![]() | Imagine que explosões nucleares, asteroides ou lasers alienígenas tenham dizimado quase todos os humanos. Obviamente, haveria uma série de problemas pós-apocalípticos potenciais com os quais teríamos de lidar, dependendo do desastre em questão. Nosso suprimento de alimentos poderia estar irradiado, nossa atmosfera irrespirável, toda a água do planeta poderia ter evaporado. Qualquer uma dessas coisas nos condenaria de qualquer maneira. Mas, deixando esses problemas de lado, quantas pessoas seriam necessárias para reconstruir uma população humana geneticamente sustentável após quase ser extinta? |

Temos dados científicos reais para nos basear aqui, pois essa questão foi analisada por dois grupos de pesquisadores: aqueles que estudam espécies ameaçadas de extinção e aqueles que estudam a colonização espacial. E a grande questão aqui são os genes prejudiciais.
Qualquer ser humano provavelmente carrega genes recessivos para pelo menos uma doença mortal. E, embora uma única cópia de um desses genes não seja um problema grave, ter múltiplas cópias pode acabar causando a doença, condenando a pessoa geneticamente.
E quanto menos sobreviventes houver, menor será o pool genético disponível para as gerações futuras, aumentando as chances de uma pessoa herdar duas cópias do mesmo gene prejudicial.
Da mesma forma, quanto mais sobreviventes houver, maior será a diversidade genética e menores as chances de alguém herdar múltiplas cópias do mesmo gene causador de doenças. Portanto, deve haver um número mínimo crítico de sobreviventes.
Cientistas que estudam colônias espaciais estimaram que uma população fundadora fora da Terra provavelmente precisaria de um contingente semelhante ao da Londres do século XI -pelo menos 14.000 pessoas- para manter um pool genético saudável e preservar os aspectos tecnológicos e culturais da sociedade.
Mas aqui queremos o mínimo essencial. Podemos nos preocupar em reconstruir a sociedade e a tecnologia mais tarde. Se estivermos preocupados apenas com a sobrevivência da nossa espécie, os cálculos para colônias espaciais sugerem que poderíamos sobreviver com cerca de 5.000 pessoas.
Mas, há cerca de 800.000 anos, nossos ancestrais primatas realmente reconstruíram sua população a partir de um número ainda menor: um grupo reprodutivo de cerca de 1.300 indivíduos, depois da erupção do Toba.
Eles podem ter conseguido isso, pelo menos em parte, porque o grupo era geneticamente diverso. Provavelmente, não compartilhavam os mesmos genes prejudiciais. E, se tivéssemos muita sorte em termos genéticos, os cálculos sugerem que poderíamos sobreviver com apenas 150 a 500 pessoas, o equivalente à lotação de um único voo comercial.
Mas esse é um limite mínimo absoluto. No entanto, se pudéssemos prever o apocalipse, alguns cientistas argumentam que poderíamos sobreviver com um grupo cuidadosamente selecionado e geneticamente diverso de apenas 98 pessoas.
Nesse cenário, todos os sobreviventes teriam de estar em idade reprodutiva e seguir regras rígidas de reprodução, garantindo que cruzassem apenas com o membro da população com o qual tivessem o parentesco mais distante.
É basicamente assim que os zoológicos conduzem programas de reprodução para espécies ameaçadas de extinção; um desses programas, por exemplo, recuperou a população de furões-de-pés-pretos a partir de apenas 24 animais sobreviventes.
Esse cenário levanta uma quantidade impressionante de questões éticas, mas, teoricamente, poderia funcionar. E, se quisermos ser bem técnicos, poderíamos reiniciar a sociedade com apenas um sobrevivente.
Só precisaríamos de muito planejamento prévio. Por exemplo: se, antes mesmo de o apocalipse acontecer, criássemos um banco de embriões fertilizados congelados que o único sobrevivente pudesse gestar e dar à luz, teríamos diversidade genética suficiente para evitar o problema dos genes prejudiciais.
Esse cenário também é, obviamente, repleto de dilemas éticos, mas, teoricamente, é possível. E levaria apenas cerca de 420 anos para retornarmos ao tamanho atual da nossa população.
O estudo que analisou essa hipótese é um manuscrito acadêmico sobre o tamanho mínimo de populações humanas feito pelo pesquisador e cientista da computação Roman V. Yampolskiy, intitulado "População Humana Mínima Viável com Intervenções Inteligentes", de 2018.
O trabalho analisa cenários extremos de quase extinção e calcula que o número de indivíduos necessários para reiniciar a espécie pode cair para apenas um único sobrevivente (seja homem ou mulher), desde que esse indivíduo tenha acesso a tecnologias avançadas de reprodução assistida, inteligência artificial e um banco de embriões criopreservados ou gametas congelados.
Então, sim: com muito planejamento, poderíamos reiniciar a humanidade com apenas uma pessoa. Mas vamos evitar construir bombas nucleares desta vez, certo?
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