![]() | A maioria dos reis é lembrada por guerras, conquistas ou pelo menos por uma lei decente. O rei Adolfo Frederico da Suécia não conseguiu nada disso. Ele entrou para a história como o monarca que se sentou para jantar em 12 de fevereiro de 1771 e simplesmente não sobreviveu a uma congestão cavalar. A história, como geralmente é contada, envolve lagosta, caviar, chucrute, arenque defumado, champanhe e, como se nada disso bastasse, quatorze pãezinhos doces recheados com creme. Se você está se perguntando se uma pessoa pode realmente comer até morrer, Adolfo Frederico é o homem que os historiadores apresentam como prova de que sim, tecnicamente, talvez. |

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A verdade, como sempre, é um pouco mais complicada. Mas também é, de alguma forma, mais engraçada.
Adolfo Frederico governou a Suécia de 1751 até sua morte em 1771, o que parece impressionante até descobrirmos que ele era essencialmente uma figura decorativa constitucional com muito pouco poder real.
O Riksdag, o parlamento sueco, governava o país. Adolfo Frederico tentou assumir mais controle em pelo menos duas ocasiões e falhou em ambas. O que ele tinha de sobra era um apetite voraz e, segundo todos os relatos, uma paixão por doces que beirava a obsessão.
Vale ressaltar que sua saúde já era precária antes da famosa refeição. Ao longo de seu reinado, ele sofreu com dores de cabeça persistentes, enxaquecas, cólicas estomacais, hemorroidas e o que os médicos reais suecos registraram delicadamente como um "ruído do tempo" em seu sistema digestivo.
Em outras palavras, ele era um homem de 60 anos com um intestino profundamente problemático que decidiu celebrar a Terça-feira Gorda testando seus limites absolutos.
O dia 12 de fevereiro de 1771 era o Fettisdagen, o equivalente sueco à Terça-feira Gorda (terça de carnaval no Brasil), o dia anterior ao início da Quaresma e historicamente um dia de banquetes antes das semanas de escassez que se seguiriam.
O rei levou essa tradição muito a sério. O jantar no Palácio de Estocolmo teria incluído lagosta, caviar, arenque defumado, chucrute, carnes cozidas, nabos e pato, tudo regado com champanhe. A essa altura, uma pessoa sensata poderia considerar a noite encerrada. Adolfo Frederico chamou aquilo de entrada.
Para a sobremesa, ele passou para os semlor, os tradicionais pãezinhos suecos da Terça-feira Gorda. Um semla (o plural é semlor) é um pãozinho de trigo recheado com pasta de amêndoas, coberto com chantilly e polvilhado por canela ou açúcar de confeiteiro, servido em uma tigela de leite morno. São ricos, densos e deliciosos.

Normalmente, não se comem quatorze de uma vez. Segundo a versão mais difundida dos acontecimentos, foi exatamente isso que Adolfo Frederico fez. Logo em seguida, vieram as cólicas estomacais. O rei morreu poucas horas depois.
É aqui que a coisa fica interessante. A principal fonte para a versão dos fatos de que o rei "comeu até morrer" é o Conde Johan Gabriel Oxenstierna, que escreveu em seu diário que a morte do rei ocorreu devido a uma indigestão causada por pãezinhos doces, chucrute, carne com nabos, lagosta, caviar, pato e champanhe.
Os historiadores observam, com certa moderação, que Johan era conhecido por se expressar de forma dramática. Sua entrada no diário parece menos um relatório médico e mais o relato de um homem que já havia decidido qual seria a história e não deixaria que os fatos interferissem.
Os médicos reais que examinaram o corpo concluíram que a causa da morte foi um derrame. Os registros do palácio daquele período também estão desaparecidos, o que significa que não há registro oficial do que foi servido no banquete.
Pesquisadores do Arsenal Real da Suécia apontaram que os primeiros boletins oficiais anunciando a morte do rei não mencionaram os pãezinhos semlor. Os pãezinhos se tornaram os principais suspeitos, principalmente porque ele morreu no dia em que tradicionalmente são consumidos, e porque isso tornava a história muito mais convincente.
O médico real, Dr. Herman Schützercrantz, realizou a autópsia aproximadamente um dia após a morte do rei. Ele observou que o estômago continha restos de uma refeição recente, o que pelo menos confirma que houve um jantar.
Entretanto, surpreendentemente, tanto o intestino delgado quanto o grosso estavam quase completamente vazios. Em uma pessoa saudável, isso seria estranho.
Para Adolfo Frederico, que tinha problemas digestivos crônicos e pode muito bem ter recebido um enema antes do banquete para, como disseram os pesquisadores do Arsenal Real, "preparar o terreno para a grande refeição", isso era assustadoramente coerente com a maneira como o homem parecia lidar com o próprio corpo.
Herman também observou sinais que sugeriam que o rei estava desenvolvendo câncer de estômago ou intestino, provavelmente relacionado aos seus hábitos alimentares ao longo da vida. Portanto, de qualquer forma, a alimentação teve um papel na morte de Adolfo Frederico. Só levou algumas décadas para que o efeito fosse completo.
Então, ele se matou comendo ou não? A resposta honesta é: mais ou menos, mas provavelmente não de uma só vez. Os pesquisadores do Arsenal Real resumiram bem a situação ao concluírem que o rei se matou comendo da mesma forma que Johan descreveu, mas foi um processo que se desenrolou ao longo de muito tempo.
Um homem de 60 anos com doença digestiva crônica, hemorroidas, histórico de derrames e um padrão alimentar rico e pobre em fibras ao longo da vida, sentou-se para uma refeição enorme em um dia em que tal excesso era culturalmente esperado, e seu corpo finalmente sucumbiu. Os semlor podem ou não ter estado envolvidos, mas quatorze deles é quase certamente um exagero.
O que é certo é que Adolfo Frederico passou vinte anos, em grande parte insignificantes, no trono sueco, falhou duas vezes em reivindicar qualquer poder real e agora é lembrado quase exclusivamente pelo que jantou na última noite de sua vida.
Crianças suecas em idade escolar conhecem seu nome. A Suécia o usa como um conto de advertência todos os anos quando chega a época dos semlor.
Há algo de apropriadamente bizarro em um homem que não conseguiu manter seu reino se tornar imortal por se empanturrar com um bolinho açucarado.
Em tempo: muito provavelmente sua mãe já te alertou que não deve tomar banho depois de uma refeição farta para não ter uma congestão alimentar. Este mito muito estendido sobre pessoas que sofrem de congestão ao nadar na piscina ou no mar é só isso: um mito.
O perigo real não está na água em si, mas sim na prática de exercícios físicos intensos, como nadar vigorosamente, de estômago cheio.
Acreditava-se que o sangue "fugiria" do estômago para os músculos durante a natação, parando a digestão, mas a verdade é que o corpo é capaz de suprir tanto a digestão quanto a movimentação leve.
O verdadeiro risco está no esforço físico extremo logo após uma refeição pesada, que pode desviar o fluxo sanguíneo, causando enjoo, tontura e mal-estar (a chamada congestão alimentar).
Se você estiver apenas flutuando, caminhando na beira do mar ou tomando um banho relaxante (especialmente com água morna), não há risco para a saúde.
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