![]() | A obesidade atingiu proporções epidêmicas a nível mundial, e a cada ano morrem, no mínimo, 2,8 milhões de pessoas por causa da obesidade ou sobrepeso. Ironicamente, inclusive morrem mais pessoas devido a obesidade do que por fome. No entanto, estes números não são tão altos como outro fator que ainda mata mais gente, ainda que nem sequer seja considerado uma patologia: a solidão. Segundo um estudo realizado pela Universidade Brigham Young em Utah, nos Estados Unidos, as duas grandes ameaças para a sobrevivência das pessoas, acima da obesidade, é a solidão e o isolamento social. |

Este foi o resultado de duas metanálises, que revelaram que a solidão e o isolamento social podem aumentar o risco de morte prematura até em 50%. A primeira metanálise incluiu mais de 300.000 adultos em 148 estudos, enquanto a segunda incluiu 70 estudos com mais de 3,4 milhões de adultos.
Nosso planeta pode estar mais conectado do que nunca, mas pesquisas de abrangência global apontam que 50% dos brasileiros afirmam se sentir sozinhos. Este índice coloca o Brasil em 1º lugar no ranking de solidão entre 28 nações pesquisadas pelo Instituto Ipsos, ultrapassando a média global de 33%.
Então, você deveria se preocupar se sente o mesmo? A solidão é um mecanismo psicológico projetado para motivá-lo a buscar interações sociais, mas é algo altamente subjetivo. Se você se sente solitário, então você está solitário. E isso não significa necessariamente que você seja uma pessoa isolada ou que não tenha amigos; significa apenas que as interações sociais de que você precisa não estão sendo supridas.
Claro está: há uma grande diferença entre estar sozinho e sentir-se solitário. Se você está sozinho porque gosta da solidão, isso não deveria ser um problema. Mas se você se sente sozinho e não quer estar, isso é solidão de verdade.
Frequentemente, pensamos na solidão como algo que afeta os idosos, mas o Estudo da Solidão da BBC, um dos maiores estudos globais já feitos sobre o tema, envolvendo mais de 55 mil pessoas, descobriu que 40% dos participantes entre 16 e 24 anos afirmaram se sentir solitários com frequência. Em comparação, apenas 27% dos maiores de 75 anos relataram o mesmo.
Os cientistas descobriram que a solidão agravava os sintomas de resfriado. Centenas de pessoas saudáveis responderam a um teste de escala de solidão e, em seguida, receberam gotas nasais contendo o vírus do resfriado comum.
Depois, esses participantes, que tiveram a doença induzida, ficaram em quarentena em quartos de hotel por cinco dias; aqueles que relataram maior solidão antes do teste também relataram sintomas de resfriado mais intensos.
Você já reparou que a comida tem um gosto melhor quando estamos com fome? Cientistas observaram o mesmo fenômeno em relação à solidão. Ao serem submetidos a exames de ressonância magnética funcional (fMRI) e expostos a imagens de uma pessoa querida ou de um estranho, os indivíduos com pontuações mais altas na Escala de Solidão da UCLA apresentaram uma resposta mais intensa no sistema de recompensa do cérebro ao verem a foto de uma pessoa querida, enquanto aqueles que não se sentiam tão solitários tiveram respostas semelhantes para a pessoa querida e para o estranho.
Isso nos mostra que o problema não é a falta de relacionamentos próximos, mas sim o desejo de maior interação social. A solidão crônica também pode alterar o organismo em nível celular.
Pessoas solitárias apresentam 209 expressões gênicas diferentes em alguns de seus glóbulos brancos, incluindo uma atividade aumentada de fatores de transcrição pró-inflamatórios. Embora a inflamação seja uma resposta importante a lesões, a inflamação crônica causa sérios danos ao corpo.
Como resultado, observa-se que relações sociais precárias estão associadas a um aumento de 29% no risco de doença arterial coronariana e de 32% no risco de acidente vascular cerebral (AVC).
De modo geral, pessoas com fortes laços sociais têm 50% mais chances de sobrevivência, ou seja, a probabilidade de morrerem durante um mesmo período é bem menor, o que torna a solidão um fator de risco tão letal quanto fumar 15 cigarros por dia, o sedentarismo ou a obesidade!
Portanto, sim: a solidão pode aumentar o risco de morte. E o aumento do número de pessoas solitárias pode estar ligado a mudanças culturais; o capitalismo global e seu foco no indivíduo alteraram nossa capacidade de estabelecer conexões sociais.
Se você se sente solitário, saiba que não está sozinho. O sistema de saúde brasileiro atua na prevenção através de unidades básicas, enquanto o SUAS utiliza os CRAS (Centros de Referência da Assistência Social) para promover convivência e criar vínculos.
Um pequeno passo que você pode dar hoje para se sentir mais conectado? Tente fazer contato visual de forma mais intencional, seja com conhecidos ou até mesmo com alguém que cruze o seu caminho na rua. Dê bom dia para todo mundo. D~e um tchau para um desconhecido. Pode ser constrangedor, mas é divertido, quando ademais você pode criar um laço de amizade.
Estudos mostram que o contato visual é um gesto que faz com que ambas as partes se sintam mais conectadas à humanidade.
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