![]() | Ao refletir sobre uma vida se desenvolveu, a pessoa pode se perguntar como isso aconteceu. Quanto disso ela pode atribuir, ou talvez culpar, sua família? Certamente muita coisa. Você provavelmente se parece com seus irmãos na aparência, saúde, temperamento e bem-estar psicológico. Mas isso se deve aos mesmos genes ou ao fato de terem sido criados pelos mesmos pais? A questão da natureza versus criação existe há muito tempo. É por isso que os cientistas têm tanto interesse em estudos com gêmeos. |

Gêmeos idênticos têm os mesmos genes, então há um fator que pode ser controlado. Mas a maioria dos gêmeos também compartilha o mesmo ambiente.
As pesquisa sobre gêmeos idênticos, que compartilham 100% do seu DNA) e gêmeos fraternos, 50%, ensinaram a ciência que quase todas as características humanas são uma parceria.
Estudos revelaram que a genética molda características físicas, personalidade e inteligência, mas fatores ambientais ditam fortemente como essas características se manifestam na prática.
Ao longo do século XX, os cientistas puderam estudar o fenômeno de gêmeos criados separadamente, o que abriu uma nova porta para responder à questão da natureza versus criação.
No entanto, hoje o famoso debate sobre a evolução da natureza versus a evolução da criação é amplamente considerado obsoleto na ciência moderna. Os pesquisadores não perguntam mais se a natureza ou a criação vence, mas sim como elas interagem.
Estudos de longo prazo estimam que cerca de até 50% da variação nas características humanas é atribuível à genética. No entanto, isso significa que a outra metade é moldada inteiramente pelo ambiente e estilo de vida.
Os cientistas descobriram a epigenética, o estudo de como fatores ambientais, como dieta, estresse e toxinas, alteram a expressão gênica, em vez do próprio código genético.
Isso explica por que gêmeos idênticos podem desenvolver susceptibilidades a doenças ou personalidades completamente diferentes à medida que envelhecem.
Assim, a ciência descobriu que as experiências únicas de um gêmeo, como grupos de amigos individuais, doenças pessoais ou eventos de vida distintos, têm um impacto maior na personalidade e na saúde mental do que o ambiente familiar compartilhado ou a genética.
O que me deixa verdadeiramente inculcado é o cenário perturbador que tornou possíveis muitos destes estudos. Por que tantos gêmeos idênticos foram criados separados em pesquisas à borda da ética? Como descobrir isso mais tarde na vida afeta os estudos e os "voluntários"?
As respostas são complicadas. O cenário que tornou possíveis os estudos de gêmeos criados separados é uma das páginas mais sombrias e eticamente indefensáveis da história da psicologia moderna.
O caso mais emblemático ocorreu em Nova York durante as décadas de 1960 e 1970, envolvendo a agência de adoção Louise Wise Services e psiquiatras renomados como o Dr. Peter Neubauer.
Por que tantos gêmeos foram deliberadamente separados? A separação forçada ocorreu devido a uma combinação perversa de brechas legais, ambição científica e racionalizações teóricas absurdas.

Peter Neubauer
Na década de 1960, as regulamentações para pesquisas humanas e os comitês de ética (IRBs) ainda não eram consolidados como hoje. Cientistas tinham enorme autonomia para ditar os rumos de seus experimentos.
A consultora psiquiátrica da agência de adoção, Viola Bernard, defendia a tese de que separar gêmeos era benéfico para os bebês. Ela alegava que a separação evitaria a rivalidade e permitiria que cada criança desenvolvesse uma identidade individual única.
Sabendo dessa política interna da agência, Peter Neubauer viu uma oportunidade científica sem precedentes. Ele desenhou um estudo para acompanhar o desenvolvimento dessas crianças em tempo real. Os bebês foram alocados em famílias com perfis socioeconômicos específicos (classe alta, média e baixa) para testar exatamente o peso da natureza contra o ambiente.
As famílias adotivas e as crianças nunca foram informadas de que os bebês tinham irmãos gêmeos. Os pais acreditavam que as visitas periódicas dos pesquisadores, que gravavam os jovens e aplicavam testes psicológicos, faziam parte de um acompanhamento rotineiro de desenvolvimento da agência.
Como a descoberta tardia afeta os estudos e os dados? A revelação desse segredo, que veio a público décadas depois, quando os gêmeos começaram a se encontrar por acaso, retratado no artigo "Três estranhos idênticos", que conta a sinistra história dos trigêmeos que foram separados no nascimento, implodiu a utilidade científica do próprio experimento.
