas vezes se mostrava rabugenta com a curiosidade que ela própria despertava.
Rosa tinha cara de "poucos amigos", mas era, segundo a maioria das pessoas que a conheceram uma pessoa dócil e muito educada. No entanto, quando era insultada, uma marinheira bêbada surgia com todo fulgor
Rosa faleceu em dezembro de 1995 devido a complicações de saúde, possivelmente por necrose tecidual (gangrena), (sepse) e danos crônicos ao sistema linfático. Mas ninguém sabe ao certo porque sua certidão de óbito não é conhecida.
Como uma história recente como essa virou lenda? O processo de folclorização da Rosa aconteceu de forma acelerada por três fatores principais:
- Tradição oral pré-internet. Nas décadas de 1970 a 1990, as fofocas e o "boca a boca" de uma cidade média moldavam o imaginário local muito rápido, sem checagem de fatos.
- Estereótipo do medo. Figuras excêntricas ou marginalizadas que fogem do padrão visual da sociedade são historicamente transformadas em mitos (como o "Homem do Saco").
- Explicação lúdica. O mistério visual de seus pés cobertos fazia com que a população criasse narrativas fantásticas (como a do romance perdido) para preencher o vazio da falta de informação real sobre a vida dela.
Essa velocidade em virar lenda, mesmo para quem testemunhou a presença dela como eu, acontece por um fenômeno social muito específico. Quando uma figura marcante faz parte do cotidiano de uma cidade, a transformação em mito não precisa de séculos; ela acontece em tempo real, porque mesmo sendo vista por milhares de pessoas todos os dias, quase ninguém sabia o nome real da Rosa, onde ela morava ou qual era a sua história.
O ser humano tem uma necessidade natural de preencher vazios de informação. Na ausência de fatos, a imaginação coletiva cria narrativas fantásticas para explicar o que choca os olhos.
Quem era criança nas décadas de 1970, 1980 e 1990 ouvia histórias distorcidas dos pais ou de colegas de escola. Para uma criança, ver uma figura que já vinha carregada de mistério e avisos como "se não se comportar, a Rosa te pega" transformava a experiência real em um evento quase sobrenatural. Quando essas crianças cresceram, levaram consigo a memória dramatizada da infância.
Figuras urbanas excêntricas são a matéria-prima perfeita para o folclore. Cidades precisam de mitos locais para construir sua identidade cultural e sua "mitologia moderna". Ao transformarem a Rosa em lenda, os moradores de Joinville, inconscientemente, eternizaram uma personagem que fazia a cidade parecer única e misteriosa.
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