![]() | Para quem nunca chegou nem perto do cheiro da marijuana, o universo da maconha não é uma questão de biologia ou botânica... é um filme de Hollywood com efeitos especiais de baixo orçamento. Na cabeça de um leigo total, quando alguém dá um tapa na "erva do capeta", o que acontece não é uma simples onda de relaxamento. Eles acham que o processo é mais ou menos a abertura interdimensional entre o mundo real e a porta dos infernos para dar uma soneca no colo do cramulhão. |

O cinema ensinou para o careta que, na primeira tragada, os olhos da pessoa não ficam apenas levemente vermelhos, eles viram duas bolas de gude incandescentes, emitindo um brilho carmesim que seria perfeitamente visível no escuro. As pálpebras caem instantaneamente para um ângulo exato de 45 graus, travadas por um magnetismo invisível.
Quem está de fora jura que o chapado entra em um buraco negro cinematográfico. Eles acham que você está vendo dragões cor-de-rosa voando pela sala, conversando com o sofá sobre a geopolítica da Europa Oriental ou tentando decifrar o significado oculto na estampa do azulejo do banheiro. Para o leigo, não existe "ficar de boa"; existe "fui transportado para um videoclipe psicodélico dos anos 70".
Na imaginação popular, a larica não é a vontade de comer um misto-quente. É um estado de possessão demoníaca gastronômica. Eles visualizam o sujeito misturando leite condensado com sardinha, passando maionese na melancia e devorando o reboco da parede, se bobear. Acham que o estômago do maconheiro vira um buraco negro capaz de falir um rodízio em 15 minutos.
Para quem vê de fora, o relógio do chapado derreteu. Eles acham que para você responder a um simples "Tudo bem?", o seu cérebro precisa processar as ondas sonoras por 2 minutos; consultar os arquivos da biblioteca do Vaticano, 3 minutos; formular a palavra "Sim, 5 minutos. Mover os músculos da boca na velocidade de uma preguiça com preguiça.
Basicamente, quem não conhece acha que o baseado é um soro da verdade misturado com LSD e anestesia geral. Eles esperam que você vá confessar seus maiores segredos, rir de uma parede por duas horas e depois dormir por três dias seguidos em cima de uma caixa de pizza vazia.
Mal sabem eles que, na maioria das vezes, a pessoa só está ali, sentada, tentando lembrar se trancou a porta de casa enquanto viaja no barulho da geladeira.
A verdade é que as reações que ocorrem com o cérebro da pessoa que fuma cannabis se originam no composto químico tetrahidrocanabinol (THC), que imita substâncias naturais do nosso próprio corpo e sobrecarrega os receptores do cérebro ligados ao prazer, tempo e memória.
O nosso corpo possui um sistema regulador natural chamado sistema endocanabinoide. Ele produz moléculas próprias, como a anandamida, para acalmar os neurônios e manter o cérebro em equilíbrio.
O THC possui uma estrutura química muito parecida com a dessas moléculas naturais. Quando alguém consome maconha, o THC se camufla no organismo e se conecta diretamente aos receptores canabinoides dos neurônios.
Diferente das moléculas do próprio corpo, que são liberadas de forma controlada, o THC atua de forma massiva, bloqueando o período de descanso dos neurônios, disparando uma enxurrada de impulsos nervosos e estimulando a liberação de dopamina, gerando bem-estar.
Essa alteração atinge principalmente as áreas cerebrais responsáveis pela percepção: pensamento e imaginação, que ficam intensificados e focados em uma única ideia. Cores parecem mais vivas e músicas mais intensas.
A memória de curto prazo falha temporariamente. A percepção do tempo passa mais devagar e surge a fome, conhecida como "larica".
O efeito varia de pessoa para pessoa, dependendo da genética, da dose e do tipo de consumo. Por exemplo, o fígado transforma o THC ingerido (em comestíveis) em uma forma ainda mais potente do que o THC fumado.
A polêmica e a confusão sobre a maconha chega quando não separam os dois compostos ativos chamados canabinoides: o Canabidiol (CBD) e o Tetrahidrocanabinol (THC).
O CBD é utilizado no tratamento de diversas condições de saúde, como epilepsia, dores crônicas, ansiedade, Alzheimer e autismo e não deixa ninguém chapado. No Brasil, o uso terapêutico é legalizado. Mais de 600 mil pacientes utilizam produtos derivados do CBD. As regras para acesso estão em constante expansão, incluindo autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para cultivo e pesquisa.
O THC é o canabinoide responsável pelos efeitos psicoativos e eufóricos da planta. O CBD, por outro lado, não altera a mente e é mais focado no relaxamento e controle de sintomas. As pesquisas científicas têm crescido rapidamente. A regulação e o plantio no país têm ganhado novos capítulos com autorizações da Anvisa e de instituições de pesquisa, visando baratear o custo dos tratamentos.
O THC pode fazer mal e causar efeitos colaterais significativos. A ciência possui diversas meta-análises e revisões sistemáticas detalhando seus riscos, especialmente quando consumido de forma crônica, em altas doses, ou por pessoas com predisposição genética.
Meta-estudos associam o uso de cannabis com alto teor de THC à duplicação do risco de desenvolvimento de psicoses e esquizofrenia, particularmente em indivíduos com predisposição genética.
O uso agudo causa alterações temporárias na memória de curto prazo, atenção e tempo de reação. A longo prazo, o consumo persistente pode levar a declínios neuropsicológicos. Cerca de 20% dos usuários frequentes podem desenvolver o Transtorno por Uso de Cannabis.
Pesquisas mostram que o uso frequente aumenta o risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), colocando o THC como um gatilho para problemas cardiovasculares em usuários crônicos.
Em excesso, o THC pode causar intoxicação aguda, resultando em taquicardia, pressão baixa, desorientação e graves crises de ansiedade ou paranoia. Também duplica o risco de acidentes de trânsito quando consumido antes de dirigir devido à perda de controle motor e reflexos lentos.
O plantio de maconha continua proibido no Brasil e as farmacêuticas que produzem os fármacos no brasil dependem da importação do óleo. Enquanto um frasco de CBD importado de alta concentração (6.000 mg) custa a partir de R$ 350,00 (cerca de R$ 0,05 por mg), o mesmo produto equivalente nas farmácias brasileiras pode passar de R$ 2.300,00 (cerca de R$ 0,38 por mg). Apesar disso, o valor de partida para tratamentos ainda é considerado alto para a média dos brasileiros.
A BigPharma afirma que obter um óleo purificado, livre de contaminantes e metais pesados, mantendo concentrações exatas e estáveis de canabinoides (e eliminando ou controlando o THC) exige laboratórios de alta tecnologia.
Entretanto, algumas associações de pais de filhos epiléticos dizem que não é bem assim e preparam seus próprios óleos à margem da lei com receitas encontradas on-line.
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