A descoberta abrupta causou imenso sofrimento psíquico. Muitos participantes desenvolveram depressão profunda e crises graves de identidade, e um dos trigêmeos do estudo de Peter cometeu suicídio.
O estresse pós-traumático e o ressentimento tornam qualquer avaliação comportamental subsequente enviesada e metodologicamente inválida.
Devido ao escândalo ético e ao medo de processos judiciais, os resultados da pesquisa de Peter nunca foram formalmente publicados. Os arquivos originais foram doados e selados na Universidade de Yale com acesso restrito até o ano de 2065, impedindo que a comunidade científica valide ou utilize as informações. Em 2018, cerca de 10.000 páginas foram liberadas, mas estavam fortemente censuradas e inconclusivas.
Como a imensa maioria dos estudos éticos de gêmeos separados depende de irmãos que se reencontram voluntariamente mais velhos, os cientistas enfrentam o "viés de retrospectiva". Gêmeos que se parecem muito têm mais chances de chamar a atenção e buscar a mídia ou a ciência, superestimando o peso da genética nos dados globais.
- "Neubauer era um homem extremamente frio e calculista", disse Nancy Segal, uma psicóloga que entrevistou o psiquiatra para escrever um livro sobre o episódio. -"O que mais me impressionou foi que ele não mostrava nenhum remorso pelo que havia feito. Ele ainda sentia que tinha feito a coisa certa. Mas... para quem?"
Peter Neubauer nunca foi preso ou processado criminalmente porque, sob a ótica estrita das leis americanas das décadas de 1960 e 1970, as suas ações não configuravam crimes previstos no código penal.
Embora o experimento tenha sido uma óbvia e monstruosa violação ética, a ausência de leis específicas e um intrincado esquema de proteção jurídica o blindaram de punições legais.
A agência de adoção Louise Wise Services tinha a guarda legal das crianças, ou seja, a separação física dos bebês não foi feita de forma clandestina pelo psiquiatra. Quem separava os gêmeos e trigêmeos era a própria agência, amparada por uma política interna desenhada por sua consultora psiquiátrica, a Viola Bernard. Como a agência detinha a guarda legal dos bebês entregues pelas mães biológicas, ela tinha o poder jurídico de decidir o destino das crianças.
Tecnicamente, a agência não "sequestrou" ninguém; ela apenas encaminhou os irmãos para famílias diferentes e Peter apenas se aproveitou dessa brecha institucional e legal para estudar as crianças que a agência já havia decidido separar.
Para evitar que os pais adotivos desconfiassem ou processassem a instituição por quebra de contrato, os pesquisadores mascararam o experimento. As visitas anuais que Peter e seus assistentes faziam às casas das famílias, onde filmavam as crianças e aplicavam testes psicológicos, eram apresentadas como um "serviço padrão e obrigatório de monitoramento pós-adoção" oferecido pela própria agência.
Juridicamente, os pais assinaram contratos de adoção que permitiam que a agência acompanhasse o desenvolvimento dos menores.
Pelo menos três dos irmãos separados morreram por suicídio. Quando os irmãos afetados tinham idade e maturidade para entender a gravidade do que havia sido feito e cogitaram mover ações civis por danos morais e fraude contra o Conselho Judaico de Serviços Familiares e Infantis, o órgão que absorveu a agência de adoção, os prazos legais para processá-los já haviam expirado há muitas décadas.
- "Neubauer era um homem extremamente frio e calculista", disse Nancy Segal, uma psicóloga que entrevistou o psiquiatra para escrever um livro sobre o episódio. -"O que mais me impressionou foi que ele não mostrava nenhum remorso pelo que havia feito. Ele ainda sentia que tinha feito a coisa certa. Mas... para quem?"
Supostamente Peter disse a ela que, com base em seus dados, os genes têm uma influência mais generalizada do que pensamos e que a maioria dos gêmeos separados envolvidos na pesquisa acabou sendo extremamente parecido apesar de nunca terem se conhecido, a mesma conclusão em que chegaram outros estudos sérios e respeitadores do código de ética.
Peter Neubauer continuou sua carreira como um renomado psicanalista em Nova York e morreu de velho impune em 2008, aos 94 anos, sem demonstrar qualquer arrependimento e defendendo até o fim que a pesquisa traria grandes contribuições para a ciência.
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